Vigiar quem nos vigia
Desde o pós-Segunda Guerra Mundial, a CIA opera como um dos principais braços da estratégia global dos Estados Unidos
*Com Lucas Cedro
A operação militar conduzida pelos Estados Unidos na Venezuela reafirmou as intenções sanguinolentas do país, evidenciando, mais uma vez, as cruéis táticas de dominação que se consolidaram e seguem se inscrevendo de maneira contínua no curso da história, moldando as diretrizes de sua atuação política no plano internacional. A ação dos Estados Unidos no mês de janeiro foi mais um capítulo de uma longa história de intervenções, sabotagens e ações clandestinas articuladas pela Casa Branca em associação direta com a Agência Central de Inteligência (CIA).
A megalomania estrategicamente alucinada presente nas intervenções de Donald Trump não configurou um desfecho definitivo, mas estabeleceu o tom que passaria a orientar suas investidas subsequentes. Sem qualquer pudor, os Estados Unidos deram continuidade a uma nova etapa de sua agenda imperial, marcada por traços abertamente autoritários, inclusive internamente não respeita nem o Parlamento e nem a Corte Suprema de seu próprio país.
Em 28 de fevereiro deste ano, teve início uma das mais amplas ofensivas já realizadas em território iraniano, marcada por intensos bombardeios e por uma escalada militar de grandes proporções, que resultou na morte do líder supremo do Irã, Ali Khamenei, e aprofundou o ciclo de instabilidade na região.
A PRECISÃO DOS ASSASSINATOS EVIDENCIA O PAPEL DA CIA E DE TRAIDORES SUBORNADOS PELA AGÊNCIA.
Donald Trump é o responsável político direto pelos homicídios decorrentes dessas ações e, sob qualquer critério minimamente civilizatório, deveria responder perante tribunais internacionais por crimes de agressão e violação da soberania.
Essas decisões se materializam ancoradas a um aparato permanente de “inteligência”, planejamento e desestabilização, cuja função histórica é viabilizar, nos bastidores, os objetivos estratégicos do imperialismo norte-americano. As atividades ilegais da Agência Central de Inteligência não apenas acompanharam esses processos, mas ajudaram a escrever as decisivas tramas da própria história contemporânea, estando presentes em golpes de Estado, operações de sabotagem, terrorismo, tortura, assassinatos e campanhas de desorganização política.
No Chile, por exemplo, a ação da Agência antecedeu o golpe de 1973, incluindo o envio de telegramas solicitando armamentos para o assassinato do comandante-em-chefe René Schneider, além da difusão de métodos repressivos que se tornariam prática institucional da ditadura. Em 11 de setembro de 1973, o golpe liderado por Augusto Pinochet contou com respaldo político dos Estados Unidos, conforme revelado em gravações de Henry Kissinger e documentos tornados públicos anos depois.
Esse lado obscurecido da CIA, estruturado na violência, em assassinatos e em técnicas sofisticadas de manipulação psicológica, integra o repertório das intervenções promovidas pelos Estados Unidos. A chamada “lavagem cerebral” manifesta-se por meio da vigilância sobre populações civis, da infiltração e do suborno de forças policiais, da organização de redes de espionagem e da difusão de campanhas de intimidação.
A articulação para o assassinato de Patrice Lumumba, primeiro-ministro do Congo, morto em janeiro de 1961, exemplifica como essas estratégias integram violência física e simbólica, compondo o núcleo operacional dos golpes de Estado financiados e planejados sob a tutela estadunidense.
Documentos tornados públicos pelo governo dos Estados Unidos – em meio a tentativas posteriores de reformular a imagem da CIA em relação às operações conduzidas na África – confirmam sua atuação no financiamento dos adversários políticos de Lumumba e nas estratégias de espionagem, contribuindo sobretudo com o repasse de informações determinantes para sua captura e desempenhando papel central em sua eliminação. Os mesmos registros indicam ainda a elaboração de planos diretos para o assassinato do primeiro-ministro, bem como o respaldo militar às forças responsáveis por conduzir a execução.
A CIA é um instrumento operacional do imperialismo estadunidense, atuando na derrubada de governos, no financiamento de forças paramilitares, na promoção de assassinatos e na disseminação de campanhas de desinformação. Seus agentes, frequentemente travestidos de funcionários diplomáticos, infiltram-se em territórios soberanos para minar estruturas institucionais e enfraquecer lideranças políticas.
Desde o pós-Segunda Guerra Mundial, a CIA opera como um dos principais braços da estratégia global dos Estados Unidos, e a América Latina sempre ocupou lugar focal nesse tabuleiro.
A partir daquele período, a agência passou a atuar de forma direta na desestabilização de governos que contrariavam interesses estratégicos dos Estados Unidos, sobretudo no campo energético, econômico e geopolítico.
A primeira grande intervenção da CIA na América Latina ocorreu na Guatemala, em 1954, contra o governo de Jacobo Árbenz. Eleito democraticamente, Árbenz implementava uma reforma agrária que atingia propriedades da United Fruit Company, empresa estadunidense com forte influência em Washington. A CIA financiou grupos armados, promoveu operações psicológicas por meio de rádios clandestinas e atuou na cooptação de setores do Exército guatemalteco. O golpe resultou na deposição de Árbenz e inaugurou um longo período de instabilidade política e repressão no país.
A atuação da Agência Central de Inteligência no Brasil se intensificou a partir do governo de João Goulart, com financiamento de forças parlamentares oposicionistas, apoio ao Instituto Brasileiro de Ação Democrática e acompanhamento direto da crise que resultou no golpe de 1964.
