Fernando Horta avatar

Fernando Horta

Fernando Horta é historiador

92 artigos

HOME > blog

Semana difícil com entrevistas que perdem eleições

Entorno do presidente acumula ruídos políticos, desgasta Lula e reacende alerta sobre os riscos para a disputa eleitoral de 2026

Lula e Dario Durigan (Foto: Marcelo Camargo/Agência Brasil)
Selo Fonte Preferida no Google do Brasil 247

A semana começou com uma entrevista de Dario Durigan ao Estadão na qual o ministro da Fazenda defendeu, ponto por ponto, quase tudo o que o receituário neoliberal poderia desejar — inclusive contra posições do próprio presidente que diz servir. Não é a primeira vez. Desde que chegou à cúpula da Fazenda, vindo dos quadros corporativos de uma das maiores plataformas digitais do mundo, o ex-assessor-ministro vem cutucando justamente o que a Constituição tem de mais protetivo aos mais pobres: os mínimos constitucionais de investimento em saúde e educação, aqueles pisos crescentes e vinculados que existem precisamente para que o gasto social não fique à mercê do humor fiscal de cada governo. Cada investida nesse terreno, ainda que vestida de “tecnicalidade”, deixa para o PT a herança envenenada de ter sido o partido que afrouxou as garantias dos mais vulneráveis.

Mas o problema da entrevista vai além disso. Durigan afirma que o Brasil “é um país digital” quando os dados mostram o contrário. Há conectividade desigual, exclusão persistente, escolas sem infraestrutura, milhões à margem dos serviços básicos digitalizados. Temos muito trabalho pela frente, não uma vitória a comemorar. E, quando o jornalista — atentem que foi o jornalista de um dos veículos mais conservadores do Brasil que aventou o problema — o confronta com a exclusão que a digitalização produz nas camadas mais pobres, a resposta vem com um pedantismo que assusta: “não temos opção” — pedantismo, aliás, que é marca de toda a entrevista. Há sempre opção. A opção é exatamente o que um ministro existe para construir — política pública que inclua antes de digitalizar, e não digitalização que exclua antes de incluir.

Em seguida, Durigan fala abstratamente em “reforma administrativa”, sem a responsabilidade que o cargo exige. Um ministro não pode subscrever, no vácuo, um termo carregado de acepções políticas opostas. Até admito — embora não acredite — que ele o tenha invocado de boa-fé, como ferramenta para conter abusos e os poucos “novos marajás” do alto funcionalismo. Mas é inaceitável que um ministro desconheça que a direita usa exatamente essa palavra para atacar a base do serviço público: acabar com a segurança jurídica do servidor, esvaziar a estabilidade e transformar a máquina num loteamento de cargos à indicação de cada gestão. Quem ocupa um ministério não tem o direito de ser ingênuo com vocabulário.

Há ainda o gesto mais grave: Durigan, que não tem voto, tenta condicionar um eventual segundo mandato de Lula a um “ajuste fiscal” que ele já dá como certo. Aqui não falta apenas leitura do momento político — falta História. Foi precisamente num ajuste desse tipo que Dilma Rousseff se viu encurralada, sem força política para resistir ao golpe que veio em 2016. Dez anos depois, o ex-assessor-ministro repete o roteiro com a leveza de quem nunca leu a ata da própria tragédia. É o tipo de entrevista que, em outro tempo, renderia uma demissão.

Na esteira da semana, veio o comentário de Lula, no entorno do G7, de que não seria “esquerdista”. Talvez não devesse ter sido captado, mas também não deveria ter sido dito. Não adianta passar pano com a erudição de sempre — lembrar o Lênin de O esquerdismo, doença infantil do comunismo não conserta o estrago. Para boa parte da população, o que ficou foi que Lula disse não ser de esquerda. E isso desagrega justamente quem precisamos arregimentar: os que acreditam, e acreditam em si mesmos, como progressistas. Comunicação política não se mede pela intenção, mede-se pelo resultado, mede-se pelo que chega.

No apagar das luzes, uma operação da Polícia Federal atingiu Jaques Wagner e o coração do PT baiano. Wagner não é nenhum neófito; se se aproximou de Vorcaro, sabia o terreno que pisava. E não é de hoje que encadeia erros: a aliança contra Messias no STF, o apoio a Alcolumbre — hoje desafeto de Lula e obstáculo à PEC da escala de trabalho — e agora as relações que a PF mira. O entorno do presidente parece especializado em transformar capital político em algo o mais inerte possível.

O saldo é cruel. No início da semana, uma vitória de Lula no primeiro turno parecia plausível — construída quase exclusivamente pelo esforço do próprio presidente. Ao fim dela, não parece mais. A cada passo que Lula dá rumo aos 50% mais um voto de outubro, seu entorno, atabalhoado, recua dois.

E nem entro no mérito da decisão do Banco Central de cortar a Selic em apenas 0,25%. O Comitê deveria ter escolhido: ou o ambiente interno e externo pede cautela, e então segura a taxa, aguentando a crítica; ou abre espaço para os setores produtivos e os trabalhadores, e então corta com gesto que se faça sentir. Essa meia-decisão não acalma o mercado nem alivia a economia real — só produz ruído. É tão nociva, à sua maneira, quanto a entrevista de Durigan.

Do jeito que as coisas caminham, tudo parece roteiro para que — mesmo a contragosto — sejamos levados a concluir que Haddad precisa voltar ao centro do tabuleiro. Se a intenção era essa, funciona. Mas há um detalhe que ninguém no entorno parece computar: a cada semana assim, quem de fato agradece, em silêncio, são os Bolsonaro.

* Este é um artigo de opinião, de responsabilidade do autor, e não reflete a opinião do Brasil 247.

Artigos Relacionados