Roberto Campos Neto deixou o BC, mas o caso Banco Master não
"A pergunta que fica é inevitável: haverá algum tipo de responsabilização para o trio BTG Pactual, XP e Nubank?"
No dia primeiro de julho do ano passado, o ex-presidente do Banco Central, Roberto Campos Neto, assumiu o cargo de vice chairman e chefe global de políticas públicas do Nubank. Informação que boa parte da mídia corporativa tem passado ao largo. Preferem escandalizar o noticiário com o valor dos contratos dos escritórios de advocacia da família Lewandowski e Moraes que prestaram consultorias para o Master.
Nem vou questionar o quanto Campos Neto está recebendo do Nubank após deixar o BC, mas sobre as operações que a financeira realizou através de CDBs do Master. Vamos ao ponto.
Nos últimos anos, Nubank, XP e BTG Pactual atuaram, na prática, como grandes agências de distribuição dos títulos emitidos pelo Banco Master, especialmente seus CDBs. A atuação foi marcada por uma postura agressiva de venda, ancorada em rendimentos que destoavam completamente dos padrões do mercado.
Enquanto o sistema financeiro remunerava CDBs com taxas entre 10% e 12% acima do valor de face, o Banco Master chegou a oferecer retornos de até 40%, um patamar evidentemente insustentável. Não se tratava de ousadia financeira, mas de um sinal claro de desequilíbrio grave. Nenhuma instituição minimamente responsável poderia ignorar o risco embutido nessas ofertas.
BTG Pactual, XP e Nubank, todos players sofisticados do sistema financeiro, sabiam que algo estava errado. Ainda assim, optaram por seguir adiante, atuando como intermediários na venda desses títulos. E pior, sem que o investidor fosse informado que sua aplicação estava sendo feita em CDBs do Master. O modelo era simples e altamente lucrativo: vender CDBs do Banco Master até o limite de R$ 250 mil por CPF, valor integralmente coberto pelo Fundo Garantidor de Créditos (FGC), e embolsar comissões de cerca de 4%, sem assumir risco algum.
O risco, vale destacar, foi integralmente transferido ao sistema. O FGC, controlado pelo Banco Central e financiado pelos grandes bancos do país, como Itaú, Bradesco, Santander e Banco do Brasil, tornou-se o colchão que permitiu essa operação. Ou seja, os ganhos foram privatizados, enquanto o prejuízo foi socializado.
O resultado desse arranjo é escandaloso: estima-se que algo em torno de R$ 60 bilhões em títulos problemáticos do Banco Master tenham sido despejados no mercado por meio dessas três instituições. Apenas em comissões, isso representa cerca de R$ 2,4 bilhões líquidos, ganhos exclusivamente pela colocação de papéis que hoje se revelam podres.
A moral da história é cristalina. Nubank, XP e BTG Pactual exploraram conscientemente uma brecha regulatória, transformando o FGC em um seguro implícito para operações de alto risco, enquanto enchiam seus cofres com comissões milionárias.
A pergunta que fica é inevitável: haverá algum tipo de responsabilização para o trio BTG Pactual, XP e Nubank? Ou, mais uma vez, o sistema confirmará que, no mercado financeiro brasileiro, os "espertos" sempre acabam se dando bem? Também precisa ser esclarecido se Roberto Campos Neto, hoje vice-presidente do Nubank, tinha conhecimento da real situação do Banco Master antes de deixar o comando do Banco Central e assumir um cargo tão relevante no mercado financeiro.
Essas dúvidas só poderão ser respondidas na investigação interna aberta no Banco Central, que irá apurar falhas na condução do caso Banco Master. O foco vai recair sobre a gestão de Campos Neto, desde a autorização do BC para a cessão do controle do Banco Máxima ao Master até os alertas de falta de liquidez já identificados pelos técnicos da própria autarquia em 2024.
Nesse contexto, o leitor certamente compreenderá melhor por que Fabiano Campos Zettel, cunhado de Daniel Vorcaro, destinou cerca de cinco milhões de reais às campanhas eleitorais de Jair Bolsonaro e Tarcísio de Freitas. Ou ainda a compra, por uma empresa ligada a Vorcaro, de 90% de um projeto de energia eólica pertencente a Fábio Faria, ex-ministro das Comunicações do governo Bolsonaro. Como parte do pagamento, Faria recebeu um apartamento avaliado em R$ 50 milhões, imóvel que foi revendido poucos meses depois por R$ 54 milhões.
No Brasil, como se sabe, as conexões entre poder político, sistema financeiro e indulgência regulatória raramente são fruto do acaso.
* Este é um artigo de opinião, de responsabilidade do autor, e não reflete a opinião do Brasil 247.



