Quando o fascismo bate à porta: lições ignoradas da história
'Isolar politicamente projetos autoritários não é histeria nem radicalismo - é aprendizado histórico', escreve o colunista Oliveiros Marques
O fascismo não surge como um raio em céu azul. Ele se insinua, pouco a pouco, normalizando o inaceitável, testando limites e se alimentando da indiferença coletiva. A ascensão de Adolf Hitler é um dos exemplos mais claros desse processo. Antes das invasões, antes dos campos de extermínio, antes da guerra total, houve a escolha de um inimigo interno. Os judeus foram transformados em ameaça moral, econômica e cultural. A propaganda os desumanizou, e leis aparentemente “administrativas” passaram a excluí-los da vida pública. Muitos contemporâneos minimizaram esses atos, dizendo que eram exageros retóricos ou medidas temporárias. A história mostrou o preço dessa complacência.
O discurso nazista se sustentava na ideia de que a Alemanha precisava “se purificar” internamente para depois recuperar seu espaço no mundo. A lógica era simples e perversa: primeiro, eliminar os “inimigos de dentro”; depois, expandir fronteiras para garantir segurança e prosperidade. Quando a Áustria foi anexada e a Tchecoslováquia invadida, ainda houve quem defendesse a contemporização, acreditando que concessões evitariam algo pior. O resultado foi exatamente o oposto.
Guardadas as diferenças históricas, é impossível ignorar as similaridades estruturais com o fenômeno político representado por Donald Trump. Seu discurso sistemático contra imigrantes - tratados como criminosos, invasores ou parasitas do Estado - cumpre a mesma função simbólica: criar um inimigo interno que justifique o endurecimento do regime, a erosão de direitos e o enfraquecimento das instituições democráticas. Quando parte da população passa a ser vista como ameaça existencial, abre-se o caminho para exceções permanentes à legalidade.
No plano externo, o padrão se repete. A invasão da Venezuela, apresentada sob o pretexto de segurança e estabilidade, mas de fato uma intervenção por conta do petróleo, revela uma lógica imperial clássica: a soberania alheia torna-se descartável diante dos interesses estratégicos do mais forte. Da mesma forma, a obsessão em controlar a Groenlândia - ainda que pertença a outro país - revela uma mentalidade expansionista que ignora o direito internacional e trata territórios como ativos negociáveis. Foi exatamente assim que regimes autoritários do século XX testaram a passividade do mundo.
O mais perigoso nesses processos não é apenas o líder, mas o ambiente que o permite prosperar. Hitler avançou porque seus primeiros passos foram relativizados. Trump avança porque muitos ainda acreditam que se trata apenas de retórica, bravatas ou estratégias eleitorais. A história demonstra que o fascismo não se anuncia como tal: ele se disfarça de patriotismo, ordem e segurança.
Isolar politicamente projetos autoritários não é histeria nem radicalismo - é aprendizado histórico. O mundo falhou quando escolheu ignorar os sinais nos anos 1930. Repetir esse erro hoje seria uma escolha consciente. Quando percebemos o fascismo claramente, os danos já são profundos. A única resposta responsável é agir antes que seja tarde demais.
* Este é um artigo de opinião, de responsabilidade do autor, e não reflete a opinião do Brasil 247.



