Persona non grata: sionismo e a guerra híbrida contra o Brasil
Como a máquina político-militar israelense atua para desestabilizar democracias do Sul Global e por que o Brasil de Lula é um alvo estratégico em 2026
“Persona non grata” costuma ser lida como formalidade diplomática, um rótulo protocolar que sinaliza desagrado. No tabuleiro real do poder, porém, a expressão cumpre outra função. Ela opera como ato de coerção política e como dispositivo de guerra psicológica. Quando o sionismo, por meio do Estado de Israel, declarou o presidente Lula persona non grata, em fevereiro de 2024, não respondeu a uma frase isolada. Estabeleceu um marco de intimidação dirigido ao Brasil e, por extensão, ao conjunto de países do Sul Global que ousam nomear a violência em Gaza como ela é, questionar a legalidade das ações israelenses e sustentar a centralidade do direito internacional.
A forma importa tanto quanto o conteúdo. A diplomacia clássica privilegia a discrição porque busca administrar conflitos. A coerção privilegia a visibilidade porque busca produzir efeitos. A reprimenda pública, encenada para circular globalmente, transformou um desacordo político em espetáculo disciplinador. O objetivo não era convencer, mas enquadrar. Ao converter crítica política em afronta moral, deslocou-se o debate do terreno jurídico e estratégico para o terreno da culpa e do interdito. A mensagem implícita é simples e dura: há custos reputacionais e políticos para quem desafia a narrativa dominante, e esses custos não se limitam ao campo diplomático.
Em contextos de assimetria de poder, esse tipo de gesto funciona como veto simbólico. Ele não fecha apenas portas formais, mas tenta restringir o espaço de fala, deslegitimar o interlocutor diante de aliados, mercados, imprensa e audiências domésticas. É um instrumento de pressão que testa limites, mede resistências e prepara o terreno para escaladas posteriores, sem a necessidade de sanções explícitas ou rupturas definitivas.
No caso brasileiro, o gesto teve alvos múltiplos. No plano externo, sinalizou a governos e organismos multilaterais que o custo de alinhar-se a posições críticas seria elevado. No plano interno, alimentou a guerra informacional ao oferecer munição para atores que, dentro do Brasil, trabalham para apresentar a política externa soberana como irresponsável, ideológica ou hostil ao chamado “Ocidente”. A coerção simbólica externa encontra, assim, correias de transmissão domésticas prontas para amplificá-la.
O Brasil foi escolhido não por acaso. Ao sustentar uma política externa ativa, ao articular-se com o Sul Global, ao apoiar iniciativas jurídicas internacionais e ao recusar a naturalização da violência como método legítimo de ação internacional, o país tocou em linhas sensíveis da arquitetura de poder contemporânea. Declarar Lula persona non grata foi menos um gesto de indignação e mais um aviso estratégico: a autonomia tem preço, e quem insiste em exercê-la será enquadrado.
Tratar esse episódio como excesso retórico é erro analítico. Ele se inscreve numa lógica mais ampla de guerra híbrida, na qual símbolos, narrativas e gestos públicos são utilizados para condicionar decisões soberanas e moldar comportamentos políticos. Ignorar a natureza desse movimento é abrir mão da capacidade de resposta. Reconhecê-lo é o primeiro passo para compreender o que está em jogo quando a diplomacia deixa de ser mediação e passa a operar como instrumento de intimidação política.
O sionismo como potência de guerra híbrida: além de Gaza, além das bombas
Reduzir a atuação do sionismo contemporâneo ao campo militar é um erro analítico grave. Bombas e tanques são a face mais visível de um complexo de poder que opera com muito mais eficácia no terreno da guerra híbrida. Nesse terreno, o objetivo não é apenas vencer batalhas, mas condicionar decisões, moldar percepções, disciplinar aliados e neutralizar dissensos antes que eles se convertam em políticas de Estado. Gaza é o laboratório extremo. O mundo é o campo de aplicação.
