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Emir Sader

Colunista do 247, Emir Sader é um dos principais sociólogos e cientistas políticos brasileiros

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Polarização - sim ou não?

Desigualdades estruturais e conflitos reais entre classes sociais

São Paulo (SP) - 21/09/2025 - Bandeira do Brasil durante ato contra a PEC da Anistia e da Blindagem, no MASP (Foto: Paulo Pinto/Agência Brasil)

Tudo caminhava para o melhor dos mundos possíveis, com todo mundo feliz, quando, de repente, alguns começaram a falar da tal da polarização. Como se as nossas sociedades fossem profundamente desiguais e divididas entre os ricos e os pobres, entre os poderosos e os excluídos.

De repente, diz-se que tudo está polarizado, atrapalhando a felicidade e a harmonia das nossas sociedades, profundamente justas e igualitárias.

Agora tudo é culpa da polarização. Bastaria aboli-la, talvez até por decreto, para que tudo volte a ser tranquilo e harmônico. Por que apelar para a polarização, se não há dois polos na sociedade, entre poderosos e frágeis, entre detentores do poder e excluídos? Por que isso?

Polarizar é promover as contradições, as injustiças, é fazer com que uns se sintam opostos aos outros. Aí residiria o problema fundamental do nosso tempo. Bastaria terminar com a ideia de polarização para que a polarização deixasse de existir. É um ato de vontade, de decisão.

De fato, os liberais sempre tiveram dificuldade de aceitar a luta de classes. Feitas as revoluções burguesas, especialmente a Revolução Francesa, que terminariam com os privilégios feudais, a igualdade teria se instalado nas sociedades democráticas.

As constituições passaram a enunciar que “todos são iguais diante da lei”, proclamando assim a igualdade entre todos. Direitos iguais corresponderiam à igualdade entre todos.

O Brasil, por exemplo, depois da mais longa ditadura militar do continente, de 21 anos, chegou à democracia. Todos passaram a ser iguais diante da lei.

Mas a sociedade brasileira seguiu sendo uma das mais desiguais do mundo. A concentração de renda seguiu sendo a mesma, a exclusão social prosseguiu. Tudo convivendo com a democracia política, com a diversidade de partidos políticos, com as eleições para os cargos de direção política da sociedade, com a liberdade de imprensa (que quer dizer imprensa privada).

Uma sociedade profundamente polarizada passou a conviver com a igualdade jurídica, diante da lei.

A polarização nas sociedades capitalistas não é uma questão de decisão, de vontade, mas uma realidade concreta, enraizada profundamente nas estruturas das sociedades. A luta de classes não é uma invenção do marxismo. Ela é produzida e reproduzida por uma sociedade que opõe os produtores das mercadorias e os que se apropriam delas, entre burgueses e proletários.

Nesse tipo de sociedade, como falam tantos e que Millôr Fernandes costumava destacar, todos são iguais, mas alguns são mais iguais.

* Este é um artigo de opinião, de responsabilidade do autor, e não reflete a opinião do Brasil 247.

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