Tá na hora de pedir 6
A resposta política, portanto, precisa ser clara: investigação total. Se querem CPI, que haja CPI
A extrema-direita brasileira decidiu apostar alto no barulho político em torno do caso envolvendo o banqueiro Daniel Vorcaro e o Banco Master. Parlamentares e influenciadores ligados ao bolsonarismo passaram a defender a abertura de CPIs como se estivessem diante de um escândalo que comprometeria o governo federal. O problema dessa estratégia é simples: quanto mais se aprofunda o debate sobre o tema, mais as conexões levam para o próprio campo da extrema-direita e do Centrão.
É por isso que o governo deveria dobrar a aposta. Se a oposição quer CPI, que venha. Investigar tudo, sem medo, sem seletividade e sem atalhos. Porque, ao contrário do que tenta sugerir o discurso oposicionista, as relações políticas mais próximas de Daniel Vorcaro não estão no campo progressista. O objetivo dos movimentos da extrema-direita é buscar nada mais, nada menos do que criar nuvens escuras sobre a verdade.
Os episódios que vieram a público nos últimos dias são esclarecedores. Conversas atribuídas ao banqueiro mostram diálogos com figuras de alta patente do Centrão com relações umbilicais com o bolsonarismo, como é o caso do senador Ciro Nogueira, um dos principais articuladores políticos desse campo no Congresso. Há também relações com governadores ligados à direita, como Ibaneis Rocha, do Distrito Federal, e Cláudio Castro, do Rio de Janeiro. O primeiro destinando bilhões para salvar o Master, o outro, colocando milhões de reais dos servidores do Estado nas mãos do banqueiro em troca de papéis podres. A rede política que aparece nas investigações desenha um grande abraço de “amigos para a vida” da roubalheira com ícones do bolsonarismo.
O caso ganha contornos ainda mais emblemáticos quando se observa o episódio do avião utilizado durante a campanha de 2022. O deputado Nikolas Ferreira voou em aeronave do Banco Master para participar de atividades eleitorais da campanha de Jair Bolsonaro. E um detalhe bastante espinhoso: o uso da aeronave não apareceu nas prestações de contas eleitorais.
Outro elo que chama a atenção é o do cunhado de Vorcaro e pastor da Igreja Lagoinha - a mesma de Nikolas -, Fabiano Zettel, que doou R$ 5 milhões para as campanhas de Tarcísio de Freitas em São Paulo e para Jair Bolsonaro. A presença de lideranças religiosas conectadas a essa rede reforça a dimensão política e financeira que o caso pode alcançar. Haveria outras campanhas da direita destinatárias da dinheirama esparramada pelo esquema? A saber.
Ou seja, os episódios levantam questionamentos que dizem respeito diretamente ao campo político que hoje tenta posar de acusador. Diante desse quadro, fica cada vez mais evidente que a gritaria oposicionista pode não passar de um grande blefe. Ao tentar transformar o caso em arma contra o governo, setores da direita podem estar construindo a infraestrutura narrativa necessária para iluminar relações que prefeririam manter nas sombras.
Justamente por isso o governo não deveria recuar. Nem se acuar. Em momentos de escândalo, existe uma tendência quase automática na chamada “opinião pública”: responsabilizar quem está no poder, ainda que não haja ligação direta com os fatos. Se o governo permitir que a narrativa seja conduzida apenas pelos adversários, corre o risco de ver um caso alheio cair em seu colo.
A resposta política, portanto, precisa ser clara: investigação total. Se querem CPI, que haja CPI. Se querem esclarecimentos, que todos os vínculos sejam examinados. Transparência completa. E no fim das contas, pode ser que a própria direita descubra que brincar com fogo tem consequências. Porque quando a luz se acende de verdade, muitas vezes quem grita “pega ladrão” acaba sendo o primeiro a sair queimado.
* Este é um artigo de opinião, de responsabilidade do autor, e não reflete a opinião do Brasil 247.