A guerra híbrida sionista articula três eixos que se reforçam mutuamente. O primeiro é o eixo psicológico e informacional. Nele, a disputa central não é por território, mas por sentido. Críticas a ações militares são sistematicamente deslocadas do campo jurídico e político para o campo moral. O vocabulário não é neutro. Termos como antissemitismo, terrorismo e autodefesa são mobilizados como armas semânticas para interditar debates e impor fronteiras discursivas. O efeito buscado é a autocensura de governos, instituições e veículos que passam a calcular o custo reputacional de cada posicionamento.
O segundo eixo é o financeiro e econômico. O sionismo opera em simbiose com circuitos de capital capazes de premiar alinhamentos e punir desvios. Isso não se dá, em regra, por sanções formais, mas por sinais difusos que atravessam mercados, fundos, avaliações de risco e relações comerciais. Países que desafiam narrativas hegemônicas passam a ser retratados como instáveis, imprevisíveis ou hostis ao investimento. O objetivo não é colapsar economias, mas introduzir fricção, elevar o custo político de decisões soberanas e criar pressões internas por “moderação”.
O terceiro eixo é o tecnológico e securitário. Israel se consolidou como exportador global de soluções de vigilância, forense digital, cibersegurança e controle populacional, muitas delas testadas em contextos de ocupação e conflito. Essas tecnologias não são neutras. Elas carregam doutrinas, protocolos e formas específicas de gestão do poder. Ao serem incorporadas por Estados do Sul Global, criam dependências operacionais e alinham práticas institucionais a uma lógica de securitização permanente. O controle passa a ser apresentado como modernização. A vigilância, como eficiência.
Esses eixos convergem em uma mesma lógica operacional: intervir sem ocupar, influenciar sem declarar guerra, punir sem assumir responsabilidade direta. É por isso que a guerra híbrida se mostra particularmente eficaz contra as democracias. Ela opera abaixo do limiar do conflito armado, explorando fissuras institucionais, polarizações internas e vulnerabilidades comunicacionais. Não exige tanques nas ruas. Exige narrativas bem posicionadas, contratos estratégicos, plataformas tecnológicas e alianças políticas funcionais.
No Sul Global, essa estratégia encontra terreno fértil. Estados marcados por histórias coloniais, economias dependentes e instituições pressionadas tornam-se alvos preferenciais. O sionismo não atua isoladamente. Opera em sinergia estrutural com os Estados Unidos e com redes transnacionais da extrema-direita, que compartilham diagnósticos, inimigos e métodos. A defesa incondicional de Israel converte-se, nesse arranjo, em marcador de pertencimento ao campo “civilizacional correto”. Questioná-la passa a ser tratado como desvio intolerável.
O Brasil de Lula entra nesse tabuleiro não como exceção, mas como caso exemplar. Ao sustentar posições autônomas em política externa, ao dialogar com o Sul Global e ao reafirmar o direito internacional como referência, o país colide com uma lógica que não admite ambiguidade. A reação não precisa ser militar. Ela se expressa em gestos simbólicos, pressões narrativas, mobilização de aliados internos e tentativas de enquadramento internacional. Compreender o sionismo como potência de guerra híbrida é, portanto, condição necessária para ler o presente. O conflito não se limita a territórios ocupados ou a ciclos de violência armada. Ele atravessa eleições, instituições e subjetividades, moldando o campo de possibilidades políticas no qual democracias soberanas tentam sobreviver.
O Brasil no radar: soberania, Lula e o erro imperdoável de dizer não
O Brasil não entrou no radar do sionismo por retórica circunstancial nem por ruído diplomático. Entrou por decisão política consciente. Em um sistema internacional estruturado pela assimetria, a recusa explícita à subordinação é um ato raro e, por isso mesmo, intolerável. Ao recuperar uma política externa ativa, reafirmar o multilateralismo como eixo estratégico e recolocar o Sul Global como sujeito histórico, o governo Lula rompeu com a expectativa de alinhamento automático que marcou períodos recentes. Esse é o ponto de inflexão. Não Gaza em si, mas o significado político de Gaza no reposicionamento soberano do Brasil.
