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Camila Moreno

Professora, doutoranda em educação e secretária-nacional-adjunta de Comunicação do PT.

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Sem desespero, mas sem ilusão: à luta!

Polarização acirrada impõe mobilização de base, disputa de narrativa e confronto direto entre projetos de país na eleição decisiva

Lula-Flávio Bolsonaro (Foto: Ricardo Stuckert / PR I Jefferson Rudy / Agência Senado)
Desesperar jamais
Aprendemos muito nesses anos
Afinal de contas não tem cabimento
Entregar o jogo no primeiro tempo
Nada de correr da raia
Nada de morrer na praia
Nada! Nada! Nada de esquecer
No balanço de perdas e danos
Já tivemos muitos desenganos
Já tivemos muito que chorar
Mas agora, acho que chegou a hora
De fazer valer o dito popular
(Ivan Lins) 

Ao observar os números da pesquisa Atlas e de outros institutos, torna-se evidente que estamos diante de uma eleição profundamente polarizada, que tende a ser decidida nos detalhes. Não há margem para leituras simplistas: o cenário não autoriza nem o desespero paralisante, nem a falsa sensação de segurança. O que ele exige é lucidez estratégica e capacidade de ação.

Essa não será uma disputa comum. O que está colocado não é apenas a alternância de governos, mas o confronto entre projetos de país. De um lado, um projeto que recolocou o Estado a serviço do desenvolvimento com inclusão, que retomou políticas públicas, reduziu o desemprego, recompôs a renda do trabalho e voltou a investir em educação, infraestrutura e políticas sociais. De outro, um projeto que naturaliza a desigualdade, flerta com o autoritarismo e se sustenta na desinformação, no medo e na corrosão das instituições democráticas. É nesse terreno que a eleição se dará e é nele que ela precisa ser enfrentada.

Diante disso, não há atalhos. Eleições apertadas não se vencem apenas com resultados de governo ou presença institucional. Elas se vencem no território, na capacidade de dialogar diretamente com o povo, de reconstruir vínculos e disputar sentido no cotidiano. A militância nas ruas, o trabalho de base, a escuta ativa e o enfrentamento das narrativas adversárias voltam a ocupar um papel central. Não se trata apenas de comunicar melhor, mas de estar presente onde a vida acontece, onde as pessoas sentem, avaliam e decidem.

Nesse processo, é fundamental recolocar no centro da disputa aquilo que, de fato, impacta a vida concreta da população. A defesa de pautas como o fim da escala 6x1, que impõe jornadas exaustivas e precariza a vida dos trabalhadores, e a tarifa zero no transporte público, que amplia o acesso à cidade e reduz desigualdades, precisa ser feita de forma direta, conectada à experiência cotidiana das pessoas. Ao mesmo tempo, é necessário afirmar com clareza o que já foi reconstruído: políticas como o Pé-de-Meia, que combate a evasão escolar, a valorização do salário mínimo, a queda consistente do desemprego, a retomada de programas habitacionais e o fortalecimento das universidades e institutos federais. São ações que traduzem, em termos concretos, a presença do governo Lula na vida do povo.

Mas nenhuma disputa política se sustenta apenas na apresentação do presente. A memória também é um campo decisivo. É preciso lembrar, com firmeza e responsabilidade, o que significou o período recente da extrema direita bolsonarista no poder. Um governo que se recusou a adquirir vacinas em meio a uma pandemia, que assistiu passivamente ao sofrimento de milhares de brasileiros, que conviveu com a explosão dos preços dos combustíveis e que incentivou uma tentativa de ruptura institucional no 8 de janeiro. Esses fatos não pertencem ao passado distante e representam um projeto político que segue ativo e que busca se reorganizar.

Além de disputar a memória, é preciso disputar o futuro. É necessário reacender a esperança, apresentar ao povo brasileiro uma perspectiva concreta de vida melhor, de dignidade, de oportunidades e de horizonte. Foi isso que já fizemos em outros momentos da nossa história: combinar políticas públicas com sonho, transformação material com expectativa de ascensão, governo com sentido de futuro.

Isso exige ousadia. Exige voltar a falar com o país a partir de um lugar que não se acomoda, que não administra apenas o possível, mas que tensiona os limites, que enfrenta privilégios e que se coloca, com clareza, ao lado de quem precisa de mudança real. É nessa capacidade de ser, ao mesmo tempo, governo e força transformadora, de dialogar com o presente sem abrir mão de projetar um amanhã melhor, que reside a potência de um campo político que, quando esteve conectado com o povo e com seus sonhos, foi capaz de mudar profundamente o destino do Brasil.

O momento exige, portanto, uma postura que combine serenidade, firmeza e giro ao território. Não há espaço para o desespero, porque há conquistas reais, base social e capacidade de mobilização. Mas também não há espaço para ilusões: a extrema direita segue organizada, articulada nacional e internacionalmente, operando com desinformação em larga escala e mobilizando afetos como medo e ressentimento para sustentar sua narrativa.

Por isso, mais do que nunca, é necessário intensificar a presença política, ampliar o diálogo com a sociedade e fortalecer os vínculos com o povo. A disputa que se aproxima será decidida no detalhe, e cada território, cada conversa, cada espaço de organização contará. O Brasil já conhece o custo de subestimar esse tipo de confronto. Vamos com coragem e compromisso histórico. Sem desespero, mas também sem recuar.

* Este é um artigo de opinião, de responsabilidade do autor, e não reflete a opinião do Brasil 247.

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