Emir Sader avatar

Emir Sader

Colunista do 247, Emir Sader é um dos principais sociólogos e cientistas políticos brasileiros

1003 artigos

HOME > blog

Que PT, para que Brasil?

Em suma, o PT não está, hoje, em condições de enfrentar os grandes desafios que o Brasil tem pela frente

Que PT, para que Brasil? (Foto: Alessandro Dantas)

O PT realiza mais um Congresso na sua história. Qual o objetivo? De que forma este Congresso pode ajudar a superar os desafios que o Brasil tem pela frente?

Para saber se o partido está em condições de enfrentar esses desafios, é preciso colocar as questões:

  •  o partido tem um projeto de futuro para o Brasil? 
  •  o partido tem quadros com capacidade de direção e de elaboração estratégica? 
  •  o partido tem um trabalho de formação de quadros sistemático, voltado para as novas gerações? 
  •  o partido tem enraizamento nas novas gerações de trabalhadores brasileiros? 
  •  o partido tem diálogo direto e amplo com a juventude atual no Brasil? 

Provavelmente a maior parte das respostas não é positiva. Nem seria fácil que pudesse dá-las. Basta fazer uma análise da composição social e etária dos que participam do Congresso, para ter uma visão da realidade concreta do que é o PT hoje.

É provável que o Lula se eleja e tenha um quarto mandato e até mesmo que possa, como aconteceu no passado, eleger seu sucessor. Isto daria ao PT hoje o privilégio de ter um período longo no governo, que não pode ser desperdiçado.

Para que isso não ocorra, é fundamental e urgente colocar em prática uma análise profunda da situação econômica, social, política e cultural do Brasil atual, a partir da qual se passe a propor um projeto estratégico de futuro para o Brasil.

Mais além da resistência ao neoliberalismo, projetando um novo período histórico para o país. Para isso, é essencial constituir um grupo de análise qualificado e enraizado na realidade do país, com perspectiva de futuro para o Brasil.

Assim como é indispensável o trabalho de restabelecer relações com a juventude, que vive hoje realidades e perspectivas muito diferentes daquelas que o partido conheceu no passado.

Da mesma forma, um Congresso que tenha um papel histórico no país precisa de um projeto de uma mídia pública qualificada e com dimensões de massa, que hoje falta à esquerda brasileira.

Fazemos um bom governo, mas estamos levando uma surra na disputa das comunicações. Não se trata de reduzir nossos problemas aos das comunicações, mas de encontrar as formas de chegar sistematicamente ao povo, cotidianamente, incluindo o que o Morena do México chama de “mañaneras”, uma intervenção todos os dias, cedo, no nosso caso do Lula.

Mas, muito mais do que isso, precisamos de uma política de massas, que retome os vínculos que já tivemos no passado com a classe operária e com o movimento camponês. Uma política com quadros com prática na política de massas, vinculados às organizações existentes e com capacidade de criar novas organizações onde elas não existem.

Em suma, o PT não está, hoje, em condições de enfrentar os grandes desafios que o Brasil tem pela frente. Precisa de uma profunda e radical reforma das suas estruturas, de renovação dos quadros políticos, de melhor qualificação das análises teóricas e políticas.

Precisa recuperar o vigor e a força que já tivemos no passado e que, parece, fomos perdendo, conforme o partido se enfraqueceu ao invés de se fortalecer ao lado do projeto extraordinário de transformação do país que fomos colocando em prática ao longo deste século.

Para que este Congresso não seja mais um, que reeleja os mesmos dirigentes, que aprove documentos sem criatividade nem enraizamento na realidade. Para que o PT possa realmente enfrentar e superar os grandes desafios que o Brasil vive neste século.

* Este é um artigo de opinião, de responsabilidade do autor, e não reflete a opinião do Brasil 247.

Artigos Relacionados