O erro imperdoável, do ponto de vista das arquiteturas de poder que operam a guerra híbrida, foi a repolitização da soberania. O Brasil voltou a falar com África, América Latina, Ásia e Oriente Médio sem pedir autorização prévia. Voltou a sustentar que o direito internacional não é ornamento retórico, mas critério material de ação. Voltou a afirmar que a violência sistemática contra populações civis não pode ser normalizada como método legítimo de política externa. Em um mundo cada vez mais organizado pela força e pela exceção permanente, essa postura reabre fissuras que muitos consideravam encerradas.
O sionismo lê esse movimento com clareza estratégica. Estados com peso demográfico, econômico e simbólico, quando atuam de forma autônoma, tornam-se multiplicadores de exemplo. Não importa apenas o que fazem, mas o que autorizam outros a fazer. O Brasil sinaliza que é possível sustentar posições firmes sem romper com a institucionalidade internacional, sem abdicar da democracia e sem aceitar a lógica da obediência silenciosa. Para uma ordem global que depende da disciplina periférica, isso representa risco sistêmico.
Há um elemento adicional que amplia essa percepção de ameaça. O Brasil não é um ator marginal. É uma democracia de massas, com eleições competitivas, imprensa plural e capacidade real de influenciar agendas regionais e globais. Quando um país com essas características sustenta críticas à conduta israelense e apoia iniciativas jurídicas internacionais, ele legitima o dissenso. O que antes era tratado como posição excêntrica passa a ocupar o centro do debate. Esse deslocamento simbólico é precisamente o que a guerra híbrida busca impedir.
A reação, portanto, não é emocional nem improvisada. É estratégica. O objetivo não é punir o Brasil de forma exemplar, mas condicionar o seu comportamento futuro e interferir no seu ciclo político. As eleições de 2026 surgem, nesse contexto, como janela privilegiada de oportunidade. Um governo que reafirma soberania, multipolaridade e autonomia decisória precisa ser fragilizado, isolado ou substituído antes que consolide ganhos estruturais difíceis de reverter.
Nesse ponto, o Brasil expõe uma vulnerabilidade histórica. Sua política externa sempre foi utilizada como instrumento de disputa doméstica. Quando o país se projeta de forma autônoma, emergem narrativas internas que o acusam de ideologização, irresponsabilidade ou isolamento internacional. A guerra híbrida opera justamente sobre essa fissura. Pressões simbólicas externas alimentam discursos internos que buscam reverter escolhas soberanas em nome de uma suposta normalidade global.
O sionismo atua nesse tabuleiro com precisão. Não precisa impor sanções formais nem romper relações de maneira abrupta. Basta elevar o custo político da autonomia. Basta transformar cada gesto soberano em fator de instabilidade calculada. O Brasil, ao dizer não, passou a ser tratado como um problema a ser administrado. Não porque represente ameaça militar, mas porque desafia a arquitetura de poder que naturaliza hierarquia, violência e submissão no sistema internacional.
Por isso, o foco não se restringe à política externa. Ele se desloca para o campo político interno, onde a disputa se decide. O Brasil entrou no radar porque voltou a agir como sujeito histórico. Em um mundo organizado para punir sujeitos autônomos, isso é suficiente para acionar mecanismos de pressão que operam abaixo do limiar do conflito aberto. Compreender essa dinâmica é condição para entender por que a disputa em torno de Gaza atravessa o Brasil e por que 2026 não será apenas uma eleição, mas um teste decisivo de soberania democrática.
A máquina interna: como o sionismo opera dentro do Brasil
Nenhuma estratégia de guerra híbrida opera apenas por pressão externa. Ela depende de interfaces internas, de atores capazes de traduzir interesses geopolíticos em disputas domésticas e de converter coerção simbólica em conflito político cotidiano. No Brasil, o sionismo encontrou, ao longo dos últimos anos, um terreno particularmente propício para esse tipo de operação. Não por conspiração difusa, mas por convergência de interesses, afinidades ideológicas e dependências estruturais que antecedem o atual ciclo eleitoral.
