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Elisabeth Lopes

Advogada, especializada em Direito do Trabalho, pedagoga e Doutora em Educação

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Quando o samba incomoda: cultura popular, poder e a disputa política no Brasil

Superado o Carnaval no horizonte do ano eleitoral, os diversos enredos políticos subjacentes passaram a desfilar nas múltiplas Sapucaís da República

Desfile da Acadêmicos de Niterói (Foto: Ricardo Stuckert)

Enquanto o povo vibrava na alegria dos dias de Carnaval, em blocos e escolas de samba que mergulharam com profundidade na historicidade do povo brasileiro, celebrando raízes, dores e conquistas, consolidava-se um contraste eloquente entre a potência cultural das ruas e a atuação seletiva da mídia corporativa. 

A exemplo da Acadêmicos de Niterói, que levou para a avenida a saga dos nordestinos e, em especial, a trajetória de Dona Lindu, mãe de Luiz Inácio Lula da Silva retirante que migrou para São Paulo com os filhos em busca de dignidade e trabalho, o carnaval expôs a força simbólica de um Brasil real, forjado na desigualdade, mas também na resistência. 

Contudo, ao mesmo tempo em que a avenida celebrava essa memória coletiva, a Globo, concessionária de um serviço público, sonegava imagens do desfile da escola. Ao iniciar a cobertura destacando ações judiciais movidas por opositores para impedir a apresentação, a emissora rompeu com a tradição de priorizar o espetáculo artístico e deslocou o foco da celebração cultural para a disputa política. Ainda que tenha tentado deliberadamente minimizar a dimensão simbólica do enredo, não conseguiu sufocar o eco do refrão popular que ecoava na Sapucaí e nas arquibancadas.

Importa destacar que a escola não levou à avenida apenas um enredo, mas a representação de uma história real que conta a trajetória de milhões de brasileiros, a caminhada de Luiz Inácio Lula da Silva, o menino retirante que mais tarde como presidente da República transformou a própria história e a de milhões de brasileiros. 

Ao som de um samba enredo primoroso, exaltou-se a força de quem saiu da fome e da migração forçada para se tornar líder nacional e referência mundial, governando o país com políticas que impactaram estruturalmente a realidade econômica e social. Foi sob sua liderança que o Brasil expandiu universidades públicas e institutos federais, ampliou o acesso ao ensino superior por meio de políticas de inclusão, reduziu desigualdades históricas e permitiu que filhos de trabalhadores, e de retirantes como ele ocupassem as salas das universidades e alcançassem o título de doutores. Um presidente sem diploma universitário que, paradoxalmente, valorizou a educação como instrumento de emancipação social, que fortaleceu programas de acesso à moradia, possibilitando às camadas populares a conquista da casa própria, que enfrentou o debate fiscal, aprovando a isenção do imposto de renda para quem ganha até cinco mil reais, com taxação dos super ricos, que se posiciona pelo fim da escala 6x1, por melhores condições de trabalho e por uma economia inclusiva. 

Entretanto, ao longo dos 79 minutos de apresentação da Acadêmicos de Niterói, os comentaristas da emissora permaneceram visivelmente contidos diante da eloquência provocadora da performance dos componentes da escola. Não se tratou de mero critério técnico de edição, mas de escolha editorial que acabou por invisibilizar a ousadia artística e o alcance simbólico do enredo. Ao celebrar o filho de Dona Lindu, a escola reafirmou a legitimidade social de um governo que emerge do povo e dialoga com suas aspirações. Ainda assim, setores políticos opositores ao governo Lula trataram a manifestação artística como afronta ideológica.

As polêmicas extrapolaram o campo cultural. Antes mesmo do desfile, proliferaram nas redes sociais manifestações de repúdio, pedidos de investigação e tentativas de judicialização sob a alegação de propaganda eleitoral antecipada. Parlamentares da   da extrema direita, além de segmentos conservadores da sociedade, enquadraram o enredo como provocação partidária. Parte da mídia amplificou o conflito em detrimento da análise artística, contribuindo para um ambiente de tensão previamente construído.

Nesse cenário, uma das alas mais atacadas foi a Família em Conserva. Contudo, a crítica ali encenada não se dirigia à instituição familiar, mas à instrumentalização política da expressão família tradicional como dispositivo retórico mobilizado por setores ligados ao bolsonarismo para demarcar fronteiras morais e eleitorais. Ainda assim, representantes das bancadas evangélica e católica reagiram como se houvesse afronta direta à fé ou à moral cristã. O que verdadeiramente estava em cena não era um ataque à família, mas a problematização de sua instrumentalização no debate público, distinção que foi propositalmente ignorada por críticos interessados em transformar manifestação artística em palanque ideológico.

