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Julimar Roberto

Comerciário e presidente da Contracs-CUT

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Quem te viu e quem te vê

Lula entrou pela porta da frente da Casa Branca

Donald Trump e Lula (Foto: Ricardo Stuckert / PR)

“Quem viver verá”. Pois não é que o presidente Luiz Inácio Lula da Silva foi recebido por Donald Trump na Casa Branca, com tapete vermelho, reunião bilateral, almoço oficial e uma agenda de Estado envolvendo comércio, tarifas, segurança, minerais críticos e soberania nacional. 

Quem te viu e quem te vê.

Há menos de um ano, a extrema direita brasileira apostava todas as fichas na velha política do “quanto pior, melhor”. Enquanto o Brasil tentava reconstruir relações diplomáticas e estabilidade institucional, o ex-deputado Eduardo Bolsonaro (lembra dele?) fazia, nos Estados Unidos, uma espécie de cruzada internacional contra o próprio país. Atuava para pressionar autoridades brasileiras, atacar o Supremo Tribunal Federal e transformar interesses familiares em pauta diplomática.

Em nome de quê? Da pátria? Da bandeira? Da soberania nacional?

Não. Em nome da família Bolsonaro.

O resultado dessa aventura irresponsável veio em forma de ameaça tarifária, tensão diplomática e risco concreto para trabalhadoras e trabalhadores, produtores, exportadores e setores inteiros da economia brasileira. 

A extrema direita tentou transformar a relação entre Brasil e Estados Unidos em instrumento de chantagem política. Tentou usar Washington como puxadinho do bolsonarismo. Tentou convencer o mundo de que defender a democracia brasileira era perseguição e de que responsabilizar golpistas era abuso institucional.

Só que Lula, nessa quinta-feira (7), entrou pela porta da frente da Casa Branca. E entrou como presidente do Brasil. Não como fã. Não como subalterno. Não como imitador tupiniquim de projeto estrangeiro.

Entrou de cabeça erguida, recebido com honras, para defender os interesses do país, negociar tarifas, discutir comércio, proteger setores estratégicos e reafirmar a soberania brasileira diante da maior potência econômica do planeta.

Depois do encontro, Lula afirmou que Brasil e Estados Unidos deram “um passo importante” na reconstrução da relação entre os dois países, defendendo cooperação internacional sem abrir mão da soberania nacional.

Trump, por sua vez, classificou a reunião como “muito boa”, elogiou Lula como “muito dinâmico” e confirmou novas rodadas de negociação entre representantes dos dois países.

Nada como um dia depois do outro. Após tanto esperneio, tanta intriga internacional, tanto “socorro, Trump” e tanta torcida contra o próprio país, quem foi recebido com pompa institucional foi justamente Lula.

É claro que Jair Bolsonaro também foi recebido na Casa Branca quando era presidente. Em 2019, o presidiário golpista encontrou-se com Trump no Salão Oval e participou de uma coletiva nos jardins da residência oficial. Mas ali o roteiro era outro.

Bolsonaro se apresentava como admirador político de Trump. Reproduzia discursos da guerra cultural norte-americana, atacava o chamado “politicamente correto”, fazia acenos ideológicos permanentes e se colocava muito mais como subalterno do que como líder de uma nação soberana. Um verdadeiro “baba-ovo”.

E a diferença dos dois encontros dói profundamente na alma do bolsonarismo.

Porque uma coisa é posar para fotografia tentando parecer importante diante do ídolo estrangeiro. Outra, completamente diferente, é representar uma nação independente e forte, eleito democraticamente, com capacidade de negociar, dialogar, resistir e defender os interesses de seu povo.

Não quero aqui dizer que Trump e Lula se tornaram amiguinhos. Relações internacionais não funcionam à base de amizade, simpatia ou afinidade ideológica. Relações internacionais funcionam por meio do respeito à soberania alheia, do interesse estratégico e da articulação. Coisas que Bolsonaro nunca soube nem o significado.

E é justamente por isso que o encontro de Lula e Trump teve tanto peso. Para mostrar que chantagem não é política de Estado e vira-latismo não alicerça relações estratégicas.

Deu para sentir a diferença?

A extrema direita passou meses pedindo sanções contra o próprio país. Lula foi discutir a retirada de barreiras e a reconstrução de pontes.

Enquanto a direita foi pedir punição, Lula foi defender o Brasil.

* Este é um artigo de opinião, de responsabilidade do autor, e não reflete a opinião do Brasil 247.

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