O primeiro vetor dessa engrenagem interna é o evangelismo político, especialmente o sionismo cristão. Nesse campo, Israel deixa de ser um Estado e passa a operar como símbolo teológico-político. A política externa é deslocada para o terreno da fé, e qualquer crítica à conduta israelense é enquadrada como afronta religiosa. Esse deslocamento é decisivo porque retira o debate do campo racional e jurídico e o inscreve no campo identitário. Já não se discute proporcionalidade, legalidade ou soberania. Discute-se pertencimento, salvação e ameaça. Trata-se de um dispositivo de mobilização emocional de alta intensidade, com impacto direto sobre comportamentos eleitorais.
Esse vetor religioso articula-se com bancadas parlamentares pró-Israel e frentes legislativas que operam uma diplomacia paralela. Sessões solenes, moções de apoio, audiências públicas e viagens oficiais produzem uma narrativa contínua de alinhamento incondicional. O objetivo não é formular política externa consistente, mas pressionar o Executivo, constranger o Itamaraty e fabricar fatos políticos que possam ser explorados no ecossistema midiático. A diplomacia parlamentar, nesse contexto, deixa de ser instrumento de diálogo e converte-se em ferramenta de coerção interna.
Há também a dimensão empresarial e financeira, frequentemente tratada com silêncio ou cautela excessiva. Empresas israelenses ou associadas a capitais sionistas atuam em setores estratégicos no Brasil, especialmente nas áreas de segurança, tecnologia, defesa e vigilância. Esses vínculos criam redes de interesse duradouras que atravessam governos, burocracias e contratos de longo prazo. Não se trata de ilegalidade automática, mas de dependência estrutural. Quando decisões soberanas ameaçam esses circuitos, a reação ocorre por meio de lobby, pressão institucional e enquadramento narrativo de risco e instabilidade.
A mídia funciona como outro elo central dessa engrenagem. Parte significativa da cobertura tende a reproduzir, de forma acrítica, os enquadramentos centrais da narrativa sionista. A hierarquização das vítimas, a escolha das fontes e o vocabulário empregado não são neutros. O resultado é um ambiente informacional no qual a crítica à violência em Gaza aparece como radicalismo, enquanto o alinhamento incondicional é tratado como moderação responsável. Esse viés não exige coordenação explícita para ser eficaz. Ele opera por inércia estrutural e por alinhamentos históricos.
O elemento mais sensível dessa máquina interna, porém, é sua convergência com a extrema-direita brasileira. O bolsonarismo incorporou Israel como peça central de sua identidade política. Não apenas como aliado externo, mas como modelo de Estado forte, militarizado e permanentemente mobilizado contra inimigos internos e externos. Essa estetização da força dialoga diretamente com o imaginário autoritário presente em setores da sociedade brasileira. Israel passa a ser apresentado como prova de que democracia formal e exceção permanente podem coexistir, desde que o inimigo seja corretamente nomeado.
Essa convergência explica por que a pressão externa encontra tão pouca resistência organizada no interior do país. Ela não precisa se impor de forma explícita. Ela se reproduz. A guerra híbrida atinge, nesse ponto, sua forma mais eficiente. O conflito deixa de ser percebido como interferência estrangeira e passa a ser vivido como disputa doméstica legítima. A soberania se dissolve no ruído. O debate público se fragmenta. Decisões estratégicas tornam-se reféns de narrativas mobilizadas por atores que operam, consciente ou inconscientemente, como extensões de interesses externos.
Compreender essa máquina interna é fundamental para ler o momento brasileiro. O sionismo não atua apenas como agente externo oportunista. Ele se ancora em estruturas já existentes, explora fissuras históricas e ativa alianças que atravessam religião, política, economia e comunicação. É essa capilaridade que transforma pressão geopolítica em ameaça concreta à democracia. Nos próximos tópicos, ficará evidente como essa engrenagem se aprofunda em áreas ainda mais sensíveis do Estado, onde o debate público é rarefeito e os riscos institucionais se multiplicam.
