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Crime organizado atua como "multinacional", afirma diretor-geral da PF

Andrei Rodrigues diz que facções expandem operações para vários países e que a Polícia Federal concentra esforços em atacar as finanças do crime

Andrei Rodrigues Foto: Andressa Anholete/Agência Senado (Foto: Andressa Anholete)

247 - O diretor-geral da Polícia Federal, Andrei Rodrigues, afirmou que grupos criminosos que operam no Brasil passaram a atuar com estruturas complexas e conexões internacionais, funcionando em muitos casos como verdadeiras “multinacionais do crime”. Segundo ele, o perfil dessas organizações vai muito além da imagem tradicional associada a criminosos armados em grandes complexos urbanos.

A declaração foi feita durante o evento Rumos 2026, realizado em São Paulo, em painel mediado por Fernando Exman, chefe da sucursal do Valor Econômico em Brasília. No encontro, Rodrigues explicou que a atuação dessas redes criminosas envolve operações financeiras sofisticadas e conexões que ultrapassam fronteiras.

Crime organizado com atuação internacional

De acordo com o diretor-geral da PF, o modelo de atuação dessas organizações mudou significativamente. “O crime organizado que nós temos enfrentado é muito diferente”, afirmou.

Rodrigues destacou que muitas dessas estruturas criminosas transitam por ambientes aparentemente legais, como o mercado financeiro, centros de investimento e espaços de influência política e econômica. Ele classificou esses grupos como organizações criminosas de colarinho branco. “Essas organizações criminosas do colarinho branco é que tentam interferir na economia e tentam alcançar determinados segmentos”, disse.

Entre os exemplos citados está o caso envolvendo o Banco Master, liquidado pelo Banco Central. Segundo Rodrigues, as investigações identificaram a presença de “uma organização criminosa identificada atuando” na operação da instituição financeira, comandada pelo empresário Daniel Vorcaro.

O delegado também incluiu na categoria de organização criminosa os grupos investigados por tentativas de golpe de Estado após a eleição presidencial de 2022, além de outras estruturas criminosas que atuam em diferentes setores da economia.

Foco nas finanças das organizações criminosas

A estratégia central da Polícia Federal, segundo Rodrigues, tem sido atingir diretamente o poder econômico dessas organizações. O objetivo é enfraquecer sua capacidade de operação por meio do bloqueio e apreensão de recursos.

Em 2025, a PF apreendeu quase R$ 11 bilhões em bens ligados ao crime organizado, incluindo imóveis, veículos, aeronaves, embarcações e dinheiro em espécie. “R$ 2 bilhões foram só de uma conta corrente da operação do caso Master”, afirmou Rodrigues.

O diretor também ressaltou que o combate ao crime organizado depende da cooperação entre diversas instituições públicas. Entre os órgãos envolvidos estão Receita Federal, Banco Central, Controladoria-Geral da União, áreas de inteligência do INSS e secretarias estaduais de Fazenda.

“A gente tem conversado muito sobre essa pauta do enfrentamento ao crime organizado”, declarou. Segundo ele, as conexões internacionais dessas redes criminosas tornam o desafio ainda mais complexo: “É uma grande multinacional, muitas vezes”.

Nos últimos meses, operações conduzidas por Ministério Público, Polícia Federal e Receita Federal desarticularam esquemas que, segundo as autoridades, envolviam empresas do setor financeiro, empresas de combustíveis e integrantes do Primeiro Comando da Capital (PCC).

Investigação, economia e tensões institucionais

No mesmo evento, o ministro da Justiça e Segurança Pública, Wellington César Lima e Silva, defendeu a autonomia da Polícia Federal em meio a investigações sensíveis que envolvem autoridades e instituições. “Há uma vinculação administrativa (da PF) ao Ministério da Justiça, mas a competência, a autonomia técnica é assegurada. A PF busca fazer seu trabalho com o padrão de excelência que tem norteado a sua atuação nos últimos tempos, reconhecida pela população brasileira como um todo”, afirmou.

O debate ocorre em um momento de tensão entre a Polícia Federal e o Supremo Tribunal Federal (STF). A situação se intensificou após investigações relacionadas ao Banco Master mencionarem o ministro Dias Toffoli em registros de conversas com o banqueiro Daniel Vorcaro. Toffoli, que era relator do inquérito no Supremo, decidiu deixar o caso após pressões.

Durante reunião entre ministros do STF, magistrados criticaram a atuação da PF e avaliaram que investigações envolvendo autoridades com foro privilegiado deveriam contar previamente com autorização judicial.

Risco de infiltração do crime nas eleições

Rodrigues também alertou para a possibilidade de infiltração do crime organizado no sistema eleitoral brasileiro. Segundo ele, a Polícia Federal já elaborou um plano específico para enfrentar esse risco nas próximas eleições.

“Já há um projeto de segurança para as eleições apresentado ao ministro da Justiça, à presidenta Carmen Lúcia, do TSE (Tribunal Superior Eleitoral), onde vamos atuar também nessa vertente de coibir a entrada do crime organizado no sistema eleitoral, nas campanhas políticas”, afirmou.

De acordo com o diretor-geral da PF, as operações realizadas nas eleições municipais de 2024 já indicaram sinais de alerta sobre a atuação dessas organizações no ambiente político.

Crime e economia sob pressão

Especialistas que participaram do evento também alertaram para os impactos do crime organizado sobre a economia brasileira.

O presidente do Fórum Brasileiro de Segurança Pública, Renato Sérgio de Lima, avaliou que a PEC da Segurança Pública, aprovada recentemente na Câmara dos Deputados, representa um avanço institucional, mas não deve resolver o problema estrutural da criminalidade no país. “Enquanto a legislação endurece o tratamento de lideranças territoriais, não olha para a questão de lavagem de dinheiro com o devido afinco”, afirmou.

Segundo o pesquisador, sem enfrentar o fluxo financeiro do crime organizado, o país corre o risco de ver a economia afetada. “Não estamos olhando como o crime está afetando a economia”, disse. Ele acrescentou que a economia brasileira “está sendo capturada pelo crime organizado” e pode entrar em uma “espiral muito ruim”, comparável à experiência de países como México e Itália em períodos de forte atuação de organizações mafiosas.

Outros especialistas presentes no debate também defenderam maior foco em mecanismos de prevenção e combate à lavagem de dinheiro. A superintendente regional da Receita Federal em São Paulo, Márcia Cecília Meng, afirmou que o texto da PEC deixou de contemplar medidas preventivas mais robustas. Já o coordenador da Escola de Segurança Multidimensional da Universidade de São Paulo, Leandro Piquet Carneiro, disse que a proposta “decepcionou no aspecto fundamental” ao tratar das investigações financeiras.

Para o procurador-geral de Justiça de São Paulo, Paulo Sérgio de Oliveira e Costa, a aprovação da PEC sinaliza a intenção do Estado de enfrentar o crime organizado, mas ressaltou que esse combate precisa ocorrer de forma estruturada e sem interferência política.

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