Saco de gatos peruano – esquerda e direita rachadas – ameaça à democracia
Fragmentação partidária, disputa polarizada e influência externa marcam eleição decisiva no Peru
Neste domingo (12), cerca de 35 partidos ou grupos partidários vão às urnas no Peru para escolher novo presidente, representantes parlamentares, em versão bicameral, na qual o Senado dispõe de poder excepcional, relativamente à Câmara dos Deputados, e o Parlamento Andino.
A última pesquisa abaixo mostra a extrema fragmentação partidária, que denota a falta de identidade real com a população, num caleidoscópio surreal.
Nenhum dos candidatos consegue maioria suficiente para vencer no primeiro turno, o que leva a disputa para um segundo turno, que testará, principalmente, a capacidade das forças progressistas em uma tentativa de unidade para vencer a direita e a ultradireita, assediadas pelo trumpismo norte-americano.
O presidente Donald Trump busca, no Peru, como já consegue na Argentina, Bolívia, Equador, El Salvador e Paraguai, formar frente política fascista para evitar o avanço das relações peruanas com a China, na ligação Xangai-Chancay, pelo Pacífico, capaz de transformar a economia peruana na mais dinâmica da América do Sul nos próximos anos.
Eis por que o avanço chinês no Peru preocupa Washington e seduz todos os países sul-americanos à construção obrigatória de infraestrutura de transportes, principalmente para chegar ao porto peruano; dali, estabelecerão nova relação econômica com a China, dando impulso desenvolvimentista que marcará destacadamente a América do Sul no cenário global.
AVANÇO ECONÔMICO X SUBDESENVOLVIMENTO POLÍTICO
Evidencia tal quadro, como concordam analistas peruanos, à esquerda, à direita e ao centro, a ausência de vínculo consistente dos partidos em termos territoriais, o que, surpreendentemente, representa um paradoxo com a situação econômica do país, diante dos seus 25 milhões de eleitores que irão às urnas neste domingo.
Economicamente, o Peru se apresenta relativamente estável; em quase uma década em que os peruanos conviveram com oito presidentes, o PIB cresce a uma média de 5% ao ano; em termos latino-americanos, é um sucesso, porque a população, ganhando um salário mínimo e meio maior que o do Brasil – o mais baixo da América –, convive com estabilidade econômica, embora, politicamente, a situação se mostre intensamente volátil.
Nesse contexto, os partidos políticos descolaram da realidade para conviver entre si, de forma conflitiva, do ponto de vista institucional, dando a impressão de uma anarquia geral que, agora, desemboca numa eleição cuja característica é a intensa fragmentação partidária.
Em tal cenário – conforme destaca o analista político José Antônio Prates, três vezes prefeito de Salinas (MG), observador internacional da Associação Nacional dos Prefeitos para a eleição no Peru, onde viveu asilado no Governo Nacionalista de Alvarado e, atualmente, conselheiro político de partidos progressistas peruanos na formação do bloco popular –, as demandas e angústias da população reclamam três prioridades fundamentais:
1 – Estabilidade democrática;
2 – Combate à criminalidade, que contaminou a representação política e desorganiza e agudiza a relação entre os três poderes;
3 – Política de rendas, para equilibrar o confronto entre a acumulação de riqueza, de um lado, e a pobreza crescente, de outro, que potencializa a instabilidade social.
Para José Prates, se unidas no segundo turno, em 7 de junho, as correntes progressistas, entre as quais se destacam Ricardo Belmont (10,3%), Rafael López Aliaga (8,4%), Roberto Sánchez (4%) e Marisol Pérez (3,8%), podem surpreender a extrema direita e a direita puxada por Keiko Fujimori (15,6%), Carlos Álvarez (10,6%) e Jorge Nieto (5,4%), apoiados por Trump.
Sobretudo, a união de um bloco popular tem condições de influir, como vanguarda, na defesa das três principais reivindicações populares e nos indecisos, que alcançam 40%, na reta final da disputa eleitoral.
A eleição, segundo Williann J. Moreno, secretário executivo da FEMULP, não visa apenas escolher novo presidente, mas construir um Peru diferente: predomínio municipalista, descentralização política, participação popular, organização do orçamento público pela maioria da população e não pelas oligarquias que destinam os recursos orçamentários, preferencialmente, para seus interesses de classe dominante.
Para alcançar esse objetivo, será fundamental, no segundo turno, vencer Keiko Fujimori, que prega uma pauta nazifascista, com ataque aos emigrantes e rompimento das relações do Peru com a China, como ocorre, no Brasil, comparativamente, com o bolsonarismo pró-Washington, conduzido pelo senador Flávio Bolsonaro.
* Este é um artigo de opinião, de responsabilidade do autor, e não reflete a opinião do Brasil 247.