Segurança, polícia e tecnologia: o poder silencioso que quase ninguém debate
Toda guerra híbrida eficaz se ancora em um núcleo material pouco visível, protegido por linguagem técnica e distante do debate público. No Brasil, esse núcleo se manifesta na intersecção entre segurança pública, tecnologia e controle informacional. É nesse terreno que o sionismo opera com maior eficiência, porque ali o discurso da modernização, do combate ao crime e da eficiência administrativa neutraliza resistências e obscurece custos democráticos de longo prazo.
Israel consolidou-se como exportador global de tecnologias de vigilância, forense digital, inteligência e cibersegurança. Essas ferramentas não são neutras. Elas incorporam doutrinas de uso, modelos de gestão do conflito e uma visão específica sobre população, ameaça e controle, testadas em contextos de ocupação permanente e exceção continuada. Ao serem incorporadas por Estados democráticos do Sul Global, produzem um deslocamento silencioso das práticas institucionais, naturalizando a lógica da suspeita e da vigilância contínua como política pública ordinária.
No Brasil, a incorporação dessas tecnologias ocorreu majoritariamente no interior de polícias, órgãos de investigação e estruturas de segurança pública. Softwares de extração e análise de dados, monitoramento de comunicações e soluções de inteligência passaram a integrar o cotidiano estatal sem debate proporcional à sua potência política. O argumento recorrente é o da necessidade. Crime organizado, terrorismo, violência urbana. Tudo é amalgamado em um mesmo campo semântico que legitima a expansão permanente do aparato de controle.
O problema central não reside apenas no uso pontual dessas ferramentas, mas na dependência estrutural que elas criam. Contratos de longo prazo, atualizações constantes, treinamentos especializados e integração com outros sistemas geram vínculos duradouros entre instituições brasileiras e fornecedores estrangeiros. A capacidade de auditoria se reduz. A autonomia tecnológica se dilui. Decisões estratégicas passam a ser condicionadas por ecossistemas que escapam ao controle democrático e ao escrutínio público.
Esse processo ganha gravidade adicional em ano eleitoral. A capacidade de coletar, cruzar e interpretar grandes volumes de dados se converte em poder político, mesmo quando não há uso ilegal comprovado. A simples existência de infraestruturas avançadas de vigilância altera o equilíbrio institucional. O risco maior não é a interferência direta, mas o efeito disciplinador. Movimentos sociais, jornalistas, lideranças políticas e cidadãos passam a atuar sob a percepção de monitoramento permanente, e a autocensura se instala como comportamento racional.
O sionismo compreende profundamente essa dinâmica. A exportação de tecnologia de segurança não é apenas negócio. É instrumento de influência estratégica. Ao fornecer soluções críticas, cria-se uma relação assimétrica em que o fornecedor detém conhecimento, atualizações e capacidade de resposta. Em contextos de crise política, essa assimetria pode ser explorada para pressionar decisões, atrasar processos ou condicionar agendas, sem necessidade de intervenção aberta.
No Brasil, essa lógica encontra convergência com o discurso da extrema-direita. Segurança, ordem e controle constituem pilares centrais de sua narrativa. Tecnologias de vigilância avançada reforçam a imagem de Estado forte e eficiente, mesmo quando corroem garantias democráticas. Israel surge como referência de sucesso. Um Estado permanentemente mobilizado, capaz de controlar inimigos internos e externos sem hesitação. Essa estética da força encontra eco em segmentos das polícias e do aparato de segurança, criando afinidades perigosas.
O silêncio que envolve esse tema não é acidental. Ele é funcional. Enquanto o debate público se concentra em disputas episódicas e escândalos pontuais, a infraestrutura de controle se consolida de forma incremental. A guerra híbrida avança não pelo choque, mas pela normalização. Cada contrato, cada software e cada integração técnica aprofunda um caminho de difícil reversão. Quando a sociedade percebe, a arquitetura já está instalada.
