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Esquema de corrupção na Polícia Civil de São Paulo incluía propina parcelada

Conversas analisadas pela Polícia Federal indicam cobrança recorrente, negociação de valores e pressão de policiais civis para pagamento de propinas

Viatura da Polícia Civil de São Paulo (Foto: PCSP/Divulgação)

247 - Mensagens extraídas pela Polícia Federal do celular de Robson Martins de Souza indicam que pagamentos de propina a policiais civis suspeitos de corrupção em São Paulo eram organizados de forma sistemática, com valores combinados, cobranças frequentes e até divisão do pagamento em parcelas. O material analisado integra a investigação que levou à prisão de policiais e intermediários suspeitos de participação no esquema, informa o Metrópoles.

Os diálogos obtidos pelos investigadores mostram que integrantes do grupo discutiam constantemente valores, prazos e estratégias para negociar as quantias exigidas pelos agentes públicos. Segundo a Polícia Federal, em diversos casos os pagamentos eram feitos gradualmente, conforme os envolvidos conseguiam reunir os recursos necessários, o que reforça a suspeita de um esquema estruturado de cobrança ilegal.

Cobrança direta por parte de policiais

Entre as conversas analisadas, uma delas envolve o investigador Rogério Coichev Teixeira, ligado ao serviço aerotático da Polícia Civil. Na troca de mensagens, ele cobra diretamente o pagamento de uma parcela da propina e questiona se o valor seria entregue no dia seguinte, afirmando que precisava repassar o dinheiro a outros integrantes do grupo.

Em um dos trechos citados na investigação, o policial afirma: “Preciso levar pros meninos [outros policiais] amanhã”.

No mesmo diálogo, um interlocutor informa que conseguiu reunir R$ 40 mil para pagar parte da quantia combinada e promete quitar o restante posteriormente. Para a Polícia Federal, esse tipo de conversa indica que os pagamentos eram feitos de forma fracionada, acompanhados por cobranças constantes quando havia atraso.

Pressão durante investigações

As mensagens também revelam episódios em que policiais teriam pressionado os investigados a pagar valores para evitar o avanço de apurações. Em um áudio interceptado pela PF, um escrivão identificado como Ciro Borges Magalhães Ferraz, que atuava em investigações do Departamento de Polícia de Proteção à Cidadania (DPPC), menciona a possibilidade de agravamento da situação caso não houvesse um acordo.

No trecho registrado pela investigação, ele diz: “Seria interessante conversar logo… porque o caldo pode engrossar”.

De acordo com os investigadores, esse tipo de mensagem sugere que o andamento de investigações policiais poderia estar sendo utilizado como instrumento de pressão para obter pagamentos ilícitos.

Reclamações e negociação de valores

As conversas também revelam insatisfação de integrantes do grupo investigado com os valores exigidos. Em um dos diálogos analisados pela Polícia Federal, um interlocutor afirma que policiais civis teriam pedido até R$ 5 milhões para resolver questões relacionadas a investigações envolvendo empresas ligadas ao grupo.

Em outras mensagens, advogados e empresários discutem alternativas para reduzir as quantias solicitadas, negociando pagamentos menores ou condições diferentes para quitar os valores.

Uso de celulares em nome de familiares

A investigação também identificou tentativas de dificultar a identificação dos participantes do esquema. Segundo a Polícia Federal, alguns policiais utilizavam telefones registrados em nome de familiares para manter contato com os integrantes do grupo investigado.

Em um dos casos citados, o celular utilizado pelo investigador Rogério Coichev Teixeira estava cadastrado em nome de sua esposa, o que, segundo os investigadores, pode indicar uma estratégia para evitar o rastreamento direto das conversas.

Operação policial e prisões

As mensagens analisadas fazem parte de um conjunto mais amplo de provas reunidas ao longo de meses de investigação. O material foi obtido após a extração de dados do celular de Robson Martins de Souza, apreendido em novembro de 2023 durante apuração sobre lavagem de dinheiro envolvendo empresas de fachada utilizadas para envio ilegal de recursos ao exterior.

A partir das informações encontradas no aparelho, a Polícia Federal passou a investigar possíveis pagamentos de propina a policiais civis e negociações para interferir em investigações conduzidas por delegacias da capital paulista.

O trabalho foi realizado em conjunto com o Grupo de Atuação Especial de Combate ao Crime Organizado (Gaeco), do Ministério Público de São Paulo (MPSP), e com a Corregedoria da Polícia Civil. A cooperação entre os órgãos resultou na operação deflagrada na quinta-feira (5), que cumpriu mandados de prisão preventiva contra policiais e intermediários suspeitos de integrar o esquema, além de ordens de busca e apreensão para recolher celulares, documentos e equipamentos eletrônicos.

Segundo os investigadores, a ofensiva teve como objetivo desarticular o núcleo responsável por negociar pagamentos ilegais para interferir em investigações policiais e aprofundar a apuração sobre a eventual participação de servidores da Polícia Civil no esquema.

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