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Oliveiros Marques

Sociólogo pela Universidade de Brasília, onde também cursou disciplinas do mestrado em Sociologia Política. Atuou por 18 anos como assessor junto ao Congresso Nacional. Publicitário e associado ao Clube Associativo dos Profissionais de Marketing Político (CAMP), realizou dezenas de campanhas no Brasil para prefeituras, governos estaduais, Senado e casas legislativas

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Quando há método, há alcance: o mito da superioridade da direita nas redes

Coordenação e estratégia, e não ideologia, definem o alcance e a força política nas redes sociais

Quando há método, há alcance: o mito da superioridade da direita nas redes (Foto: andreia-sadi)

A rápida retratação da GloboNews, feita pela jornalista Andréia Sadi no programa Estúdio I, após a repercussão negativa de uma arte exibida dias antes, oferece mais do que um episódio isolado de correção editorial. Ela revela uma lição importante sobre o funcionamento das disputas políticas no ambiente digital - e, especialmente, desmonta um mito que há anos se tenta consolidar: o de que a direita seria naturalmente mais forte que a esquerda nas redes sociais.

A peça que motivou a reação omitia conexões relevantes entre figuras do bolsonarismo e o esquema envolvendo o banqueiro Daniel Vorcaro, ao mesmo tempo em que insinuava, de forma distorcida, vínculos com o governo Lula no caso do Banco Master. A resposta foi imediata, coordenada e, sobretudo, concentrada.

Ao longo do fim de semana, milhares de usuários passaram a criticar o conteúdo, utilizando referências comuns, comparações diretas e uma narrativa unificada. A analogia com o “powerpoint” da Operação Lava Jato não surgiu de forma dispersa: ela foi replicada, reforçada e amplificada como eixo central da crítica. O resultado foi uma pressão consistente, difícil de ignorar. Mensagem que, importante negritar, devidamente trabalhada veículos de comunicação progressistas. 

Esse ponto é fundamental. O que garantiu alcance e impacto não foi apenas o conteúdo da crítica - legítima, consistente e baseada em fatos -, mas o método de distribuição. Houve centralidade na mensagem, repetição estratégica e convergência discursiva. Elementos que, historicamente, foram mais associados à atuação digital da direita, mas que, neste caso, foram plenamente mobilizados por setores progressistas.

Durante anos, consolidou-se a ideia de que a direita teria maior domínio das redes sociais por uma suposta superioridade comunicacional. No entanto, episódios como este demonstram que essa vantagem não está necessariamente no conteúdo, mas na forma como ele é organizado, disseminado e reforçado.

Quando há dispersão, a mensagem se dilui. Quando há centralidade, ela ganha corpo, escala e força política.

A reação ao caso também ultrapassou o ambiente digital. Jornalistas experientes, com décadas de atuação, vieram a público para criticar a condução editorial. Ou seja, a mobilização online conseguiu transbordar para outros espaços de legitimidade, ampliando ainda mais seu impacto. Isso nos leva a uma conclusão clara: o fortalecimento da presença progressista nas redes não depende de reinventar o conteúdo, mas de aprimorar o método. Coordenação, foco narrativo, repetição e timing são fatores decisivos.

O episódio da GloboNews não deve ser visto apenas como uma vitória pontual, mas como um sinal. Um indicativo de que, quando há estratégia e alinhamento, a militância digital de esquerda é plenamente capaz de disputar - e vencer - batalhas de narrativa no ambiente online.

Que essa experiência sirva de aprendizado. Porque, no fim das contas, a diferença não está em quem fala melhor - mas em como, quando e de que forma essa fala se organiza para ser ouvida.

* Este é um artigo de opinião, de responsabilidade do autor, e não reflete a opinião do Brasil 247.

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