Superado o Carnaval, o embate deslocou-se para o plano institucional. No horizonte do ano eleitoral, os diversos enredos políticos subjacentes passaram a desfilar nas múltiplas Sapucaís da República.

Ao mesmo tempo em que parte da mídia corporativa evita aprofundar as alas centrais do enredo do maior escândalo financeiro envolvendo o Banco Master e omite menções a figuras como a do senador Ciro Nogueira (PP-PI), dos governadores Ibaneis Rocha  (MDB-DF) e Cláudio Castro (PL-RJ), do presidente do partido União Brasil, Antônio Rueda, atores coadjuvantes na trama produzida por Daniel Vorcaro, intensifica argumentos que buscam fragilizar o Supremo Tribunal Federal.

Esse movimento se intensifica após o fortalecimento institucional do STF, que condenou os envolvidos na tentativa de golpe contra o Estado Democrático de Direito e passou a enfrentar abusos no uso do orçamento público, entre outros enfrentamentos de constitucionalidade. Ressalta-se a atuação da Corte na imposição de freios à chamada farra das emendas, ao exigir transparência e rastreabilidade na aplicação dos recursos públicos, por meio da postura firme do ministro Flávio Dino na fiscalização dessas verbas, o que tem tensionado prerrogativas consolidadas no Legislativo durante as gestões Michel Temer e Jair Bolsonaro. Recorde-se, ainda, a hostilidade recorrente da família Jair Bolsonaro contra a Suprema Corte, cuja retórica chegou a sustentar que “um cabo e um soldado seriam suficientes para fechá-la”. Firmado como barreira a investidas autoritárias, o Supremo tornou-se alvo prioritário dos que se veem contrariados por suas decisões.

Nesse ambiente de crescente tensionamento institucional, cumpre ressaltar que, a partir do caso Master, consolidou-se um ambiente de suspeição permanente em torno do STF. Nesta semana, no programa Estúdio i, comentaristas dirigiram críticas contundentes à decisão do ministro Alexandre de Moraes de determinar a investigação de quatro servidores da Receita Federal suspeitos de acessarem, sem autorização, dados fiscais de ministros e de seus familiares. Trata-se de ocorrência gravíssima, pelo uso de informações fiscais sensíveis como instrumento de pressão ou constrangimento político.

Para sustentar a crítica, a produção do Estúdio i, da GloboNews, convidou o presidente da Associação Nacional dos Fiscais da Receita Federal (Unafisco), Kléber Cabral, que no exercício natural de sua função associativa (não sindical como erroneamente identificada pelos jornalistas), saiu em defesa dos funcionários da Receita investigados. No decorrer da entrevista, Kléber referiu que a Receita não teria como “vazar contrato” da esposa do ministro Moraes com Daniel Vorcaro, o que é evidente. A questão, porém, não se restringe a contratos, mas ao eventual acesso e cruzamento de dados fiscais que poderiam alimentar insinuações sobre evolução patrimonial após contratos de prestação de serviços jurídicos firmados com o Banco Master. 

Ao final, o eixo da discussão foi deslocado. A gravidade do possível vazamento de dados cedeu espaço à construção de suspeição sobre o próprio ministro Alexandre de Moraes, responsável por determinar a investigação no âmbito do Inquérito 4.781, o chamado inquérito das fake news. Assim, o foco deixou de recair sobre a integridade das informações fiscais e passou a incidir sobre a legitimidade de quem ordenou a apuração, invertendo-se, de modo sutil, a lógica da responsabilidade institucional.

Informações da jornalista Heloísa Vilela acrescentam novos elementos ao quadro. Conforme relatado, o auditor fiscal Ricardo Manzano de Moraes, que se tornou alvo de medidas cautelares determinada por Moraes pela suspeita de consultar informações protegidas vinculadas a ministros do STF, apresentou à corregedoria uma justificativa inusitada, ao afirmar que teria acessado dados de uma nora do ministro Gilmar Mendes ao tentar localizar o telefone de um conhecido de mesmo sobrenome: Feitosa. Essa explicação acabou tangenciando outra investigação sensível a da chamada “Abin paralela”, estrutura clandestina de monitoramento que teria operado na Agência Brasileira de Inteligência durante o governo de Jair Bolsonaro. 

O referido conhecido, Ricardo Pereira Feitosa, foi exonerado do cargo de coordenador geral de Pesquisa e Investigação da Receita Federal, área de inteligência do órgão, após ser identificado o uso da função para consultar informações fiscais de ao menos quatro desafetos da família Bolsonaro. Entre eles, o procurador José Eduardo Gussem, responsável por denunciar o esquema das “rachadinhas” envolvendo Flávio Bolsonaro. 

