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Paulo Henrique Arantes

Jornalista há quase quatro décadas, é autor do livro "Retratos da Destruição: Flashes dos Anos em que Jair Bolsonaro Tentou Acabar com o Brasil". Editor da newsletter "Noticiário Comentado" (paulohenriquearantes.substack.com)

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Ricardo Magro criou o imposto quântico

O tributo, misteriosamente, entra em estado gasoso antes de chegar aos cofres públicos

Ricardo Magro (Foto: Michelle Cadari/Divulgação)
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Sempre que a Polícia Federal abre uma operação envolvendo refinarias, distribuidoras, empresas “estrategicamente” quebradas, holdings exóticas e cifras bilionárias, já se sabe mais ou menos o roteiro: desaparecem impostos, aparecem offshores, evaporam-se patrimônios e, por coincidência cósmica, políticos influentes orbitam o cenário. É o caso do empresário Ricardo Magro e do ex-governador do Rio de Janeiro Cláudio Castro.

Segundo o que foi noticiado até agora, o grupo empresarial ligado a Magro teria desenvolvido uma espécie de inovação tecnológica: o imposto quântico sobre combustível. O combustível é vendido normalmente, o consumidor paga o imposto normalmente, o dinheiro circula normalmente — mas o tributo, misteriosamente, entra em estado gasoso antes de chegar aos cofres públicos. Trata-se de um gigantesco esquema de sonegação: empresas faturam bilhões enquanto o Fisco tentaria descobrir, inutilmente, quem deve, onde está o dinheiro e qual companhia ainda existe além da placa enferrujada num escritório vazio na Barra da Tijuca ou na Faria Lima.

Nada a ver com a vetusta figura do comerciante que “esqueceu” uma nota fiscal. Está-se diante de algo um tanto mais ambicioso, operado por um verdadeiro congresso de tributaristas criativos. Empresas surgem. Empresas desaparecem. Patrimônios evaporam. Recursos viajam. Holdings aparecem em cascata. O dinheiro faz turismo internacional e o Estado corre atrás do próprio rabo.

Naturalmente, o enredo não estaria completo sem a presença do poder político. É aí que entra Cláudio Castro. Segundo a Polícia Federal, há prováveis favorecimentos estatais, por influência dele, ao grupo empresarial de Magro. Incentivos fiscais, decisões administrativas providenciais e relações políticas suspeitas integram o cardápio da operação, num exemplo perfeito de que a fronteira entre interesse público e lobby privado é tênue, ou inexistente.

A dinâmica é conhecida: empresários afirmam defender “segurança jurídica”; políticos defendem “desenvolvimento econômico”; o Estado concede benefícios; depois descobre-se que o desenvolvimento mais vigoroso alcançou exclusivamente o patrimônio dos envolvidos endinheirados. Paralelamente, o contribuinte comum continua vivendo na dimensão paralela em que recebe cobrança automática quando atrasa o recolhimento do MEI.

Os grandes alquimistas fiscais operam em outra atmosfera regulatória, quase metafísica. Seus patrimônios tornam-se fluidos. Suas estruturas societárias adquirem propriedades cubistas. Seus passivos desaparecem com elegância coreográfica. A palavra “lavagem”, aliás, tornou-se insuficiente - não se trata mais de lavar dinheiro: certos esquemas parecem submeter recursos financeiros a um verdadeiro tratamento estético completo, com peeling, harmonização facial, transplante capilar e cidadania internacional.

Em síntese, prevalece uma velha máxima capitalista: privatizam-se os lucros, socializam-se os rombos e terceiriza-se a conta para a população que abastece o carro pagando imposto até pela na fumaça do escapamento.

* Este é um artigo de opinião, de responsabilidade do autor, e não reflete a opinião do Brasil 247.

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