Vítima da mídia assassina de reputações, Gushiken enxergou um futuro para o trabalhador
Luiz Gushiken sofreu linchamento moral orquestrado pela grande mídia
Há um preconceito persistente em parte da esquerda brasileira contra o sistema fechado de previdência complementar, que congrega os fundos de pensão. Certos grupos, sindicatos e instituições de classe – não todos – enxergam nessa modalidade previdenciária um instrumento que segue a lógica financeira e se opõe, portanto, ao caráter estritamente social da previdência. Trata-se de uma visão equivocada.
O principal nome da esquerda brasileira a vislumbrar o potencial social dos fundos de pensão foi o petista Luiz Gushiken, que faria 76 anos em 8 de maio último. Ele entendeu tratar-se de um modelo muito diferente daquele operado por bancos e seguradoras. Constatou, antes de tudo, seu papel não substitutivo, mas de complementaridade, opcional ao trabalhador, em relação à Previdência Social.
A pujança do sistema fechado de previdência complementar brasileiro, hoje, deve muito a Luiz Gushiken. Confira-se: segundo dados do Ministério da Previdência e da Abrapp (Associação Brasileira das Entidades Fechadas de Previdência Complementar) os fundos de pensão administram atualmente cerca de R$ 1,4 trilhão em ativos. Isso corresponde a aproximadamente 11% do PIB brasileiro. É dinheiro do trabalhador, pois as chamadas EFPCs não têm fins lucrativos. Absolutamente reguladas pela legislação, são fiscalizadas pela autarquia Previc (Superintendência Nacional da Previdência Complementar) e organizadas para acumulação previdenciária de longo prazo.
As gigantes de origem estatal como Previ, dos funcionários do Banco do Brasil, Petros, da Petrobras, e a Funcef, da Caixa Econômica Federal somam-se fundos instituídos por sindicatos, associações de classe, cooperativas e entidades setoriais, com milhões de participantes ativos e assistidos. Em 2025, os fundos de pensão fecharam o ano com superávit consolidado de cerca de R$ 17 bilhões. Entre 2016 e meados de 2025, a rentabilidade acumulada média das EFPCs foi de aproximadamente 171,5%, contra cerca de 128,7% da previdência privada aberta.
Equivocadamente, a mídia costuma apontar “rombos” catastróficos em entidades do setor, esquecendo de avisar ao leitor que déficits conjunturais são inevitáveis em investimentos de longo prazo, e que a questão nada tem a ver com insolvência.
“Se o sistema fechado de previdência complementar chegou onde está hoje, com uma regulação que é padrão internacional, isso se deve muito a Luiz Gushiken. Um exemplo de seu empenho, junto com muitas outras iniciativas, deu-se no primeiro governo do presidente Lula. Se olharmos o programa de governo, está ali inserida a defesa da previdência complementar como instrumento de proteção social e de desenvolvimento econômico – produto do trabalho de Gushiken na elaboração do programa”, relata o atual presidente da Abrapp, Devanir Silva, que à época era diretor-superintendente da associação que congrega os fundos de pensão.
Ex-presidente da Abrapp, o advogado Luís Ricardo Marcondes Martins afirma que Luiz Gushiken “foi um dos grandes formadores de opinião e defensores da previdência complementar enquanto instrumento de proteção social. Atuou muito na modernização do segmento, com as Leis 108 e 109”. As Leis Complementares 108 e 109, ambas de 2001, constituem o marco moderno da previdência complementar brasileira. Elas reorganizaram o sistema de fundos de pensão após a Constituição de 1988.
A trajetória política de Luiz Gushiken começou no sindicalismo bancário no fim dos anos 1970. Como dirigente do Sindicato dos Bancários de São Paulo, demonstrou inédita capacidade de construir estratégias. Foi um dos fundadores do PT e integrou Diretório Nacional do partido de 1988 a 1999. Foi deputado federal por três mandatos (1987 a 1999), coordenador das campanhas presidenciais de Lula em 1989, 1998 e 2002. No primeiro governo Lula, foi ministro-chefe da Secretaria de Comunicação de Governo, quando lançou a campanha "O melhor do Brasil é o brasileiro", peça marcante em prol da autoestima dos brasileiros.
Muito cedo, Gushiken aprendeu a lutar contra o câncer, que o derrotaria aos 63 anos, em 2013. Uma injustiça do destino, certamente. Outra injustiça, contudo, ser-lhe-ia também atormentadora, esta não promovida pelo destino, mas pela sanha assassina de reputações que se instalou no Brasil a partir do “escândalo do Mensalão”. Em 2005, ele foi acusado de envolvimento em contratos de publicidade entre o Banco do Brasil e a agência do famigerado Marcos Valério. Sofreu linchamento moral orquestrado pela grande mídia, que não se cansou de chama-lo de “condenado” sem qualquer sentença proferida. Em outubro de 2012, Gushiken foi absolvido por unanimidade pelo Supremo Tribunal Federal. A imprensa vil que o condenara não se desculpou.
* Este é um artigo de opinião, de responsabilidade do autor, e não reflete a opinião do Brasil 247.




