Por que a igreja e a maioria dos cristãos se identificam com ditadores?
O Deus bíblico nunca foi democrático e podemos provar isso historicamente, analisa Ricardo Nêggo Tom
O título do artigo pode até parecer polêmico, mas o conteúdo a ser apresentado, inevitavelmente, o levará a uma reflexão. Primeiro, faço uma pergunta bem direta ao ponto que quero chegar: Constantino I, o legalizador, e Teodósio, o imperador que tornou o cristianismo religião oficial de Roma, lideravam um regime democrático? Aprofundo a questão com outro questionamento: O que havia em comum entre Jesus Cristo e o Império Romano? Se você respondeu negativamente às duas perguntas, é porque estamos caminhando juntos rumo ao céu da plena existência, aceitando o nosso cérebro como salvador da nossa alma. Voltando a Constantino, o motivo que o levou a parar de perseguir os cristãos da época é um tanto quanto inusitado, sem deixar de ser oportunista e questionável: Eu tive um sonho. Neste sonho, o imperador romano viu o sinal de uma cruz, ou o Monograma Chi Rho (☧), que é um dos cristogramas mais antigos da história da humanidade, formado pela sobreposição das duas primeiras letras gregas (Chi: Χ e Rho: Ρ), que formam a palavra "Χριστός", Cristo em grego.
Constantino teria visto uma inscrição na cruz que dizia: "In hoc signo vince" ("Neste sinal vencerás"), e entendeu como uma mensagem de proteção divina às vésperas da batalha da Ponte Mílvia. Jesus Cristo também teria aparecido no sonho e dado instruções ao imperador sobre como vencer a batalha. Isso fez com que ele mandasse pintar a cruz e a inscrição vistas em sonho nos escudos dos soldados do seu exército que, por coincidência, venceu a tal batalha, levando Constantino a parar com a perseguição aos cristãos e legalizar a sua religião. Supondo que o sonho de Constantino tenha mesmo acontecido, observem como ele não aceitou a Jesus por amor, mas por interesse em conquistar mais território para o império romano. É possível fazer uma comparação com as conversões de hoje em dia, onde o sujeito aceita Jesus de olho na prosperidade financeira que ele o pode dar. O caráter bélico atribuído a Deus através da Bíblia também se faz presente nesta história, quando Cristo aparece em sonho prometendo dar a Constantino – um inimigo da sua doutrina - o sangue dos seus inimigos numa batalha, ao invés de lhe prometer a salvação da alma e a vida eterna, como prevê a sua missão na terra.
Refletindo sobre a origem do cristianismo legalizado, tendo Roma como o seu berço, e a Igreja Católica como a administradora do novo sistema religioso, começamos a entender o porquê de, até os dias de hoje, a Igreja e os cristãos se identificarem tanto com ditadores e regimes de exceção, ao ponto de clamarem a Deus para que os estabeleça na terra quando algo está fugindo do seu controle sócio religioso. Foi assim na idade média com a Santa Inquisição, um movimento político-religioso que tinha o objetivo de combater o que a igreja julgava como heresias e preservar a fé católica ortodoxa. Uma dessas “heresias” era a negação da Santíssima Trindade, e a crítica aos inúmeros bens materiais da Igreja, o que para alguns movimentos da época, como os Cátaros, representava uma ameaça à fé, e contrassenso ao evangelho de Cristo. Eles estavam errados? Sob ameaça do uso do cérebro dos descontentes como arma de guerra, Igreja e Estado julgavam crimes, pecados e “heresias” de forma similar, justificando como grave ameaça à fé cristã e à ordem social.
Como já podemos imaginar, o apoio popular à tais medidas foi massivo, defendendo como “vontade de Deus” a queima de pessoas vivas na fogueira santa da inquisição para evitar a proliferação do “mal” na sociedade. Claro que os “hereges” tinham direito a um julgamento onde eles poderiam se redimir pedindo perdão e prometendo não mais disseminar tais heresias. Punições como prisão, penitências e até confisco de bens, eram adotadas contra os hereges. Em alguns casos, a tortura era utilizada para se obter confissões de interesses da Igreja e do Estado. Tudo isso com a aprovação de uma maioria cristã que não via nenhum mal em saber que um ser humano ia virar churrasco após a missa de domingo. Joana D’arc foi uma das vítimas da Inquisição sob acusação de heresia e bruxaria. Tendo sua condenação revertida anos depois, é levada a canonização pela mesma igreja que ateou fogo ao seu corpo. Acelerando um pouco mais o passo chegamos a Alemanha nazista de Hitler, onde o ditador e a Igreja viveram uma relação amistosa e sem grandes embates. Em alguns momentos, a cumplicidade quase foi estabelecida, uma vez que Hitler também se dizia cristão e até sugeriu uma fusão entre nazismo e cristianismo.
