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Jacqueline Muniz

Antropóloga e cientista política. Professora do bacharelado de Segurança Pública da UFF. Gestora de Segurança Pública

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Polarização política: uma categoria midiática explicativa preguiçosa?

O discurso midiático da polarização coloca-se além do Estado, de governos e da vida política. Situa-se acima das regras democráticas que propagandeia defender

Congresso Nacional (Foto: EBC)

Com a abertura do ano eleitoral, reaparecem armadilhas conhecidas. Entre elas, a narrativa da polarização como ameaça à democracia e ao desenvolvimento do país, como obstáculo à renovação de lideranças e à emergência de ideias novas. Volta também a sugestão de que estaríamos enredados em alternativas aquém do eleitor, como se as opções progressistas em disputa fossem antigas e ultrapassadas, apegadas a concepções de igualdade, liberdade e justiça consideradas inadequadas ao individualismo contemporâneo. Planta-se, mais uma vez, a promessa de uma saída fora do conflito, uma espécie de solução mágica que reaparece como isca para reencenar o apelo a uma alternativa redentora capaz de substituir o desperdício do voto no “menos pior”.

No seu sentido político-social mais elementar, polarização designa apenas a divisão de posições em campos opostos, frequentemente antagônicos. Nada há aí, em si, que implique problema, ameaça ou juízo moral. Tenho achado a expressão midiática “polarização política” um nome preguiçoso dado ao tradicional desconforto à brasileira com o dissenso, que é parte indissociável do mundo real. 

A narrativa da polarização transforma o conflito de posições e suas manifestações em algo necessariamente ruim e, com isso, já carregado de um sentenciamento: o de que o problema está na existência de polos divergentes e na intensidade do embate que animam a vida política. Como se a virtude da política estivesse num centro imaginário, sustentado por um acordo invisível, assentado numa ordem harmônica — também inexistente —, tomado como lugar de equilíbrio e medida da validade e legitimação das posições opostas.

Mas há que ficar atento ao fato de que o senso comum de um centro, composto de integrantes supostamente desencarnados de ideologia, pode ser um sentido único, autoritário, sem mão dupla. Esse centro não é neutro nem homogêneo. O centro é uma posição situada, produto de acordos velados de elites, com valores, interesses e estratégias, que é vendida pela grande mídia como pasteurizada, conciliatória e neutra, como um padrão de normalidade. Quando, em verdade, trata-se da afirmação de um status quo seletivo cuja agenda atende a um cercado VIP. Ele oferece uma espécie de pacificação impositiva, de cima para baixo, pela exclusão das diferenças divergentes que sustentam o cotidiano da política, e que não estão confinadas ao barulho das redes sociais.

A ideia de polarização política opera, assim, como uma categoria normativa e censora, impeditiva do debate político e que ambiciona um monopólio explicativo da vida política brasileira pela autoridade midiática. Ela desloca o foco do conteúdo das disputas para a forma das disputas. Não se pergunta mais o que está em jogo, quais projetos se enfrentam, quais visões de sociedade e quais interesses político-econômicos estão em disputa.

Com a narrativa midiática e simplista da polarização, passa-se a condenar o próprio fato de o conflito existir, como se o dissenso fosse um desvio e não a própria matéria-prima da política, que possibilita negociação, composição e acordo. O problema, então, deixa de ser o conteúdo das posições e passa a ser a intensidade e a performance com que elas são defendidas. Fala-se em moderação como a encenação de bons modos com a desidratação dos projetos de sociedade que distinguem os vários polos da mesma questão. O embate, sobretudo em seu “extremo”, é convertido em problema em si mesmo. A política vira um incômodo, chegando ao paroxismo de se querer eliminar a própria dinâmica política — que traz consigo os enfrentamentos — com a imposição, goela abaixo, de uma terceira via pacífica e inodora, saída da feijoada do centrão.

Mas por quê? Para subordinar a política a um ideal de ordem conservadora que quer a sua estabilidade no poder, sem disputas. Um projeto político que antecipe um resultado antes do pleito, que signifique a sua vitória permanente, independentemente do voto na urna — um eterno trocar seis por meia dúzia.

Os extremos servem para expor que há, sim, perspectivas inconciliáveis, que precisam ser visíveis a olhos nus dos eleitores e que não cabem em arranjos prévios nem num aparente consenso administrável por cima. A existência de polos revela fraturas e dissidências reais na vida coletiva. E, com isso, rompe com a fantasia de harmonia pelo silenciamento dos confrontos, que só beneficia a circulação das elites no poder.

Há ainda uma confusão bem problemática no discurso midiático da polarização. Toma-se o conflito e sua intensidade como equivalentes à ruptura institucional. Mistura-se a defesa firme de posições com a recusa deliberada das regras democráticas do jogo político. Mas o que ameaça a democracia não é o embate, nem sua intensidade. É a quebra das regras constitucionais que tornam o embate possível. E essa ruptura institucional, ou os espasmos golpistas, podem ocorrer com a participação da geleia geral de um centrão.

Ao misturar essas dimensões, o discurso da polarização despolitiza a política, despolitiza o conflito e o moraliza, condenando toda a política que “desagrada o mercado” ou “deixa agitada a caserna”, como se um e outro dispositivo de chantagem e ameaça pudessem suprimir o eleitor numa democracia. Coloca posições definidas no mesmo balaio de gatos do “radicalismo” e eleva o centro — muitas vezes uma miscelânea de oportunismos — à condição de virtuose do jogo político.

O discurso midiático da polarização cria ainda uma outra perversão: a falsa simetria entre os polos. Essa falsa simetria, por meio de um moralismo utilitário, procura destituir de legitimidade sobretudo as posições progressistas, apagando as assimetrias reais de poder entre forças hegemônicas autoritárias e contra-hegemônicas. E mais: ao tratar os polos como necessariamente equivalentes, nivela diferenças fundamentais e irredutíveis.

Faz mais que isso. O discurso midiático da polarização coloca-se além do Estado, de governos e da vida política. Situa-se acima das regras democráticas que propagandeia defender, e se apresenta como o fiel da balança que dá a palavra final do que pode e do que não pode acontecer na cena política-eleitoral. 

Existem posições que ampliam direitos, denunciam violências, questionam as desigualdades, afirmam liberdades civis e condenam ordens injustas. E existem posições que negam direitos, produzem exclusão, promovem o libertarismo e rompem as bases democráticas. Reduzir tudo isso à chave da polarização que merece um puxão de orelha da grande mídia – autoerigida porta-voz da verdade e guardiã de nossa democracia - é uma tática que obscurece mais do que explica, ocultando um projeto de poder de corporações pouco democrático e pouco republicano.

* Este é um artigo de opinião, de responsabilidade do autor, e não reflete a opinião do Brasil 247.

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