Ainda segundo a jornalista, o então presidente da Unafisco, Kléber Cabral, desde o governo Jair Bolsonaro, teria tentado dissuadir Guilherme Bibiani de assumir a Corregedoria da Receita Federal, cargo estratégico que contrariava interesses de grupos vinculados à chamada “Abin paralela” e do senador Flávio Bolsonaro, que preferiria alguém de sua estrita confiança na função. Esses achados da jornalista nos auxiliam a compreender o empenho de Kléber em criticar o ministro Moraes e suas decisões no inquérito que investiga os vazamentos feitos pelos funcionários da Receita.

Vis à vis, a exploração midiática desses episódios busca caracterizar uma crise institucional. No entanto, o vazamento de dados fiscais de ministros e de seus familiares compõe, na verdade, um quadro mais amplo de ofensiva coordenada. A estratégia parece evidente, enfraquecer o STF justamente no momento em que sua autoridade se encontrava reafirmada. Observa-se um padrão recorrente, pois conexões indiretas são amplificadas quando envolvem figuras associadas ao campo progressista, enquanto episódios similares em setores conservadores recebem tratamento mais cauteloso. Assim, constrói-se um ambiente difuso de desconfiança que, em período eleitoral, cumpre papel estratégico.

Enquanto a mídia corporativa intensifica coberturas que, na prática, operam como pré-campanha antilulista, o governo atua em múltiplas frentes para impulsionar o crescimento econômico, científico e social do país. A recente missão oficial à Índia ilustra uma política externa ativa e soberana. 

No encontro entre Lula e o primeiro-ministro Narendra Modi, discutiram-se comércio, investimentos, defesa, aviação, tecnologias digitais, inteligência artificial, transição energética, minerais críticos, saúde, acesso a medicamentos, indústria farmacêutica e cooperação espacial. A pauta incluiu ainda a defesa da reforma do Conselho de Segurança da ONU e a revitalização do multilateralismo. A comitiva, composta por ministros e empresários, evidencia a articulação entre Estado e setor produtivo para ampliar mercados, atrair investimentos e fortalecer cadeias estratégicas. No plano interno, observa-se a retomada de investimentos em ciência e tecnologia, o incentivo à pesquisa, a ampliação de políticas industriais, o fortalecimento do complexo econômico da saúde e o de programas sociais que dinamizam o consumo e a economia.

O contraste é nítido. De um lado, um projeto que aposta na inclusão social, na ciência, na inovação, na saúde pública fortalecida e na inserção soberana do Brasil no cenário internacional. De outro, uma articulação entre direita tradicional, extrema direita e segmentos da mídia corporativa que, inconformados com o fortalecimento institucional do STF e com a legitimidade popular do governo, investem no desgaste contínuo, na associação insinuante e na amplificação seletiva de crises. 

Em ano eleitoral, essa disputa se intensifica e explicita alinhamentos. A mídia que deveria exercer função pública atua, reiteradamente, em sintonia com interesses da elite financeira que resiste a governos populares e progressistas. A sociedade brasileira precisa compreender que a disputa não se trava apenas nas urnas, mas na construção cotidiana da narrativa pública: entre o Brasil que trabalha para crescer com justiça social e aqueles que apostam na desestabilização como método de conquista de poder.

Mais do que uma controvérsia carnavalesca ou um embate jurídico, o que está em jogo é a definição do rumo do país. De um lado, o Brasil que valoriza sua história e busca crescimento com inclusão e justiça social, de outro, forças liberais que investem na fabricação de crises para desgastar instituições e deslegitimar a política. A disputa central não se trava apenas nas urnas, mas também no plano simbólico, onde se consolida, ou se corrói a legitimidade democrática, abrindo espaço para a reedição de uma agenda ultra liberal, afinada aos interesses do mercado financeiro, mediante a retração das políticas públicas, como se viu nos governos de Michel Temer e Jair Bolsonaro. No horizonte eleitoral, despontam nomes da direita e da extrema direita: Flávio Bolsonaro, Ratinho Júnior, Romeu Zema Novo e Ronaldo Caiado que se apresentam como alternativa ao presidente Luiz Inácio Lula da Silva, recolocando em confronto projetos antagônicos de Estado, um orientado pela centralidade do capital e pela mínima intervenção estatal, outro ancorado na soberania, no desenvolvimento e na proteção social.

* Este é um artigo de opinião, de responsabilidade do autor, e não reflete a opinião do Brasil 247.

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