O Movimento Cristão Alemão, ao qual Hitler aderiu após romper com o seu catolicismo de formação, tinha um viés racista e antissemita inspirado nos escritos de Martinho Lutero – o papa da reforma protestante – que nunca escondeu o seu ódio pelos judeus e o manifestava em textos, pregações e livros como “Sobre os Judeus e suas mentiras”, onde sugere a sua prisão e escravização sob trabalhos forçados. É sempre bom lembrar que Hitler não deu um golpe na Alemanha, e nem tomou o poder na marra. Ele foi eleito pela maioria esmagadora da população, sobretudo, pelos cristãos, que enxergaram nele um enviado de Deus para resolver os problemas políticos, econômicos e sociais que o país enfrentava naquele momento. Mas por que os alemães – assim como os cristãos da idade média -- enxergaram uma mensagem de Deus em políticas ditatoriais? Porque o Deus bíblico nunca foi democrático, e sempre resolveu as questões políticas, sociais e religiosas dos povos daquela época, através de guerras, mortes, muita violência e imposição de ditaduras. Se não me adorares, vai pra vala! Assim diz o Senhor na maioria dos textos bíblicos.
Saindo da Alemanha nazista e chegando ao Brasil bolsonarista (com o perdão do pleonasmo), encontramos mais uma vez a igreja e a maior parte dos cristãos do país adorando a um projeto ditatorial, cuja capilaridade social se infiltra através das paredes do conservadorismo, do preconceito, do ódio às diferenças e da violência como meio de pacificação. Por que será, hein? As cenas protagonizadas por esses cristãos, agora bolsonaristas, nos remete ao que de pior aconteceu na história da humanidade sob a égide da moral, dos bons costumes, da família tradicional e da palavra de Deus. Lula é o líder dos “hereges” e a esquerda o movimento a ser combatido, sob acusação de querer destruir a família, os valores cristãos e a ordem social. E tome “mamadeira de piroca” para alimentar tais narrativas. Eles querem transformar o Brasil num grande banheirão unissex, onde nossas crianças serão introduzidas à homossexualidade com o ensino de ideologia de gênero nas escolas, as igrejas serão fechadas e o cristianismo será perseguido. Só um ditador “enviado por Deus” poderá nos salvar dessa tribulação. E as ideias do deus bíblico enviou Jair Bolsonaro para libertar o seu povo.
É incrível como Deus tem enviado criminosos para combater o crime, e malfeitores para eliminar os pecados do mundo. Talvez, ele já esteja de saco cheio mesmo de tudo o que ele criou, por ter chegado à conclusão de que não deu certo. Neste caso, quanto pior para Deus, melhor. Esse também é o lema do bolsonarismo aqui no Brasil. É preciso que estejamos bem atentos aos movimentos, porque esse tipo de “projeto de Deus” para a humanidade sempre se renova ao longo dos tempos na figura de um novo ditador que ele envia para salvar o seu povo. A igreja segue ensinando que só é possível obter a paz e a salvação através da dor, do sofrimento e da anulação da própria existência. O mesmo sacrifício que Jesus Cristo experimentou na cruz para salvar a humanidade, segundo a fé cristã. O Deus das batalhas, o Cristo como General de guerra, e os seus “ungidos” aqui na terra como representantes legítimos do seu exército, é o que faz cristãos se identificarem com ditadores e autocratas que usam o nome de Deus para promover guerras, alienar mentes e manipular massas. Uma prova de que, quanto mais cristãos com este pensamento tivermos na política e nos parlamentos, mais a democracia seguirá em risco.
* Este é um artigo de opinião, de responsabilidade do autor, e não reflete a opinião do Brasil 247.



