Paulo Henrique Arantes avatar

Paulo Henrique Arantes

Jornalista há quase quatro décadas, é autor do livro "Retratos da Destruição: Flashes dos Anos em que Jair Bolsonaro Tentou Acabar com o Brasil". Editor da newsletter "Noticiário Comentado" (paulohenriquearantes.substack.com)

431 artigos

HOME > blog

PF lavajatista ganhará poder num governo Flávio Bolsonaro

Avanço de setores lavajatistas na PF e atuação de Mendonça no STF alimentam suspeitas de uso político das investigações e de poder ampliado num governo Flávio

André Mendonça (Foto: Marcelo Camargo/Agência Brasil | Ton Molina/STF)

A Folha de S. Paulo sai com uma manchete bem ao seu estilo nesta terça-feira (10): “Relação de Vorcaro com políticos arrasta nomes de direita e esquerda para escândalo do Banco Master”. Na lista de “nomes ligados” ao mafioso está o de Lula. A tentativa do jornalão de envolver o presidente da República no caso é patética, especialmente quando se sabe que Daniel Vorcaro deu com os burros n’água quando tentou aproximar-se de Lula. A conduta do melífluo periódico atesta o que já se aventa há algum tempo: o inquérito que apura as fraudes do Banco Master e do seu entorno transforma-se numa reedição da Lava Jato, servindo a finalidades eleitorais, com a Polícia Federal – ou parte dela – exercendo liberdade excessiva para perseguir e vazar. Sempre seletivamente.

O possível conluio entre a PF e o relator André Mendonça, representante evangélico-bolsonarista no Supremo Tribunal Federal, avança à condição de provável ou até de evidente. O procurador-geral da República, Paulo Gonet, firma-se como espectador. Se os ministros Alexandre de Moraes e Dias Toffoli mantiveram relações impróprias com Vorcaro, que se retratem pela falha ética ou sejam punidos conforme a lei, se cometeram crime. O que se vê, contudo, é um terceiro ministro favorecendo a destruição institucional do tribunal, mais importante esteio de preservação democrática com que conta o país.

Sabe-se que os golpistas nadarão de braçadas no dia em que o STF restar impotente. E eles estão mais vivos do que nunca, de olho na eleição de outubro. Hoje, como ontem, contam com a banda lavajatista da Polícia Federal, que escapa ao controle do diretor-geral Andrei Rodrigues. Ao passo que o governo dorme no ponto e permite um empoderamento paralelo dentro da instituição policial, Flávio Bolsonaro acena aos policiais com o melhor dos mundos, segundo fonte de inquestionável credibilidade.

Num governo Flávio, a PF tornar-se-á o Quarto Poder da República, quiçá mais poderoso que o Ministério Público, dona de absoluta autonomia, fiscalizada por um órgão a ser criado à semelhança do Conselho Nacional do Ministério Público ou do Conselho Nacional de Justiça – conversas nesse sentido entre o candidato e representantes da banda lavajatista da PF estariam adiantadas.

Quanto ao acordo de colaboração premiada que deve vir a ser firmado entre Daniel Vorcaro e a Polícia Federal, o descarte do Ministério Público é permitido por jurisprudência do STF. Assim aconteceu com Antônio Palocci, na Lava Jato, e Mauro Cid, na ação do golpe, por exemplo. Essa “disputa” entre as instituições MP e PF é vista com bons olhos por alguns juristas, mediante o argumento de que o braço de ferro evitaria capturas de um ou outro órgão por forças políticas. Desconsidera-se, aqui, que a PF possa já estar capturada no inquérito do Master.

Para um professor de Direito ouvido pelo articulista, a “competição institucional” tende a ser saudável, pois evitaria que certas ações fiquem imobilizadas. Não se pode esquecer, e isto é fato, que a PGR foi capturada por um presidente da República na época da dobradinha Jair Bolsonaro–Augusto Aras. Hoje, aventa-se que Paulo Gonet seria um possível aliado do ministro Alexandre de Moraes, que o apadrinhou na corrida pelo cargo.

É possível, como tantas coisas o são. Mas, por ora, o que transparece é o lavajatismo redivivo na figura de André Mendonça, o novo Sérgio Moro, e na seletividade de uma poderosa parte da Polícia Federal.

* Este é um artigo de opinião, de responsabilidade do autor, e não reflete a opinião do Brasil 247.

Artigos Relacionados