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Operação expõe esquema de propina de até R$ 33 milhões na Polícia Civil de São Paulo

Mensagens apontam esquema de corrupção envolvendo policiais, doleiros e advogados para travar investigações em delegacias paulistas

Viatura da Polícia Civil de São Paulo (Foto: PCSP/Divulgação)

247 - Uma investigação conduzida por autoridades federais revelou indícios de um amplo esquema de corrupção envolvendo policiais civis de São Paulo, suspeitos de cobrar milhões de reais para interromper investigações criminais. O caso veio à tona após a análise de áudios e mensagens encontradas em celulares apreendidos durante a Operação Bazzar, que apura suspeitas de corrupção e lavagem de dinheiro dentro da corporação, informa o G1

A apuração é conduzida pelo Grupo de Atuação Especial de Combate ao Crime Organizado (Gaeco), do Ministério Público de São Paulo, com apoio da Polícia Federal e da Corregedoria da Polícia Civil. A operação foi deflagrada nesta quinta-feira (5) e, até a última atualização, resultou na prisão de nove suspeitos, incluindo um delegado, investigadores, uma doleira e um advogado. Os investigados são acusados de integrar um esquema que, segundo as autoridades, transformou delegacias em espaços de negociação ilegal para impedir o andamento de inquéritos.

Áudios revelam negociações milionárias

Entre os materiais analisados pelos investigadores estão gravações que sugerem pagamentos de valores elevados para impedir investigações. Em um dos áudios, um dos investigados menciona a negociação de uma quantia milionária com policiais.

"Eu fui até a delegacia, tá? É referente a uma transferência de [R$] 33 milhões", afirma no áudio um dos alvos da investigação.
"Ali naquela delegacia o delegado é ‘parceiraço’ meu, tá? Você quer que eu faça alguma coisa lá? Tô...Vou aguardar a orientação tua, tá bom?"

Mensagens de texto também reforçam as suspeitas levantadas pelas autoridades. Em uma delas, um dos investigados menciona pagamentos já realizados a um delegado.

"Segundo o Dr aqui: recebeu mais de [R$] 20 milhões", diz uma das mensagens analisadas na investigação.
Segundo a Polícia Federal, “Dr” seria uma referência a um delegado da Polícia Civil.

Outros áudios indicam a cobrança de valores adicionais para interferir em investigações. Em uma das gravações, um dos investigados menciona a exigência de milhões de reais.

"Tem como a gente falar com esse pessoal, pra...pra...para saber ‘que pé’ que está esse negócio? Que os cara pediram [R$] 5 milhões.
Negócio...assim...absurdo...pra quem foi lá. E a gente precisava saber do problema."

Também foram identificadas menções a pagamentos fracionados para os policiais, com valores que variariam de milhares a centenas de milhares de reais.

"Anota aí para mim que eu dei [R$] 100 mil pro Deic esses dias, eu não sei se você anotou .... e ontem foi mais [R$] 110 [mil]... são [R$] 220 mil que eu dei pro Deic aí, anota aí, tá?"

Delegacias teriam sido usadas para negociações ilegais

De acordo com a investigação, as cobranças de propina teriam ocorrido em locais ligados à Polícia Civil, incluindo o hangar do Serviço Aerotático, no Campo de Marte, e o 16º Distrito Policial, na Vila Clementino.

A apuração aponta que policiais vinculados ao Departamento de Investigações Criminais (Deic) e ao Departamento de Polícia de Proteção à Cidadania (DPPC) participariam do esquema. Segundo a Justiça, os suspeitos teriam transformado delegacias especializadas em centros de negociação para garantir a impunidade de investigados.

Em outra troca de mensagens, um dos alvos da operação menciona a preocupação com um inquérito e a possível cobrança para encerrá-lo.

"O cara vai trazer aqui um inquérito para a gente ver que falaram que a gente tá fodido lá no 16º [DP]."

Prisões e bloqueio de bens

A Justiça autorizou 11 mandados de prisão preventiva, 23 mandados de busca e apreensão e o bloqueio de bens e valores dos investigados. Entre os presos estão os policiais civis José Eduardo da Silva, delegado do 35º Distrito Policial (Jabaquara); Roldnei Eduardo dos Reis Baptista, investigador do DPPC; Rogério Coichev Teixeira, investigador do Serviço Aerotático; e Ciro Borges Magalhães Ferraz, escrivão do 35º DP.

Também foram presos a doleira Meire Bonfim da Silva Poza e outros investigados ligados ao esquema: Cléber Azevedo dos Santos, Robson Martins de Souza, Antônio Carlos Ubaldo Júnior e o advogado Marlon Antonio Fontana.

Funcionamento do esquema

Segundo a investigação, o grupo operava principalmente de duas formas. Em uma delas, policiais solicitavam relatórios de inteligência financeira (RIFs) sobre possíveis alvos com capacidade financeira. Após obter as informações, os investigados enviavam intimações e cobravam dinheiro para interromper o andamento dos casos.

Outra prática apontada pelas autoridades envolve doleiros que, ao descobrirem investigações em andamento, ofereciam pagamentos aos policiais para impedir que os inquéritos avançassem.

Os investigadores também identificaram destruição de provas, incluindo a substituição de discos rígidos apreendidos por dispositivos vazios. A organização criminosa ainda teria utilizado empresas de fachada e simulações de operações de importação para ocultar a origem de recursos ilícitos.

O que diz a Secretaria da Segurança Pública

Em nota, a Secretaria da Segurança Pública de São Paulo informou que a Corregedoria da Polícia Civil participa das ações e acompanha as investigações.

Segundo o órgão, “a Polícia Civil não compactua com desvios de conduta por parte de seus integrantes e adotará todas as medidas legais e disciplinares cabíveis caso sejam confirmadas quaisquer irregularidades”.

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