Em Cuba, a atuação da CIA ganhou destaque após a Revolução de 1959. Em 1961, a Agência organizou a invasão da Baía dos Porcos, treinando e armando cerca de 1.300 exilados cubanos em bases na América Central. A operação fracassou, mas foi seguida por anos de sabotagens econômicas, tentativas de assassinato de Fidel Castro e operações clandestinas destinadas a enfraquecer o governo cubano.
Na década de 1960, a CIA também operou no Equador, Peru e Bolívia, infiltrando agentes em governos, partidos e sindicatos. No Equador, entre 1960 e 1963, a agência financiou ações de desestabilização contra o governo de José María Velasco Ibarra, apoiando posteriormente o regime militar que o sucedeu. Na Bolívia, em 1964, documentos confirmam o apoio financeiro e logístico ao golpe que levou René Barrientos ao poder, com respaldo direto da inteligência estadunidense.
A estratégia imperialista não se restringiu às terras contrastantes do chamado “Novo Mundo”, expandindo-se também pelos trópicos e por regiões centrais do Oriente Médio.
Em 1953, um ano antes da intervenção na Guatemala, a CIA organizou a Operação Ajax, destinada à derrubada do primeiro-ministro iraniano Mohammad Mossadegh, eleito democraticamente e responsável pela nacionalização da indústria petrolífera até então controlada por interesses britânicos.
A operação foi articulada em conjunto com o serviço secreto do Reino Unido e envolveu o financiamento de manifestações, o suborno de oficiais militares e pressão direta sobre o Xá Mohammad Reza Pahlavi, que reassumiu o poder após o golpe. Documentos posteriormente desclassificados confirmam a coordenação direta da Agência tanto na execução da operação quanto na reconfiguração do controle do petróleo iraniano.
Nunca se tratou de defesa da democracia, mas de controle político e garantia de interesses econômicos.
Mais recentemente, a atuação passou a incluir vigilância eletrônica e terceirização de operações. No Brasil, documentos vazados por Edward Snowden revelaram que a NSA espionou a presidenta Dilma Rousseff, ministros de Estado e a Petrobrás, com foco em informações estratégicas ligadas ao petróleo do pré-sal. Paralelamente, investigações na Espanha mostraram que a CIA utilizou a empresa UC Global para espionar Julian Assange e o ex-presidente equatoriano Rafael Correa, além de monitorar encontros com lideranças como Lula, Dilma Rousseff, Cristina Kirchner e José Mujica.
Diante desse histórico, as forças políticas brasileiras precisam ser capazes de construir um pacto mínimo em defesa da soberania nacional.
Isso impõe, de forma incontornável, a necessidade de vigilância ativa sobre a atuação da CIA em território nacional.
Mapear seus agentes, monitorar seus movimentos, restringir sua capacidade de operação política e institucional é colocar em prática a defesa do Estado e do povo brasileiro.
Tal ação é condição elementar para a preservação da autonomia do país, da soberania popular, da democracia e do futuro nacional.
Quem vigia precisa ser vigiado.
A pergunta que permanece é: até onde o Império está disposto a ir quando a submissão não se completa? A escalada da violência, a eliminação de quadros políticos e a repressão prolongada deixam de ser hipóteses abstratas e passam a integrar o horizonte concreto da dominação.
Esse cenário se articula a uma transformação mais profunda do sistema internacional, marcada pela ofensiva reacionária do Norte Global. A Europa, historicamente berço da colonização, do capitalismo e do imperialismo – do fascismo e do nazismo – atravessa uma década de avanço do campo reacionário. França e Alemanha ampliam investimentos na indústria bélica, naturalizam o discurso da guerra e abandonam qualquer pretensão progressista.
Defrontamo-nos com uma civilização em crise, incapaz de oferecer horizonte que não seja pela força e pela pilhagem.
Foi essa mesma ordem que, por séculos, classificou os povos da África, da Ásia e da América Latina como “subdesenvolvidos”, enquanto sugava suas riquezas, explorava sua força de trabalho e sustentava, de forma parasitária, a prosperidade do Norte.
O que hoje se apresenta nos noticiários como sucessão de ruínas e guerras promovidas pelos Estados Unidos constitui a reativação de um produto histórico que o próprio império ajudou a forjar. Essa racionalidade fundada na destruição confirma a continuidade de uma lógica de dominação.
À vista disso, torna-se indispensável que os países historicamente explorados – o chamado Sul Global – rompam com os grilhões da dominação imperial e construam uma unidade política real contra a expansão imperialista e a regressão autoritária, inclusive criando uma agência de contraespionagem.
Os próximos passos do campo popular dependerão da capacidade de transformar essa consciência histórica em ação concreta, articulando povos e Estados que não aceitam mais ocupar o lugar subordinado que lhes foi imposto pela ordem internacional.
É imperativo de sobrevivência política e territorial de todos os povos do Sul a criação de uma rede anti-imperialistas de comunicação e organização de resistência continental.
É inevitável o Brasil construir a sua bomba, como elemento de dissuasão, pois, quanto maior o desejo de paz, mais necessidade de estar preparada para a resistência às investidas imperialistas.
O mundo está em acelerada mudança, para pior, a diplomacia está falindo e a lei da força imperando.
Não acompanhar os passos da CIA no país, é, além de ingenuidade, como amasiar com a inimiga mais perigosa, comparada à arranha negra.
* Este é um artigo de opinião, de responsabilidade do autor, e não reflete a opinião do Brasil 247.