Compreender esse eixo é indispensável para avaliar os riscos que cercam a democracia brasileira em 2026. A disputa não se limita ao plano simbólico ou eleitoral. Ela se desenrola no subsolo do Estado, onde decisões técnicas moldam capacidades políticas. Ignorar esse terreno é aceitar que o jogo seja decidido longe do olhar público. Reconhecê-lo é condição mínima para qualquer reação soberana que pretenda proteger a democracia de pressões externas e de seus desdobramentos internos.
Militares, indústria de defesa e a estetização da força
A guerra híbrida não se limita à arena civil nem às disputas eleitorais. Ela avança com especial eficácia quando consegue moldar o imaginário estratégico de Estados e elites políticas. No Brasil, esse imaginário passa, inevitavelmente, pelas Forças Armadas e pela indústria de defesa. É nesse campo que o sionismo atua de forma silenciosa e persistente, não apenas oferecendo equipamentos, mas exportando um modelo de poder baseado na militarização permanente e na naturalização da exceção.
Israel construiu sua reputação internacional como Estado em conflito contínuo. Essa condição, longe de ser apresentada como problema, é convertida em ativo estratégico. A prontidão permanente, a vigilância total e a resposta imediata a ameaças são vendidas como virtudes organizacionais e doutrinárias. No mercado global de defesa, isso se traduz em sistemas, treinamentos e parcerias que carregam consigo uma visão específica de segurança. Não se trata apenas de adquirir tecnologia, mas de internalizar uma lógica.
No Brasil, a cooperação com a indústria de defesa israelense consolidou-se ao longo de anos por meio de acordos, joint ventures e integração de sistemas. Sensores, sistemas de comando e controle, tecnologias de vigilância e soluções antidrones entram no aparato militar sob o discurso da modernização. O léxico é técnico, mas o efeito é político. Ao associar eficiência militar à experiência israelense, cria-se uma referência normativa que desloca o horizonte do debate estratégico e normaliza a exceção como parâmetro desejável.
Esse processo dialoga diretamente com a cultura política da extrema-direita brasileira. O bolsonarismo construiu sua identidade exaltando ordem, disciplina e o uso irrestrito da força contra inimigos definidos de forma ampla. Israel surge, nesse imaginário, como prova empírica de que é possível sustentar uma democracia formal enquanto se opera sob lógica permanente de guerra. Essa leitura ignora deliberadamente os custos humanos, jurídicos e institucionais desse modelo, mas cumpre uma função simbólica central.
O risco não reside apenas na compra de equipamentos ou na cooperação industrial. Ele se manifesta na colonização do pensamento estratégico. Quando a doutrina de segurança passa a ser informada por experiências externas, testadas em contextos de ocupação e conflito assimétrico, as especificidades nacionais são rebaixadas. O Brasil, país de dimensão continental, diversidade social e desafios próprios, passa a importar soluções concebidas para realidades radicalmente distintas. A soberania, nesse movimento, cede lugar ao mimetismo.
Esse mimetismo se intensifica em momentos de instabilidade política. Em cenários de polarização, cresce a tentação de recorrer a soluções militares para problemas essencialmente políticos. A indústria de defesa, nesse contexto, não atua apenas como fornecedora. Ela se converte em produtora de sentido, oferecendo respostas prontas para ansiedades difusas sobre segurança, crime e ordem social. O sionismo, ao ocupar esse espaço, amplia sua influência sem necessidade de intervenção direta.
Há ainda um efeito estrutural sobre a relação entre civis e militares. A valorização acrítica do modelo israelense reforça a ideia de que ameaças internas devem ser tratadas com ferramentas de guerra. Isso tensiona o pacto democrático e reconfigura o papel das Forças Armadas na vida política. A fronteira entre defesa externa e controle interno torna-se porosa. A exceção infiltra-se na norma e passa a orientar práticas institucionais.
