Falta de terras raras trava insumos de aviação e chips nos EUA e pressiona cúpula Trump-Xi
Escassez de ítrio e escândio leva fornecedores a racionar materiais e pausar produção apesar da trégua comercial com a China
247 – A escassez de terras raras usadas em tecnologias estratégicas está se agravando na cadeia de fornecedores de empresas aeroespaciais e de semicondutores dos Estados Unidos, com ao menos dois fornecedores restringindo vendas e recusando parte dos clientes, segundo fontes do setor. A informação foi publicada pela Reuters nesta quinta-feira, 26 de fevereiro de 2026, a poucas semanas de um encontro esperado entre o presidente dos EUA, Donald Trump, e o presidente da China, Xi Jinping, em Pequim.
O foco do problema está em dois elementos pouco conhecidos fora da indústria, mas críticos para segmentos de defesa, aviação e chips: o ítrio e o escândio, integrantes do grupo das 17 “terras raras”. Em quantidades pequenas, eles cumprem funções decisivas. O ítrio entra em revestimentos que protegem motores e turbinas contra temperaturas extremas. O escândio é usado em aplicações avançadas da indústria de semicondutores e também aparece em ligas especiais e outras tecnologias. Ambos são produzidos quase integralmente na China, o que torna controles de exportação um instrumento de pressão econômica e geopolítica.
Trégua comercial não normalizou embarques para os EUA
A Reuters relata que Pequim permitiu a retomada de muitas exportações desde que impôs restrições em abril, mas os embarques desses materiais ainda raramente chegam aos Estados Unidos, segundo dados alfandegários chineses. Isso ocorre apesar de uma distensão com Washington anunciada em outubro, que, ainda de acordo com a reportagem, tinha como premissa a pausa de restrições chinesas a minerais críticos.
O tema deve estar no centro das conversas quando Trump e Xi se reunirem em março em Pequim. Na prática, a dificuldade em restabelecer o fluxo revela que a disputa não se limita a tarifas ou declarações diplomáticas. Ela passa por licenças, exigências administrativas e pelo controle chinês sobre materiais indispensáveis a cadeias industriais sensíveis.
Ítrio dispara de preço e fabricantes começam a racionar material
Um dos pontos mais críticos é o ítrio, usado em revestimentos que evitam que componentes de motores e turbinas “derretam” sob altas temperaturas. A reportagem destaca que, sem a aplicação regular desses revestimentos, os motores não podem ser utilizados, o que transforma o insumo em fator de risco operacional.
Desde que a Reuters tratou do assunto em novembro, os preços do ítrio subiram 60% e atingiram um patamar dezenas de vezes superior ao de um ano atrás. Executivos e traders ouvidos pela agência afirmaram que fabricantes de revestimentos passaram a racionar o material, diante da dificuldade de reposição.
Dois executivos de empresas norte-americanas que compram ítrio para produzir revestimentos disseram à Reuters que precisaram pausar temporariamente a produção por falta do insumo. Uma delas, segundo o relato, passou a recusar clientes menores e estrangeiros para preservar volumes destinados a compradores maiores, incluindo fabricantes ligados a motores aeronáuticos.
A Reuters também descreve um caso adicional: uma empresa da cadeia de fornecimento teria ficado sem material e interrompido a venda de produtos que contêm óxido de ítrio, segundo uma fonte com conhecimento direto. O quadro sugere que a escassez já se traduz em decisões concretas no chão de fábrica, mesmo antes de afetar diretamente a montagem de motores ou a produção de chips.
Exportações despencam após controles e não voltam ao patamar anterior
Um dado central da reportagem é a queda brusca nas exportações chinesas de produtos de ítrio para os EUA após a introdução dos controles. Segundo a Reuters, a China exportou 17 toneladas para os EUA nos oito meses depois das medidas, ante 333 toneladas nos oito meses anteriores.
A cifra reforça o diagnóstico de vulnerabilidade industrial: quando um insumo de nicho é quase totalmente produzido em um único país, qualquer restrição — ainda que seletiva — pode provocar choque de oferta, disparada de preços e racionamento em cascata.
Um funcionário da Casa Branca afirmou à Reuters que o governo Trump está comprometido em garantir acesso a minerais críticos para empresas americanas. Segundo ele, isso inclui negociar com a China, monitorar o cumprimento do acordo entre Trump e Xi e desenvolver cadeias alternativas quando necessário.
Aviação sob pressão e o “músculo” das terras raras
Embora a Reuters afirme que a falta de ítrio ainda não tenha reduzido a produção de motores, a preocupação cresce em um setor já pressionado por gargalos de peças e manutenção. O especialista Kevin Michaels, da consultoria AeroDynamic Advisory, descreveu a situação como um alerta concreto do poder de barganha chinês.
“Este é um ponto de atenção e um exemplo tangível de como a China está exercendo seu poder no mercado de terras raras”, disse Michaels à Reuters, apontando que o episódio exemplifica como minerais críticos podem ser usados como instrumento de pressão.
Fabricantes citados na reportagem — como GE Aerospace, Pratt & Whitney (da RTX) e Honeywell — não detalharam efeitos e, em alguns casos, preferiram não comentar, segundo a Reuters. Ainda assim, o fato de fornecedores terem pausado produção e começado a recusar pedidos indica que a cadeia opera com margem reduzida para absorver novos choques.
Escândio ameaça chips 5G e expõe dependência total
Além do ítrio, a escassez de escândio passou a preocupar diretamente a indústria de semicondutores. Dylan Patel, fundador e CEO da SemiAnalysis, afirmou à Reuters que empresas americanas estão ficando com níveis baixos do material, o que coloca em risco a produção de chips 5G de próxima geração.
A Reuters ressalta que a produção global é de apenas dezenas de toneladas por ano, e que o escândio entra em componentes usados em larga escala no ecossistema 5G. Patel afirmou que peças feitas com escândio “estão presentes essencialmente em todos os smartphones 5G e estações-base”.
Segundo a reportagem, fabricantes enfrentaram atrasos na obtenção de novas licenças de exportação e procuraram Washington para pedir ajuda. Um funcionário americano ouvido pela Reuters disse que parte das empresas vinha obtendo escândio via fornecedores de terceiros países, mas a China exige que solicitantes declarem os usuários finais.
A percepção dentro do governo americano, relatada pela Reuters, é de que pode haver direcionamento do aperto. “Nossa tese é que é precisamente a indústria de semicondutores que está sendo alvo”, disse um funcionário à agência.
O impasse antes da cúpula em Pequim
A crise do ítrio e do escândio reforça que a disputa tecnológica entre EUA e China é também uma disputa por matérias-primas. Mesmo com sinais de distensão comercial, o abastecimento não se normalizou e a indústria já sente efeitos em preços, prazos e decisões de racionamento.
Com Trump e Xi prestes a se encontrar em março, o tema tende a ganhar peso político. Para Washington, a escassez expõe um ponto fraco: minerais de nicho, difíceis de substituir e sem produção doméstica imediata. Para Pequim, o controle sobre esses fluxos funciona como alavanca em negociações que envolvem tecnologia, defesa e liderança industrial.


