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Joaquim de Carvalho

Colunista do 247, foi subeditor de Veja e repórter do Jornal Nacional, entre outros veículos. Ganhou os prêmios Esso (equipe, 1992), Vladimir Herzog e Jornalismo Social (revista Imprensa). E-mail: joaquim@brasil247.com.br

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Silêncio e desvio: como a GloboNews ignorou o caso Master após desafio de Lindbergh Farias

Malu Gaspar tentava envolver Lula na história quando o deputado apontava para um fato relevante: Pedro Moreira Salles foi quem vetou uma manobra de Campos Neto

Lindbergh e Malu Gaspar, na GloboNews: onde está o "jornalismo profissional"? (Foto: Reprodução)

O escândalo do Banco Master voltou ao centro do debate público não por iniciativa direta da grande imprensa, mas após um desafio explícito feito pelo deputado Lindbergh Farias a jornalistas da GloboNews. Durante entrevista nesta semana, o parlamentar apresentou elementos concretos sobre movimentações no sistema financeiro em dezembro de 2024 — e, diante deles, o que se viu foi silêncio e desvio de foco.

Lindbergh afirmou que, no último mês da gestão de Roberto Campos Neto, houve uma tentativa de construir uma saída para o Banco Master que, na prática, também serviria para protegê-lo política e criminalmente. Segundo o deputado, Campos Neto reuniu banqueiros no Banco Central para discutir a venda da instituição por um valor simbólico, operação que dependeria do aval do Fundo Garantidor de Créditos (FGC).

Em vez de aprofundar esse ponto — que, por si só, justificaria uma investigação rigorosa — a jornalista Malu Gaspar optou por deslocar o debate. Citou que, naquele mesmo período, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva havia recebido o empresário Daniel Vorcaro. A tentativa de associação foi imediatamente rebatida: Lindbergh lembrou que chefes de Estado recebem empresários regularmente, em agendas institucionais e com assessores presentes, e voltou ao ponto central: os bastidores da tentativa de “solução” para o Master.

Foi então que o deputado trouxe o núcleo da denúncia. Segundo ele, Campos Neto teria articulado para que uma instituição financeira comprasse o banco por “zero centavo, um real”, permitindo a saída de Vorcaro com seus recursos, apesar da situação crítica da instituição. A proposta chegou ao FGC, formado por grandes bancos, mas teria sido barrada por um de seus integrantes, que considerou a operação inaceitável, mesmo diante do risco de perdas maiores.

Esse era o momento de avançar. Não houve. As informações ficaram sem questionamento, sem aprofundamento, sem investigação em tempo real. A entrevista seguiu por outros caminhos, deixando no ar uma pergunta inevitável: por que evitar esse tema?

Diante dessa lacuna, este autor seguiu a pista deixada por Lindbergh, e encontrou peças centrais do quebra-cabeça que não foram exploradas na entrevista. A apuração identificou que o banqueiro que vetou a operação foi Pedro Moreira Salles, do Itaú Unibanco. Já o banco que poderia assumir o Master, nas condições descritas, seria o BTG Pactual, de André Esteves.

Essas informações ajudam a dimensionar o tamanho do problema e reforçam a avaliação de que se tratava de uma operação de alto risco e potencialmente lesiva. Também colocam em perspectiva decisões posteriores, como a tentativa de transferência do banco ao BRB, alternativa que surgiu após o fracasso da negociação envolvendo o BTG.

Na sequência, novas articulações vieram à tona. Reuniões teriam envolvido o ex-presidente Michel Temer, Daniel Vorcaro, o governador do Distrito Federal Ibaneis Rocha e o então presidente do BRB, Paulo Henrique Costa. Este último foi preso nesta semana, após a Polícia Federal apontar indícios de recebimento de propina para viabilizar operações relacionadas ao Master.

É um desdobramento grave, que amplia ainda mais a dimensão do caso e coloca Ibaneis Rocha e Michel Temer na cena do crime.

Diante desse conjunto de fatos, o episódio deixa de ser apenas uma crise bancária e passa a expor uma rede de decisões, interesses e tentativas de solução que exigem escrutínio público. E é justamente nesse ponto que a atuação da imprensa se torna incontornável.

Um veículo que se apresenta como referência em jornalismo profissional não pode se esquivar de perguntas centrais quando elas surgem de forma tão direta. A GloboNews tem o dever de buscar as respostas que não vieram à tona, especialmente quando provocada com informações verificáveis.

No caso, estaria havendo tentativa de blindar Campos Neto? O questionamento é pertinente, já que o ex-presidente do Banco Central é hoje diretor do Nubank, fintech do qual ele se tornou diretor, ao cruzar a porta giratória quando deixou a autarquia responsável pelo sistema financeiro nacional e a política monetária do Brasil.

Sobre a GloboNews, vale lembrar a máxima do jornalista Evandro Carlos de Andrade, que eu ouvi dele próprio: “O jornalista não tem amigos a proteger nem inimigos a perseguir”.

Na prática, não era bem assim no prédio que fica entre as ruas Lopes Quintas e Von Martius, no Jardim Botânico. Como ideal, porém, a frase de Evandro permanece irretocável. Fora disso, o que se vê não é jornalismo, é apenas a gestão de interesses menores, exatamente o tipo de prática que casos como o do Master ajudam a expor.

* Este é um artigo de opinião, de responsabilidade do autor, e não reflete a opinião do Brasil 247.

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