No contexto das eleições de 2026, esse cenário adquire relevância adicional. A militarização do discurso político, alimentada por referências externas, cria ambiente propício à deslegitimação de processos democráticos. Quando a força é estetizada e apresentada como solução universal, a política perde centralidade. O conflito deixa de ser mediado por instituições e passa a ser tratado como confronto existencial.
Compreender o papel do sionismo nesse campo é reconhecer que a guerra híbrida não opera apenas por pressão externa ou manipulação informacional. Ela atua na formação do olhar estratégico de elites civis e militares, orientando escolhas, prioridades e percepções de ameaça. Ignorar essa dimensão é subestimar a profundidade do desafio. Reconhecê-la é condição necessária para preservar a autonomia do pensamento estratégico brasileiro e a integridade da democracia diante de modelos de poder que se apresentam como inevitáveis, mas não são.
Eleições de 2026: o sionismo como vetor de desestabilização democrática
As eleições de 2026 não são um evento administrativo do calendário institucional. Elas funcionam como ponto de condensação de forças que se acumulam ao longo de anos. Convergem ali a disputa por soberania, a guerra informacional, a pressão externa e a atuação de atores internos alinhados a projetos que operam além das fronteiras nacionais. Nesse cenário, o sionismo atua menos como agente visível e mais como vetor estruturante de desestabilização democrática, organizando sentidos, ativando alianças e condicionando comportamentos políticos.
O primeiro movimento é narrativo. Gaza é convertida em arma doméstica. A crítica à violência sistemática contra civis deixa de ser debate jurídico ou humanitário e passa a ser enquadrada como desvio moral. O vocabulário não é inocente. Antissemitismo, terrorismo, ódio. Esses termos são mobilizados para interditar o debate, elevar o custo simbólico da crítica e produzir autocensura em campanhas, partidos, imprensa e instituições. Em contexto eleitoral, esse mecanismo é decisivo. A política passa a ser guiada pelo medo da sanção reputacional, não pelo conteúdo das posições.
O segundo movimento é a mobilização identitária de alta intensidade. Israel é apresentado como marcador civilizacional, religioso e político. O sionismo cristão atua como correia de transmissão entre a guerra externa e a disputa interna, convertendo política externa em questão de fé. Não se trata de conquistar maioria absoluta, mas de operar por intensidade. Uma base altamente mobilizada, disciplinada e emocionalmente engajada é suficiente para deslocar o debate público, pressionar instituições e criar sensação permanente de instabilidade. Em eleições polarizadas, isso altera o equilíbrio do jogo.
O terceiro movimento é a articulação transnacional com a extrema-direita global, especialmente o trumpismo. Nesse circuito, a defesa incondicional de Israel funciona como idioma comum. Ela sinaliza pertencimento a um campo político que rejeita o multilateralismo, despreza o direito internacional e naturaliza a exceção como método. O Brasil de Lula, ao sustentar posições autônomas e dialogar com o Sul Global, passa a ser enquadrado como anomalia. Esse enquadramento é reproduzido por redes internacionais, think tanks, influenciadores, plataformas digitais e meios de comunicação alinhados, criando um cerco narrativo que atravessa fronteiras e retroalimenta a disputa interna.
Há ainda o eixo da pressão institucional indireta. Bancadas parlamentares, lideranças religiosas, segmentos da mídia e atores do sistema de segurança operam como multiplicadores dessa pressão. Não é necessário fraudar eleições para corroê-las. Basta deslegitimar preventivamente o processo, alimentar suspeitas, tensionar decisões judiciais e apresentar qualquer resultado desfavorável como produto de conspiração. A guerra híbrida atua por erosão lenta. Ela mina a confiança pública antes mesmo da apuração dos votos.
Nesse contexto, o sionismo não precisa aparecer como interferência estrangeira explícita. Sua eficácia depende justamente de se tornar invisível como força externa e onipresente como narrativa doméstica. A intervenção ocorre por alinhamento, não por imposição. Por convergência de interesses, não por comando formal. É essa característica que torna o vetor particularmente perigoso para democracias abertas. O ataque não vem de fora. Ele emerge de dentro, legitimado por discursos de ordem, fé e civilização.
