Privatizar a Sabesp foi um negócio explosivo
Serviços essenciais não podem funcionar exclusivamente sob a lógica do lucro. É preciso ter compromisso com a vida
A explosão que atingiu casas e deixou feridos no Jaguaré, na zona Oeste de São Paulo, não pode ser tratada como um acidente isolado. A tragédia, provocada possivelmente pela perfuração de uma tubulação de gás durante uma obra da Sabesp, revela um cenário mais profundo e preocupante: a deterioração da capacidade de planejamento, fiscalização e segurança de serviços essenciais, que vem se acentuando desde a privatização da companhia pelo governo Tarcísio de Freitas.
Segundo especialistas ouvidos pela imprensa, o Estado de São Paulo, que ainda mantém 18% das ações da Sabesp, pode estar entre os responsáveis caso as investigações confirmem falhas técnicas, negligência operacional ou ausência de protocolos adequados durante a execução da obra.
Mas, para além da responsabilização jurídica, o episódio escancara um problema que o governo Tarcísio tenta empurrar para debaixo do tapete: afinal, a privatização da Sabesp melhorou efetivamente os serviços prestados à população? Baixada a poeira, a resposta a está pergunta fica óbvia: não.
Desde que o processo de privatização foi aprovado, o discurso oficial para justificar a venda sempre foi o mesmo: eficiência, modernização, investimento e melhoria no atendimento. Na prática, porém, o que a população paulista passou a vivenciar foi uma sucessão de problemas que colocam em xeque essa narrativa.
Bairros inteiros têm sofrido com interrupções prolongadas no abastecimento de água. Esgoto sem tratamento tem sido despejado em rios e represas. Aumentos expressivos nas tarifas passaram a pesar no orçamento das famílias. Estamos vivendo um racionamento permanente de água, com a redução da pressão na rede durante à noite.
A explosão ocorrida nesta segunda-feira no Jaguaré surge justamente nesse contexto. Quando empresas passam a operar sob forte pressão por redução de custos e maximização de lucros, áreas fundamentais como manutenção preventiva, fiscalização de obras e segurança operacional deixam de ser prioridade.
É assim que funciona a privatização. E, desta vez, o resultado foi devastador: uma morte, famílias feridas, residências destruídas e comunidades inteiras expostas a riscos que poderiam ter sido evitados. O acidente ocorre exatamente dois meses depois do rompimento de um reservatório de água da Sabesp em Mairiporã, na grande São Paulo, que também deixou um morto, feridos e casas destruídas.
O mais grave é perceber que os alertas já existiam. Denúncias do sindicato davam conta de que um grande número de trabalhadores com anos de experiência na Sabesp foram demitidos no processo de privatização.
Obras complexas envolvendo redes subterrâneas exigem planejamento rigoroso, conhecimento, integração entre equipes e fiscalização permanente. Características que, certamente, faziam parte do currículo dos trabalhadores dispensados.
O episódio também desmonta a ideia de que privatizar significa melhorar. A experiência recente de São Paulo mostra justamente o contrário em diversos setores.
Na CPTM, por exemplo, a população enfrentou piora na qualidade dos serviços, superlotação e aumento das dificuldades de deslocamento após a concessão de linhas ferroviárias.
Além dos danos materiais e físicos, a tragédia no Jaguaré evidencia um problema recorrente nas periferias e bairros populares: a população quase nunca é informada adequadamente sobre os riscos de grandes intervenções urbanas.
Muitas vezes, moradores convivem com obras extensas, interdições e movimentações pesadas sem qualquer transparência sobre protocolos de segurança ou planos de contingência.
Diante disso, não basta apenas abrir investigações e divulgar notas oficiais. É necessário garantir apoio integral às vítimas, transparência total sobre as responsabilidades e, sobretudo, rever profundamente o modelo de gestão que vem sendo implementado no Estado de São Paulo.
Serviços essenciais não podem funcionar exclusivamente sob a lógica do lucro. É preciso ter compromisso com a vida. Dito isso, toda a minha solidariedade aos familiares e amigos do vigilante Alexsandro Fernandes Nunes, de 45 anos, que foi encontrado nos escombros deixados pela explosão pelos bombeiros. Também aos feridos e às famílias que perderam tudo nesta tragédia. Precisamos aprender com esse erro, para que ele nunca mais volte a se repetir.
* Este é um artigo de opinião, de responsabilidade do autor, e não reflete a opinião do Brasil 247.




