Polarização - sim ou não?
Desigualdades estruturais e conflitos reais entre classes sociais
Tudo caminhava para o melhor dos mundos possíveis, com todo mundo feliz, quando, de repente, alguns começaram a falar da tal da polarização. Como se as nossas sociedades fossem profundamente desiguais e divididas entre os ricos e os pobres, entre os poderosos e os excluídos.
De repente, diz-se que tudo está polarizado, atrapalhando a felicidade e a harmonia das nossas sociedades, profundamente justas e igualitárias.
Agora tudo é culpa da polarização. Bastaria aboli-la, talvez até por decreto, para que tudo volte a ser tranquilo e harmônico. Por que apelar para a polarização, se não há dois polos na sociedade, entre poderosos e frágeis, entre detentores do poder e excluídos? Por que isso?
Polarizar é promover as contradições, as injustiças, é fazer com que uns se sintam opostos aos outros. Aí residiria o problema fundamental do nosso tempo. Bastaria terminar com a ideia de polarização para que a polarização deixasse de existir. É um ato de vontade, de decisão.
De fato, os liberais sempre tiveram dificuldade de aceitar a luta de classes. Feitas as revoluções burguesas, especialmente a Revolução Francesa, que terminariam com os privilégios feudais, a igualdade teria se instalado nas sociedades democráticas.
As constituições passaram a enunciar que “todos são iguais diante da lei”, proclamando assim a igualdade entre todos. Direitos iguais corresponderiam à igualdade entre todos.
O Brasil, por exemplo, depois da mais longa ditadura militar do continente, de 21 anos, chegou à democracia. Todos passaram a ser iguais diante da lei.
Mas a sociedade brasileira seguiu sendo uma das mais desiguais do mundo. A concentração de renda seguiu sendo a mesma, a exclusão social prosseguiu. Tudo convivendo com a democracia política, com a diversidade de partidos políticos, com as eleições para os cargos de direção política da sociedade, com a liberdade de imprensa (que quer dizer imprensa privada).
Uma sociedade profundamente polarizada passou a conviver com a igualdade jurídica, diante da lei.
A polarização nas sociedades capitalistas não é uma questão de decisão, de vontade, mas uma realidade concreta, enraizada profundamente nas estruturas das sociedades. A luta de classes não é uma invenção do marxismo. Ela é produzida e reproduzida por uma sociedade que opõe os produtores das mercadorias e os que se apropriam delas, entre burgueses e proletários.
Nesse tipo de sociedade, como falam tantos e que Millôr Fernandes costumava destacar, todos são iguais, mas alguns são mais iguais.
* Este é um artigo de opinião, de responsabilidade do autor, e não reflete a opinião do Brasil 247.



