Sara York avatar

Sara York

Sara Wagner York (também conhecida como Sara Wagner Pimenta Gonçalves Júnior) é bacharel em Jornalismo, doutora em Educação, licenciada em Letras – Inglês, Pedagogia e Letras Vernáculas. É especialista em Educação, Gênero e Sexualidade, autora do primeiro trabalho acadêmico sobre cotas para pessoas trans no Brasil, desenvolvido em seu mestrado. Pai e avó, é reconhecida como a primeira mulher trans a ancorar no jornalismo brasileiro, pela TV 247

179 artigos

HOME > blog

“Por que você precisa da cota?”: a pergunta simples que está mudando a forma como o Brasil avalia cotas trans

Da sala de aula ao debate nacional, uma pergunta inaugura outra ética nos processos de heteroidentificação

Bandeira trans (Foto: Antra/Divulgação)

Em meio a debates acalorados sobre políticas de ação afirmativa, uma pergunta aparentemente simples tem ganhado centralidade nos processos de heteroidentificação voltados às cotas para pessoas trans: como a sua identidade de gênero se construiu ao longo da vida e que marcas de exclusão esse percurso produziu?

Longe de ser um detalhe burocrático, a formulação da pergunta representa uma inflexão ética e metodológica importante. Em vez de submeter candidatos e candidatas a leituras biomédicas, estéticas ou morais de seus corpos, a banca passa a considerar trajetórias sociais, experiências de exclusão e desigualdades concretas vividas ao longo da vida escolar, familiar e institucional.

A proposta não surge do nada. Ela dialoga diretamente com a primeira dissertação de mestrado dedicada às cotas trans no Brasil, intitulada “Tia, você é homem?”, de autoria de Sara Wagner York. O trabalho reconstrói a história das cotas trans no país a partir de uma cena inaugural: a interpelação de uma aluna do sexto ano, durante uma aula, que dirige à professora a pergunta que dá título à pesquisa.

É desse acontecimento pedagógico — simples, direto e profundamente político — que a dissertação parte para analisar como a escola, a linguagem e o Estado produzem enquadramentos de gênero e, ao mesmo tempo, exclusões sistemáticas. Ao transformar a pergunta da aluna em chave analítica, o estudo desloca o debate das cotas trans do campo abstrato para o chão da experiência vivida.

A dissertação demonstra que ações afirmativas para pessoas trans não se baseiam em identidade como escolha individual, mas em históricos de desigualdade acumulada, marcados por evasão escolar, violência simbólica, negação de reconhecimento e precarização institucional. É exatamente essa lógica que a nova pergunta dos processos de heteroidentificação busca recuperar: não “o que você é”, mas “o que você viveu por ser quem é”.

Na prática, o candidato ou candidata é convidado a responder, de forma dissertativa e acessível:

• como sua identidade de gênero se constituiu ao longo do tempo; 

• quais experiências de discriminação, exclusão ou negação de direitos enfrentou;

• e por que essas vivências justificam o acesso à política de cotas.

O foco deixa de ser a excepcionalidade individual e passa a ser a exclusão estrutural, fundamento central das ações afirmativas previstas na Constituição e em normativas educacionais.

Disponível gratuitamente em sites de busca acadêmica, a dissertação “Tia, você é homem?” tornou-se referência para pesquisadores, gestores públicos e movimentos sociais justamente por recusar provas corporais e defender a trajetória como critério ético e político.

Em tempos de judicialização das políticas de inclusão, a força dessa abordagem está em sua simplicidade. Ela não acusa, não constrange e não patologiza. Ao contrário: restitui a palavra a quem historicamente teve a voz interrompida.

Talvez por isso a pergunta tenha se tornado tão potente. Porque, ao indagar “por que você precisa da cota?”, obriga a sociedade a encarar uma resposta incômoda, mas incontornável: ninguém recorre a ações afirmativas por privilégio — mas por ter sido sistematicamente excluído delas.

* Este é um artigo de opinião, de responsabilidade do autor, e não reflete a opinião do Brasil 247.

Artigos Relacionados