Vem aí a cinebiografia de Bolsonaro, uma mistura de Os Três Patetas com A Hora do Pesadelo
Se fiel à vida do capitão e seu entorno, o filme constituirá uma mistura de Os Três Patetas com A Hora do Pesadelo, com toques da linguagem de Joseph Goebbels
Suponha-se que parte do dinheiro dado por Daniel Vorcaro para produção da cinebiografia Dark Horse tenha de fato servido para sustentar Eduardo Bolsonaro nos Estados Unidos. Será mais um sintoma da mendicância natural de uma família cujo patriarca pede doações a populares para manter seus altos padrões, um dos filhos compra mansão com dinheiro vivo e assessores cuidam de embolsar joias presenteadas à Presidência da República. E, claro, atestará a intimidade da família com a maior máfia financeira já desmantelada na História do Brasil.
Nestas linhas, contudo, priorizaremos os aspectos artístico-culturais que rodeiam o referido clã. Se fiel à vida do capitão e seu entorno, o filme constituirá uma mistura de Os Três Patetas com A Hora do Pesadelo, com toques da linguagem com que Joseph Goebbels buscava adular Adolf Hitler nas fitas nazistas. Apesar de se anunciar como uma “obra de fé”, não será digna de um Carl Dreyer.
O que esperar de um filme dirigido por Cyrus Nowrasteh, produzido e roteirizado por Mário Frias e protagonizado por Jim Caviezel? O currículo de cada um deles é o melhor indicativo. Imagina-se a gororoba ideológica em que será transformado o orçamento de R$ 134 milhões.
Cyrus Nowrasteh é americano de origem iraniana, paradoxalmente. Sua obra comtempla as temáticas religiosa, épica e bíblica. Talvez por isso sinta enorme prazer em biografar o Messias brasileiro do reacionarismo e da idiotice. Ele dirigiu a xaropada religiosa The Young Messiah e roteirizou The Bible. Disse que Dark Horse será “um thriller político envolvendo poder, mídia e fé”.
O “astro” Jim Caviezel é, antes de tudo, um prócer do movimento direitista global, naturalmente um trumpista empedernido. Não é mau ator, tampouco um grande artista. Mandou bem em “Além da Linha Vermelha”, do craque Terrence Malick, e no grosseiro “A Paixão de Cristo”, do antissemita Mel Gibson. Nada além disso fez que merecesse atenção - seus melhores papéis são nos fóruns fascisto-religiosos. Sound of Freedom, que conta com sua mais recente participação cinematográfica, trata de tráfico de crianças mediante aqueles surtos de alucinação conspiratória que instigam a extrema-direita. Agradou religiosos conservadores.
Caviezel integra o tal do “universo QAnon”, movimento conspiratório surgido nos Estados Unidos que apregoa elites financeiras e artísticas como redes criminosas secretas, ambas combatidas por Donald Trump. Um ator perfeito para interpretar Jair Bolsonaro, enfim. Em 2021, Caviezel participou de um congresso conservador em Las Vegas (“Health and Freedom Conference”), ligado ao ativista Michael Flynn, ex-assessor de Trump. Durante o evento, sugeriu que crianças seriam sequestradas por elites para extração de substâncias químicas, sabe-se lá quais. O maluco costuma defender “uma união espiritual contra forças malignas”.
Já o produtor-executivo e roteirista de Dark Horse destaca-se pela absoluta falta de pendor artístico e cultural. Coadjuvante apagado do seriado infanto-juvenil Malhação, criação global dedicada a adolescentes fúteis, Mário Frias não apenas colabora com ela, mas costuma exaltar a família Bolsonaro em tom hagiográfico. É um adulador contumaz. Ex- secretário nacional de Cultura, fez o que pôde para impedir as produções artísticas brasileiras, em nome de um intragável conservadorismo moral. Fez declarações agressivas, brigou com colegas. Deputado federal pelo PL, é figura execrada em qualquer círculo cultural não-bolsonarista.
A trinca Nowrasteh-Caviezel-Frias é garantia de que Dark Horse não será menos do que um show de falso-moralismo calcado nas mentiras que os bolsonaristas contam todos os dias. Só faltou Regina Duarte no elenco, a eterna namoradinha do Brasil reacionário.
* Este é um artigo de opinião, de responsabilidade do autor, e não reflete a opinião do Brasil 247.




