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Moisés Mendes

Moisés Mendes é jornalista, autor de “Todos querem ser Mujica” (Editora Diadorim). Foi editor especial e colunista de Zero hora, de Porto Alegre.

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Se achassem uma mala endereçada a Flávio Bolsonaro

“Nada mais abala o filho ungido, porque as denúncias contra ele se revelam inconsequentes, sob os pontos de vista moral e criminal”, escreve Moisés Mendes

Senador Flávio Bolsonaro (Foto: Carlos Moura/Agência Senado)

Se numa tarde de domingo, no meio da Avenida Paulista, encontrassem uma mala com o nome de Flávio Bolsonaro, em letras graúdas, como destinatário. Se abrissem a mala e achassem US$ 1 milhão, com um recado de Daniel Vorcaro dirigido a Flávio.

Se a Polícia Federal recolhesse a mala e a grande imprensa passasse a especular sobre as possíveis relações de Vorcaro com Flávio, os jornais dariam a seguinte manchete no dia seguinte: Flávio joga mala de Vorcaro com US$ 1 milhão no colo de Lula.

E a partir daí seriam feitas especulações esdrúxulas sobre a mala que tem o nome de Vorcaro como remetente e tem Flávio como destinatário, mas não seria de Flávio porque acabou caindo no colo de Lula. Porque Flávio pode dizer, como diz a respeito de qualquer suspeita, que não tem relação com a mala, mas que Lula pode ter.

É o que os jornais têm feito com outras malas. No domingo, o Globo deixou em chamada de capa durante boa parte do dia esse título de coluna de Lauro Jardim: “Flávio bate em Lula, ligando-o ao Master; Haddad reage”.

O Globo e Jardim se prestam à tarefa de passar adiante os ataques de Flávio a Lula, mesmo sabendo que 99% dos relacionamentos de Vorcaro são com o pai de Flávio (que recebeu R$ 3 milhões do banqueiro), com os cúmplices de Bolsonaro, o centrão e a direita em geral, a velha e a nova.

Nessa quarta-feira, o mesmo Lauro Jardim expôs durante todo o dia em sua coluna, com chamada no alto da capa do Globo online: “As 'vacinas' jurídicas de Flávio Bolsonaro contra ofensiva do PT no Master”.

A coluna fala das decisões de um juiz favoráveis a Flávio, porque o inocentam preliminarmente de envolvimento com o mafioso. O corpo do filho é fechado, e é isso que o colunismo dos jornalões repete, porque as corporações de mídia ajudam a fechá-lo. Nada mais cola em Flávio, nem sob o ponto de vista criminal, nem moral.

Um relatório paralelo da CPMI do INSS concluiu que, entre 62 pessoas acusadas pelos crimes contra os aposentados, está Flávio Bolsonaro. Alguém pode dizer que não deveria estar, mas não é essa a questão.

O que interessa é que poucos sabem que Flávio foi citado no relatório como participante de organização criminosa. Todas as notícias sobre Flávio, a respeito das rachadinhas, das suas relações com milicianos, da fantástica loja de chocolate e da compra de imóveis com dinheiro vivo viraram paisagens.

Tanto que, apesar de citado no relatório da CPMI, Flávio tentou encurralar Jorge Messias na sabatina no Senado, ao sugerir que ele teria, como advogado-geral da União, sido omisso em relação aos crimes no INSS. E todas as fraudes foram iniciadas no governo do pai dele e ele mesmo foi citado por ter vínculos com os criminosos.

Se, durante o depoimento de Messias no Senado, e enquanto fazia perguntas, Flávio Bolsonaro recebesse no colo a mala com US$ 1 milhão de Daniel Vorcaro, teríamos versões diversas sobre o presente, mas nenhuma que o vinculasse à mala.

Não interessa à metade da população que faz escolhas no voto, e vota sempre contra Lula, se Flávio tem desprezo por valores éticos e morais e se pensa e deverá agir como o pai no poder. Querem que Flávio derrube Lula a qualquer custo.

Flávio tem, como disse o Globo, vacinas contra quase tudo, mesmo que ninguém esteja interessado em saber do que ele foi vacinado. Para insistir no clichê da frase que sempre se repete com novas versões, pode-se dizer: é o fascismo, estúpido.

O fascismo é a única força eleitoral e golpista capaz de enfrentar Lula, desde que ficou provado que nenhuma outra alternativa irá prosperar. É o fascismo que passa ao antilulismo a certeza de que Lula ainda pode ser derrotado.

As outras alternativas somente serão consideradas, como mostram as pesquisas, se o representante legítimo do pai e do bolsonarismo estiver fora do jogo. A direita antiga fechou o corpo do filho ungido, com a ajuda da grande imprensa.

Flávio foi blindado e seu único desconforto é com gente descontente da própria extrema direita. O resto está dominado sob a anestesia da repetição. Ninguém mais se preocupa com crimes que viraram banalidades.

* Este é um artigo de opinião, de responsabilidade do autor, e não reflete a opinião do Brasil 247.

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