Estado de S. Paulo parte para cima de Viviane Barci e diz que explicação para contrato com Master é um “escárnio”
Editorial questiona contrato de R$ 129 milhões ligado à família de Alexandre de Moraes e afirma que justificativas desafiam a lógica do mercado jurídico
247 – O jornal Estado de S. Paulo publicou um duro editorial criticando o contrato firmado entre o escritório Barci de Moraes Advogados, ligado à família do ministro do Supremo Tribunal Federal Alexandre de Moraes, e o Banco Master, classificando como um verdadeiro “escárnio” a explicação apresentada para o acordo milionário.
No texto intitulado “Escárnio”, o jornal Estado de S. Paulo afirma que a nota divulgada pelo escritório da mulher e dos filhos de Moraes, após três meses de silêncio, não parece ter sido elaborada para convencer a opinião pública. Segundo o editorial, a justificativa apresentada levanta mais dúvidas do que esclarecimentos sobre o contrato, estimado em R$ 129 milhões.
De acordo com o jornal Estado de S. Paulo, o acordo teria vigorado entre fevereiro de 2024 e novembro de 2025, com remuneração mensal entre R$ 3,6 milhões e R$ 5,8 milhões ao escritório Barci de Moraes Advogados. O texto afirma que o próprio jornal consultou 13 advogados de grandes bancas, que consideraram os valores incompatíveis com os padrões do mercado jurídico.
Ainda segundo a publicação, mesmo adotando os valores mais altos praticados no mercado, o conjunto de atividades descritas na nota do escritório — como reuniões, pareceres e revisão de políticas internas — dificilmente ultrapassaria R$ 7,8 milhões no total, valor muito inferior ao montante do contrato.
O editorial observa que honorários superiores a R$ 100 milhões são raros e normalmente aparecem apenas em disputas fiscais complexas ou em grandes operações societárias envolvendo diversos escritórios e equipes extensas de advogados. Também foram levantadas dúvidas sobre a experiência técnica do escritório nas áreas contratadas.
Outro ponto destacado pelo jornal Estado de S. Paulo diz respeito à evolução patrimonial da mulher do ministro. Segundo apuração do jornal O Globo, mencionada no editorial, o patrimônio de Viviane Barci teria aumentado 232% entre 2023 e 2024, passando de R$ 24 milhões para R$ 79,7 milhões.
Para o editorial, o episódio levanta questionamentos legítimos. O texto afirma que, diante dos valores e do contexto, a sociedade estaria autorizada a suspeitar de possíveis “serviços inconfessáveis” associados ao contrato.
O artigo também menciona outros elementos que, segundo o jornal, comporiam um quadro de dúvidas em torno da relação entre o banqueiro Daniel Vorcaro, dono do Banco Master, e o ministro Alexandre de Moraes. Entre os pontos citados estão encontros pessoais entre os dois, além de mensagens interceptadas pela Polícia Federal relacionadas a interesses do banco, incluindo comunicações no dia da prisão do banqueiro.
O editorial ressalta que, isoladamente, esses elementos não configuram crime, mas afirma que o conjunto de indícios justificaria uma investigação mais aprofundada. O texto também menciona a atuação do ministro Dias Toffoli em processos relacionados ao Banco Master e seus vínculos com estruturas financeiras associadas a Vorcaro.
Outro ponto levantado no editorial é a comparação entre este caso e investigações conduzidas em outros episódios. O texto afirma que critérios aplicados por Moraes em processos recentes foram rigorosos em situações envolvendo terceiros, enquanto, na avaliação do jornal, haveria demora ou ausência de apuração no caso envolvendo o Banco Master.
Segundo o jornal Estado de S. Paulo, caberia ao Ministério Público esclarecer os fatos e dissipar as suspeitas. O editorial menciona ainda a atuação do procurador-geral da República, Paulo Gonet, observando diferenças de velocidade e intensidade na condução de investigações em diferentes casos.
Na avaliação expressa pelo editorial, o episódio levanta um debate mais amplo sobre transparência e responsabilidade das autoridades públicas. O texto argumenta que, em uma ordem republicana, aqueles que exercem poder devem prestar contas de seus atos à sociedade.
O jornal conclui afirmando que explicações consideradas implausíveis agravam a percepção de falta de transparência. Segundo o editorial, quando autoridades apresentam versões que desafiam o senso comum sem enfrentar investigações imediatas, isso indicaria um problema mais profundo no funcionamento das instituições republicanas.


