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Paulo Gala

Paulo Gala é economista e professor da FGV

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Quem controla os chips, controla o futuro: o renascimento da CEITEC

Chips são a própria segurança econômica e disputá-los é uma questão de soberania

Ceitec (Foto: Divulgação)

Cada e-mail enviado, cada transação digital, cada imagem de satélite capturada ou sistema de defesa acionado depende de um ativo invisível: os microchips. No sistema econômico internacional, os semicondutores deixaram de ser apenas insumos industriais para se tornarem infraestrutura crítica e de poder. Quem domina sua concepção e produção controla cadeias produtivas inteiras e garante sua capacidade militar, política e econômica.

Chips são a própria segurança econômica e disputá-los é uma questão de soberania.

As grandes potências entenderam isso há muito tempo. Os Estados Unidos, berço da indústria de semicondutores, promulgaram em 2022 o CHIPS and Science Act, destinando US$ 52,7 bilhões para reerguer sua capacidade produtiva. Do outro lado do Pacífico, a China responde com números ainda mais vultosos. Em 2025, o país revelou estar preparando um pacote de incentivos para o setor de chips que pode chegar a US$ 70 bilhões.1 A União Europeia anunciou investimentos de US$ 50 bilhões no setor.2 Em 2025 a Índia investiu US$ 18 bilhões no seu programa de semicondutores. A empresa Taiwan Semiconductor Manufacturing Company (TSMC), a maior fabricante de chips do planeta, foi criada em 1987 com capital aportado pelo governo taiwanês. Até hoje o governo é o maior acionista individual da empresa.

É nesse contexto que precisamos olhar para a CEITEC - Centro Nacional de Tecnologia Eletrônica Avançada, a empresa brasileira de semicondutores que, após resistir a uma tentativa de privatização, renasce para demonstrar o que o Brasil pode fazer quando decide investir em seu próprio potencial tecnológico.

Criada em 2008 como empresa pública vinculada ao Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovação, a CEITEC tem como objetivos fixados em lei o desenvolvimento de soluções científicas e tecnológicas que contribuam para o progresso e o bem-estar da sociedade brasileira, bem como a exploração direta da atividade econômica das tecnologias de semicondutores, da microeletrônica e áreas correlatas.

A partir de 2020, a empresa enfrentou anos de incerteza após sua inclusão no Plano Nacional de Desestatização, processo que evoluiu para a liquidação formal da companhia. Diferentemente de uma simples privatização, a liquidação implicava a desestruturação completa da empresa, a paralisação de projetos estratégicos e a dispersão de equipes altamente qualificadas formadas ao longo de mais de uma década. O processo gerou danos concretos: áreas técnicas críticas foram desmobilizadas, equipes especializadas em design de circuitos integrados — uma das competências mais raras e estratégicas da indústria global de semicondutores — foram dispersadas, e a própria estrutura de recursos humanos responsável por manter e atrair talentos sofreu descontinuidade. Em setores de alta tecnologia, conhecimento acumulado é ativo estratégico; fragmentá-lo significa comprometer capacidades nacionais difíceis e custosas de reconstruir.

O reconhecimento de sua relevância estratégica para a segurança e soberania nacional motivou a reversão da decisão em 2023.

Desde então, iniciou-se um novo ciclo de revitalização institucional e tecnológica que já começou a dar frutos.

Após a reversão do processo de liquidação, a empresa retomou gradualmente a comercialização de seus produtos e voltou a registrar faturamento com vendas. Em 2025, a CEITEC registrou receita proveniente da venda de chips e serviços associados, sinalizando a reativação de sua atividade produtiva. Ainda assim, o exercício foi encerrado com prejuízo contábil de R$ 17,31 milhões, resultado influenciado principalmente pelo reconhecimento de provisões para contingências trabalhistas relacionadas a processos iniciados em gestões anteriores.

O portfólio da CEITEC combina projetos estratégicos de soberania tecnológica com produtos que alcançaram escala comercial e seguem ativos no mercado, formando um conjunto integrado de soluções em identificação e rastreabilidade.

No campo estratégico, a empresa desenvolveu, em articulação com instituições públicas essenciais ao Estado brasileiro, o chip para passaporte — estruturado em cooperação com a Polícia Federal e a Casa da Moeda — além do circuito integrado com sensor de temperatura de propriedade intelectual brasileira, voltado ao monitoramento de vacinas, medicamentos e produtos sensíveis ao longo da cadeia logística. Essas iniciativas reforçam a capacidade nacional em segurança documental e controle sanitário, ainda que sua implementação em larga escala tenha dependido de coordenação institucional e decisões estratégicas que não avançaram à época no ritmo necessário.

Paralelamente, a CEITEC consolidou três frentes comerciais relevantes e complementares: chips RFID veiculares e soluções de identificação logística, aplicados em controle patrimonial, gestão de frotas e rastreabilidade de ativos; chips de identificação animal, utilizados no rastreamento de rebanhos para controle sanitário e acesso a mercados internacionais; e soluções para rastreabilidade na área da saúde, incluindo aplicações em medicamentos e hemoderivados. Esses segmentos permanecem com demanda ativa e foram retomados após a reversão da liquidação, demonstrando que a empresa detém não apenas capacidade tecnológica instalada, mas também produtos com viabilidade econômica e inserção de mercado.

Mas o maior salto está por vir. Com um aporte de R$ 220 milhões do Fundo Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico, a CEITEC está se preparando para fabricar no Brasil semicondutores de potência em carbeto de silício, material de altíssima eficiência energética, essencial para data centers, veículos elétricos e sistemas fotovoltaicos. Isso permitirá que a empresa forneça dispositivos semicondutores para esses segmentos, todos em ascensão no Brasil: a maior parte da matriz energética brasileira hoje é proveniente de fontes de energia renovável; no segmento automotivo, há projeções indicando um aumento expressivo na fatia de mercado de veículos elétricos até 2040; e Programas como a Política Nacional de Datacenters e o Plano Brasileiro de Inteligência Artificial fomentam o desenvolvimento de infraestrutura no Brasil. Com isso, o Brasil também se tornará um dos players relevantes da transição energética global. A indústria verde depende desses componentes e quem os produzir dominará parte relevante das cadeias sustentáveis do futuro.

O renascimento da CEITEC é um exemplo do que outros países já aprenderam: em setores de fronteira tecnológica, o mercado sozinho não basta. Os riscos são altos, o retorno é de longo prazo e a concorrência internacional é implacável. Foi o Estado que criou a indústria de semicondutores nos Estados Unidos. É o Estado que sustenta a liderança mundial da TSMC em Taiwan. E é o Estado que, na China, comanda seu setor de semicondutores. No Brasil, a CEITEC prova que podemos fazer o mesmo.

É a existência de uma empresa pública, subordinada aos interesses nacionais, que permite que o país possa sonhar em inovar em áreas críticas, gerar empregos qualificados e, acima de tudo, decidir seu destino tecnológico. Num mundo onde o poder também se mede pela capacidade de produzir chips, o Estado brasileiro não pode se dar ao luxo de ser mero espectador. A CEITEC aponta o caminho.

* Este é um artigo de opinião, de responsabilidade do autor, e não reflete a opinião do Brasil 247.

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