O risco colocado para 2026, portanto, não é apenas eleitoral. É institucional. A tentativa de condicionar o resultado passa por enfraquecer a autoridade do Estado, tensionar o sistema de justiça e fragmentar a sociedade em campos inconciliáveis. O sionismo, ao operar como eixo simbólico e estratégico dessa ofensiva, amplia o alcance da desestabilização sem assumir seus custos diretos. O Brasil torna-se palco de uma disputa que extrapola suas fronteiras, mas se decide no interior de suas próprias instituições.
Ler as eleições de 2026 fora desse enquadramento é subestimar o desafio histórico em curso. O pleito não será apenas uma escolha entre projetos nacionais. Será um teste de resiliência democrática diante de pressões que combinam guerra psicológica, alinhamentos transnacionais e instrumentalização da fé, da segurança e do medo. Reconhecer o papel do sionismo nesse processo não é paranoia nem retórica inflamada. É análise de poder. E, em tempos de guerra híbrida, ignorar o poder equivale a aceitar a derrota antes da disputa.
O alerta histórico: soberania, democracia e a escolha que se impõe
O momento brasileiro não comporta ambiguidades confortáveis. O que está em curso não é um desacordo pontual de política externa nem uma controvérsia retórica circunscrita a Gaza. Trata-se de uma disputa estrutural por soberania, na qual a democracia brasileira é pressionada por vetores externos que operam por meio de guerra híbrida e por vetores internos que reproduzem, amplificam e normalizam essa pressão. O sionismo, enquanto projeto político-militar transnacional, ocupa posição central nesse arranjo.
A história ensina que democracias raramente caem de uma vez. Elas se esgotam quando deixam de reconhecer o conflito real, quando confundem coerção simbólica com ruído diplomático e quando tratam dependência tecnológica como modernização neutra. A guerra híbrida prospera exatamente nesse terreno. Avança quando o Estado hesita, quando as instituições se descoordenam e quando a sociedade é empurrada para disputas identitárias que ocultam o conflito material em curso.
O Brasil de 2026 encontra-se diante dessa bifurcação. De um lado, a continuidade de um projeto soberano que afirma o direito internacional, a multipolaridade e a autonomia decisória como fundamentos da política externa e da democracia interna. De outro, a normalização de uma lógica de subordinação, na qual interesses externos passam a condicionar escolhas nacionais por meio de pressões narrativas, dependências tecnológicas e alianças oportunistas. Não há neutralidade possível entre esses caminhos.
A defesa da democracia, nesse contexto, não se limita ao rito eleitoral. Ela exige proteção do espaço público contra a captura informacional, vigilância sobre vínculos opacos entre Estado e fornecedores estratégicos e contenção de projetos que instrumentalizam fé, segurança e medo para corroer instituições por dentro. Exige, sobretudo, reconhecer que soberania não é abstração. É capacidade concreta de decidir sem coerção.
Este texto não é manifesto nem exercício retórico. É um alerta estratégico ancorado em padrões observáveis de poder. Estados que identificam a tempo os vetores de desestabilização ampliam suas chances de resistir. Estados que preferem a negação, em nome de consensos frágeis ou conveniências imediatas, tendem a pagar preços elevados e duradouros.
O Brasil ainda tem escolha. Possui instituições, sociedade civil, tradição diplomática e densidade política para responder à altura do desafio. Mas a resposta começa pelo reconhecimento do problema. O sionismo, enquanto agente externo oportunista e articulador de guerra híbrida, atua, infiltra-se, condiciona e testa limites. Ignorá-lo é abdicar da defesa democrática. Enfrentá-lo, com inteligência estratégica e compromisso soberano, é condição para atravessar 2026 preservando aquilo que foi conquistado a duras penas.
A história raramente concede avisos claros. Quando concede, cabe aos povos decidir se querem permanecer sujeitos ou aceitar o papel de alvos.
* Este é um artigo de opinião, de responsabilidade do autor, e não reflete a opinião do Brasil 247.



