Qual Ciro seria?
Até onde o sistema político brasileiro está realmente disposto a investigar a si próprio
No tsunami de notícias sobre o escândalo do Banco Master surge agora, a partir das revelações a conta-gotas das mensagens encontradas nos celulares de Daniel Vorcaro, uma pergunta aparentemente simples, mas carregada de implicações políticas: afinal, qual Ciro seria?
Algumas dessas mensagens mostram conversas do banqueiro com o senador Ciro Nogueira e, mais intrigante ainda, uma ordem dada por Vorcaro ao seu operador financeiro, cunhado e pastor da Igreja Lagoinha, Fabiano Zettel, para realizar um pagamento a alguém identificado apenas como “Ciro”. O detalhe aparentemente banal abriu uma nova frente de apuração. Afinal, o nome aparece sem sobrenome. Não se sabe se isso se deve à intimidade entre os interlocutores e o destinatário mencionado no diálogo. Caberá às investigações esclarecer.
A dúvida, portanto, não é trivial. O Ciro que aparece nessas mensagens como destinatário do pagamento seria o senador, ex-ministro da Casa Civil de Bolsonaro e atual presidente do PP? Seria outro Ciro qualquer? Ou, quem sabe, Ciro, o Presbítero - já que vivemos tempos em que até referências bíblicas parecem atravessar o debate público? Sim, é uma ironia.
O próprio senador negou qualquer recebimento de valores e afirmou que a suposição de que o pagamento se referiria a ele é “uma mentira fabricada”. A declaração do nobre parlamentar não poderia ser diferente, _por supuesto_. Ainda assim, a investigação segue seu curso. E segue porque as mensagens revelam proximidade entre Vorcaro e o senador, a quem o banqueiro chegou a chamar de “grande amigo de vida” em outras conversas recuperadas pelos investigadores.
Mas talvez o ponto mais relevante não seja, afinal, a identidade exata do tal “Ciro”. O que realmente chama atenção é o ambiente político em que o Banco Master prosperou. E é aí que deveria estar concentrado o foco central da investigação. Não apenas para punir os responsáveis, colocando os fatos no seu devido tempo histórico - aquele em que os atos criminosos foram praticados -, mas também para aperfeiçoar mecanismos de governança capazes de impedir que atalhos semelhantes sejam utilizados novamente.
As conexões do banco com figuras e estruturas do poder durante o governo de Jair Bolsonaro são, no mínimo, eloquentes. O escândalo, considerado por autoridades como uma das maiores fraudes bancárias já investigadas no país, envolve suspeitas de carteiras de crédito fictícias, prejuízos bilionários e um esquema sofisticado que teria quatro núcleos de atuação: financeiro, corrupção institucional, lavagem de dinheiro e intimidação.
Trata-se de uma teia que se espraia. Além das conversas com políticos influentes, o caso também revelou menções a integrantes do Banco Central nomeados durante o governo Bolsonaro, evidenciando que o raio de influência do grupo era amplo e transversal.
Nesse contexto, cresce em Brasília uma suspeita incômoda: não faltariam razões para que parte da classe política - especialmente no Centrão e na extrema-direita - prefira não aprofundar demais as investigações. Porque, quanto mais camadas desse escândalo vêm à tona, mais nomes aparecem nas conversas, nos registros e nos encontros relatados pelos investigadores.
E quando muitos nomes começam a surgir, a velha tentação da política brasileira reaparece: o grande acordão. Um pacto silencioso entre interessados para que tudo avance apenas até certo ponto - o suficiente para dar satisfação à opinião pública, mas não o bastante para comprometer estruturas de poder sustentadas por esses mesmos atores.
Talvez por isso a pergunta “qual Ciro seria?” seja apenas a ponta visível de um iceberg muito maior. O nome pode até ser esclarecido com o tempo. O que permanece em aberto é algo mais profundo: até onde o sistema político brasileiro está realmente disposto a investigar a si próprio.
Se a busca pela verdade encontrará acolhimento nas instituições ou se acabará diluída nas conveniências da política, ainda é cedo para saber.
Mas uma coisa parece cada vez mais evidente: tem muito mais caroço nesse angu do que se imaginava no começo dessa história.
* Este é um artigo de opinião, de responsabilidade do autor, e não reflete a opinião do Brasil 247.



