Sem fertilizantes, não há soberania
Trata-se de um tema estratégico para a segurança alimentar, a estabilidade econômica e a soberania nacional
*Com Rosildo Silva
O Brasil precisa avançar com urgência em uma política efetiva para fertilizantes. Trata-se de um tema estratégico para a segurança alimentar, a estabilidade econômica e a soberania nacional — e que hoje expõe o país a uma dependência externa preocupante.
A produção de fertilizantes nitrogenados, em particular, está diretamente ligada à cadeia de petróleo e gás natural. Nesse contexto, a Petrobras reúne condições técnicas, operacionais e financeiras para desempenhar um papel central na retomada dessa indústria. Para isso, no entanto, precisa recuperar seu protagonismo como empresa integrada de energia, com visão de longo prazo e compromisso com o desenvolvimento nacional.
O diagnóstico é conhecido. O Brasil produz cerca de 15% dos fertilizantes que consome e importa aproximadamente 85%. Essa dependência deixa o país vulnerável a choques internacionais de preços, crises geopolíticas e restrições de oferta — como se viu recentemente com a guerra entre Rússia e Ucrânia e, mais recentemente, com tensões no Oriente Médio.
Apesar de o governo federal ter sinalizado, desde 2023, a intenção de retomar a produção nacional — com destaque para a reativação de fábricas e conclusão de projetos paralisados — os avanços ainda são insuficientes diante da dimensão do problema.
O próprio Plano Nacional de Fertilizantes 2050 ilustra essa limitação. A meta de produção de nitrogenados, de 3,2 milhões de toneladas por ano em 2050, é modesta quando comparada ao consumo atual, que já supera 17 milhões de toneladas e pode chegar a cerca de 27 milhões nas próximas décadas. Em outras palavras, mesmo que as metas sejam cumpridas, o país continuará fortemente dependente de importações.
Também chama atenção a lentidão na retomada de ativos existentes, mesmo considerando a política deliberada de desmontes que marcou os governos Temer e Bolsonaro. As fábricas do Nordeste só voltaram a operar em 2026, três anos após a decisão política de reativação. A unidade de Araucária (ANSA) permaneceu parada por anos, apesar de anúncios de investimentos. Já a UFN-III, cuja obra estava avançada, só deve entrar em operação em 2029 — sete anos após a decisão de retomada, um prazo superior ao de implantação de uma nova planta.
Essa demora revela um problema mais profundo: falta ao país uma estratégia efetiva, com metas realistas, cronograma definido e capacidade de implementação. Não basta reconhecer a importância dos fertilizantes; é preciso agir com velocidade e coordenação.
A ausência de novos investimentos relevantes ao longo das últimas décadas agravou a situação. O crescimento da demanda não foi acompanhado pela expansão da produção nacional, tornando o Brasil dependente de fornecedores concentrados em regiões frequentemente marcadas por instabilidade geopolítica.
Diante desse cenário, é imperativo que o Estado brasileiro assuma uma postura mais ativa. Isso implica não apenas retomar plantas existentes, mas estruturar um programa robusto de expansão da capacidade produtiva, com investimentos consistentes, governança clara e execução eficiente.
A Petrobras, nesse contexto, tem papel decisivo. A ampliação de sua atuação no setor de fertilizantes permitiria não apenas reduzir a dependência externa, mas também agregar valor ao gás natural produzido no país, fortalecendo a integração entre energia e indústria.
Mais do que uma agenda econômica, trata-se de uma questão de soberania. Fertilizantes são insumos essenciais para a produção de alimentos. Manter o país dependente de importações nesse setor é aceitar uma vulnerabilidade incompatível com o tamanho e o potencial do Brasil.
O desafio está posto. O que falta agora é transformar diagnóstico em ação — com planejamento, decisão política e capacidade de execução.
* Rosildo Silva é engenheiro de Petróleo e Petroquímica aposentado da Petrobras e ex-gerente geral das fábricas de fertilizantes - Fafen - da Bahia e de Sergipe.
* Este é um artigo de opinião, de responsabilidade do autor, e não reflete a opinião do Brasil 247.



