Durigan defende atualização do cálculo da inflação e manutenção da meta de 3%
Ministro da Fazenda avalia que índices de preços precisam refletir mudanças no consumo e critica pautas com impacto fiscal elevado
247 - O ministro da Fazenda, Dario Durigan, defendeu a abertura de um debate sobre possíveis mudanças na metodologia utilizada para medir a inflação no Brasil, ao mesmo tempo em que reiterou seu apoio à manutenção da meta inflacionária de 3% ao ano. As declarações foram dadas em entrevista ao podcast da Warren Investimentos, gravada na sexta-feira (12) e divulgada nesta segunda-feira (15).
Segundo Durigan, especialistas têm apontado uma defasagem na composição dos índices de preços atualmente utilizados no país, uma vez que os hábitos de consumo da população mudaram significativamente ao longo das últimas décadas. Para o ministro, a metodologia precisa acompanhar essas transformações para representar com maior precisão a realidade econômica.
"O nosso modelo, por exemplo, dá peso para coisas que hoje não têm mais o peso que tinham anteriormente, e coisas que hoje têm peso, assinatura de streaming, serviço de nuvem às vezes já pesam muito mais do que algo que estava na metodologia há décadas", afirmou.
Na avaliação do ministro, a discussão sobre o aperfeiçoamento dos indicadores econômicos deve ocorrer sem comprometer a credibilidade do sistema. Ele também manifestou apoio a um debate sobre eventuais melhorias no boletim Focus, levantamento realizado pelo Banco Central com projeções do mercado financeiro, defendendo maior transparência no processo.
Apesar de considerar válida a revisão de metodologias estatísticas, Durigan descartou alterações na meta de inflação atualmente fixada em 3%. Segundo ele, o modelo de meta contínua implementado pelo governo ainda não foi plenamente assimilado tanto pela sociedade quanto por parte dos especialistas.
Durante a entrevista, o ministro também abordou os fatores que, em sua visão, contribuem para a manutenção de juros elevados no Brasil. Entre eles, citou a volatilidade do mercado cambial, o baixo nível de poupança doméstica e o prêmio de risco associado à economia brasileira.
"A questão da poupança é um elemento importante, a volatilidade no mercado de câmbio brasileiro é outro mecanismo que a gente ouve muito, ainda que não se diga muito isso, tem um prêmio de risco que o Brasil tem que pagar para garantir alguma estabilidade", declarou.
Durigan reconheceu ainda que a política fiscal exerce influência sobre a condução da política monetária. Nesse contexto, defendeu a necessidade de conter o crescimento das despesas obrigatórias para ampliar a capacidade de investimento do Estado e fortalecer a sustentabilidade das contas públicas.
O ministro voltou a demonstrar preocupação com propostas em tramitação no Congresso Nacional que podem elevar significativamente os gastos públicos. Segundo ele, o governo continuará atuando para impedir a aprovação de medidas consideradas de alto impacto fiscal, conhecidas como "pautas-bomba".
De acordo com Durigan, caso projetos com forte repercussão sobre as contas públicas sejam aprovados, o Executivo poderá recorrer a vetos presidenciais e até mesmo ao Supremo Tribunal Federal (STF).
Na semana passada, a equipe econômica estimou que propostas atualmente em discussão no Congresso podem gerar um impacto fiscal de aproximadamente R$ 111 bilhões por ano. Entre elas estão iniciativas como uma ampla renegociação de dívidas do setor rural, a ampliação do teto de enquadramento do Simples Nacional e o aumento de pisos salariais para determinadas categorias profissionais.
Para o Ministério da Fazenda, a aprovação dessas medidas teria potencial para pressionar a inflação, aumentar a carga tributária e dificultar a redução dos juros no país, ampliando os desafios para a estabilidade macroeconômica.



