Galípolo mantém sigilo sobre autorização de Campos Neto à criação do Master
Banco Central mantém sigilo sobre autorização do Master e não explica como Vorcaro reverteu veto em oito meses
247 - O Banco Central (BC) segue sem explicar como autorizou Daniel Vorcaro a assumir o controle do banco Máxima em 2019, etapa decisiva para a criação do banco Master, mesmo após a operação ter sido vetada meses antes. Documentos que detalhariam a origem dos recursos e as garantias apresentadas permanecem sob sigilo, o que impede esclarecer como o empresário conseguiu reverter a decisão inicial, relata Malu Gaspar, do jornal O Globo.
O BC se recusa a divulgar a íntegra dos votos da diretoria que negaram e posteriormente aprovaram a transferência de controle, liberando apenas resumos. A negativa ocorre mesmo após pedidos feitos via Lei de Acesso à Informação e tentativas de obter esclarecimentos adicionais junto à assessoria da instituição.
O primeiro parecer, de fevereiro de 2019, rejeitou por unanimidade a operação sob o argumento de que Vorcaro e seus sócios não comprovaram a origem dos recursos nem capacidade financeira para assumir o banco. No entanto, em outubro do mesmo ano, a mesma diretoria aprovou a transferência, também por unanimidade, alegando apenas que o pedido atendia às exigências legais — sem detalhar quais mudanças ocorreram no processo.
A mudança de posicionamento ocorreu após a troca no comando do BC, com a saída de Ilan Goldfajn e a entrada de Roberto Campos Neto. O episódio passou a ser citado por integrantes do governo federal, incluindo o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT), que associou o surgimento do banco Master à gestão anterior da autoridade monetária.
Em meio à pressão política, o atual presidente do BC, Gabriel Galípolo, afirmou em depoimento à CPI do Crime Organizado que não há evidências de irregularidades por parte de Campos Neto. Ele também negou que o antecessor tenha interferido para evitar medidas mais duras contra o Master em 2024, o que gerou desconforto entre aliados do governo.
A falta de transparência, no entanto, dificulta a verificação dos fatos. O BC justificou o sigilo alegando que os documentos contêm dados protegidos por sigilo bancário e informações estratégicas que poderiam gerar vantagem competitiva indevida ou afetar a estabilidade do sistema financeiro.
Mesmo propostas para divulgação parcial, com ocultação de dados sensíveis, foram rejeitadas. A instituição também não respondeu a pedidos de entrevista com técnicos responsáveis pelos pareceres.
Reportagens anteriores indicam que Vorcaro havia apresentado garantias baseadas em títulos imobiliários considerados superfaturados pela própria autoridade monetária. Ainda assim, não está claro quais elementos permitiram a reversão do veto inicial.
À época, o banco Máxima enfrentava problemas financeiros e era controlado por Saul Sabbá, posteriormente acusado pelo Ministério Público Federal de práticas de gestão fraudulenta. Ele admitiu irregularidades e firmou acordo com a Justiça em 2025.
Para o advogado Bruno Morassuti, especialista em direito público e diretor da organização Fiquem Sabendo, o caso envolve interesse público evidente e não deveria permanecer sob sigilo. Segundo ele, “é um caso clássico de informação de interesse público, porque estamos falando de um tema que é alvo de investigação em que já se sabe que há agentes públicos envolvidos, inclusive no Banco Central”.
Morassuti também ressalta que a legislação impede o uso de sigilo para encobrir possíveis irregularidades: “A lei de acesso à informação proíbe o uso do sigilo para acobertar ilícitos. E mesmo a gente não sabendo se houve algum ilícito nesses atos, é importante entender com base em quê essas decisões foram tomadas”.
De acordo com o especialista, o próprio Banco Central tem prerrogativa legal para flexibilizar o sigilo diante do interesse público. “Havendo interesse do Banco Central, há base legal para afastar o sigilo, dado o interesse público relacionado ao caso. O BC tem autoridade para definir o alcance desse sigilo”, afirmou.
Apesar disso, a divulgação dos dados segue sem previsão, mantendo em aberto uma das principais lacunas sobre a origem e a estruturação do banco Master.


