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Tarcísio entregou a Sabesp, que provocou a explosão em São Paulo, numa privatização sem disputa

Acidente no Jaguaré amplia questionamentos sobre modelo de privatização da Sabesp e falta de concorrência no leilão

São Paulo (SP) - 23/07/2024 - Cerimônia de privatização da Sabesp na Bolsa de Valores de São Paulo (B3) (Foto: Rovena Rosa/Agência Brasil)
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247 - A explosão ocorrida durante uma obra da Sabesp no Jaguaré, na zona oeste de São Paulo, reacendeu o debate sobre a privatização da maior companhia de saneamento do país e trouxe novamente ao centro das discussões a ausência de concorrência no processo conduzido pelo governo de Tarcísio de Freitas.

A Sabesp admitiu que equipes da companhia atingiram uma tubulação de gás antes da explosão. O acidente deixou ao menos uma pessoa morta, além de feridos e dezenas de imóveis danificados, segundo relatos publicados pela imprensa. Embora as causas ainda estejam sob investigação, o episódio ganhou repercussão imediata por atingir um dos pontos mais sensíveis em serviços públicos essenciais: a capacidade operacional após a privatização.

O caso recolocou sob pressão o modelo adotado pelo governo paulista para vender o controle da companhia. Desde o leilão, especialistas, trabalhadores e críticos do processo apontam que a privatização ocorreu sem uma disputa efetiva entre empresas do setor. A Equatorial Energia acabou sendo a única companhia a apresentar proposta para assumir a posição de acionista de referência da Sabesp, adquirindo 15% da empresa por R$ 6,9 bilhões.

A ausência da Aegea, considerada até então a principal candidata para disputar o controle da companhia, alterou completamente o cenário do leilão. A empresa possui forte atuação no setor de saneamento, acumulando experiência em concessões importantes no país, incluindo ativos da Cedae, no Rio de Janeiro, e a privatização da Corsan, no Rio Grande do Sul.

Sem concorrência relevante entre operadores especializados, o processo passou a ser alvo de críticas crescentes. Para analistas do setor, um leilão sem disputa enfraquece a avaliação pública sobre preço, capacidade técnica e planejamento de longo prazo da empresa vencedora.

A Equatorial construiu sua trajetória principalmente no segmento de distribuição de energia elétrica. A companhia ganhou notoriedade ao assumir concessões problemáticas, reduzir perdas e reorganizar operações consideradas deficitárias. No entanto, especialistas destacam que o saneamento possui desafios técnicos distintos, exigindo experiência em redes subterrâneas complexas, coordenação urbana e integração com sistemas de gás, telecomunicações, drenagem e infraestrutura municipal.

A aposta da empresa foi transformar-se em uma multi-utility, reunindo diferentes serviços regulados sob uma mesma plataforma de gestão. O modelo é visto com interesse pelo mercado financeiro, mas críticos afirmam que sua implementação depende de elevado grau de conhecimento técnico e operacional.

Desde a privatização, sindicatos e representantes dos trabalhadores têm alertado para programas de desligamento e redução de quadros experientes dentro da Sabesp. Ainda não existe comprovação pública de relação direta entre essas mudanças e o acidente no Jaguaré, mas o episódio fortaleceu o debate sobre os riscos de enxugamento operacional em empresas responsáveis por infraestrutura crítica.

O caso também trouxe comparações com problemas enfrentados pela Enel em São Paulo nos últimos anos, especialmente após apagões e falhas recorrentes no fornecimento de energia. Para críticos da privatização, o principal risco não está necessariamente na transferência da operação para a iniciativa privada, mas na combinação entre busca intensa por eficiência financeira, redução de estruturas técnicas e subestimação da complexidade operacional dos serviços públicos essenciais.

A privatização da Sabesp foi apresentada pelo governo estadual como símbolo de modernização e ampliação da capacidade de investimento. Porém, o formato do processo continua sendo alvo de questionamentos. A maior empresa de saneamento da América Latina acabou transferida para uma companhia cuja experiência histórica estava concentrada no setor elétrico, sem enfrentar uma concorrência robusta de operadores especializados em saneamento.

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