Quando a mídia vai assumir sua parte no fascismo?

“Enquanto não assumir os erros de ter participado de um golpe de estado contra Dilma e da farsa para retirar Lula das eleições de 2018, a mídia corporativa carece de legitimidade para falar em defesa da democracia”, escreve o jornalista Aquiles Lins, editor do 247. “E não adianta se escandalizar as com ‘bananas’ de Bolsonaro quando foi ela quem lhe pavimentou o caminho e lhe abriu as portas do poder”

(Foto: Reprodução/Youtube)

Por Aquiles Lins, para o Jornalistas pela Democracia

No intervalo de apenas oito dias neste mês, Jair Bolsonaro enviou duas “bananas” para jornalistas da mídia corporativa na saída do Palácio do Alvorada. A primeira, no último dia 6, ao ser questionado sobre a declaração preconceituosa acerca de portadores do vírus HIV, e a segunda no sábado, 15, quando perguntado sobre o desmonte de parte da biblioteca presidencial para instalar um gabinete para a primeira-dama, Michelle Bolsonaro. Segundo a Federação Nacional dos Jornalistas (Fenaj), em 2019, Bolsonaro foi o responsável por 121 dos 208 ataques contra veículos de comunicação e jornalistas no Brasil. É um agressor contumaz da imprensa e incentivador de violências de toda sorte, como a perpetrada contra a repórter Patricia Campos Mello na CPMI das Fake News. 

A mídia corporativa - me refiro fundamentalmente a Folha de S. Paulo, O Estado de S. Paulo e grupo Globo - retrata estas agressões com absoluta cara de paisagem, como se nada tivesse a ver com elas. Tentam emular distanciamento desta figura grotesca, que desrespeita pilares da democracia como a liberdade de imprensa. Acontece que esta estratégia já não convence. A mídia é parte da tragédia Jair Bolsonaro. E deve se assumir como tal e se depurar, se quiser ser reabilitada como defensora da democracia no Brasil. Estes veículos são tradicionais defensores de políticas liberais na economia brasileira. Mas o processo de disputa do poder político tem outras variáveis e, pela quarta vez nas urnas, a população vinha demonstrando sua rejeição a esta política de estado mínimo, que só aprofunda a já colossal desigualdade entre os brasileiros. 

A mídia não teve apreço pela decisão dos brasileiros em 2014, quando reelegeram Dilma Rousseff como presidente. De modo deliberado, Folha, Globo e Estado decidiram boicotar o governo, embarcando em um golpe de estado que em 2016 retirou uma presidente legítima sem comprovação de crime de responsabilidade. Uma presidente, ressalte-se, que jamais protagonizara qualquer hostilidade contra jornalistas ou cerceara a liberdade de imprensa. A mídia não se envergonha de atuar na farsa da condenação e da prisão do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva, fraudando novamente a vontade dos brasileiros, já que é um fato pacífico que Lula liderava as intenções de voto para presidente quando teve candidatura impedida pelo Tribunal Superior Eleitoral. Ou seja, sua convicção pela implantação de uma política econômica já anacrônica, marcada pela produção de desigualdade, levou a mídia brasileira a participar de maneira ostensiva da cassação dos 54 milhões de votos dos brasileiros em 2014, e na cassação do direito de voto de outros milhões em 2018. 

Nos estudos sobre o jornalismo liberal, frequentemente os veículos são descritos como “watch-dog”. Neste conceito, eles atuariam como cães de guarda sempre em defesa dos interesses da população, fiscalizando os poderes e alertando o público quando um problema é detectado. Vemos a atuação deste jornalismo de vigilância com relativa frequência nas tomadas de decisão do governo, revelando possíveis ilegalidades, imoralidades, malversação da coisa pública em vários aspectos do exercício do poder. Este conceito, porém, nunca foi imune a críticas. Ainda em 1919, no livro The Brass Check, o escritor Upton Sinclair analisou alguns dos problemas do jornalismo impresso nos Estados Unidos e chegou à conclusão de que os jornais não “contavam toda a verdade” e eram cooptados por grupos poderosos do sistema capitalista. Sinclair disse que “o jornalismo é um dos artefatos pelos quais a autocracia industrial mantém seu controle sobre a democracia política” (p.222). 

Na conjuntura atual brasileira, o conceito de imprensa “watch dog” desmoronou de vez. Se reconhecermos o fato óbvio de que os veículos de comunicação de massa que atingem a grande maioria da população repetem praticamente em uníssono o apoio à política econômica ultraliberal do governo de Jair Bolsonaro, com espaço quase zero para o pluralismo, para a divergência, constataremos o quão atual segue a máxima de Upton Sinclair. Basta trocar “autocracia industrial” por “capital financeiro”. 

Enquanto não assumir que participou de um golpe de estado contra Dilma Rousseff e de uma farsa para retirar o ex-presidente Lula, o candidato mais competitivo do campo popular, das eleições de 2018, a mídia corporativa carece de legitimidade para falar em defesa da democracia. A mídia é hoje cão de guarda do capital financeiro, não da população. E não adianta se escandalizar as com ‘bananas’ de Bolsonaro quando a mídia lhe pavimentou o caminho e lhe abriu as portas do poder. 

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