Trump declarou guerra a toda a América Latina
A ofensiva dos EUA inaugura nova etapa do imperialismo e ameaça a soberania regional, afirma o jornalista José Reinaldo Carvalho
A ação desencadeada pelos Estados Unidos contra a Venezuela neste sábado (3) constitui um episódio de extrema gravidade e marca uma inflexão perigosa nos conflitos internacionais contemporâneos.
Trata-se de uma operação brutal, cuidadosamente planejada e executada como demonstração explícita de força, destinada a impor pela violência aquilo que Washington já não consegue assegurar por meio da diplomacia, do direito internacional ou de qualquer forma mínima de consenso entre as nações. Ficou patente a brutalidade dessa ofensiva, executada pela chamada Força Delta, uma divisão apresentada como da elite das forças armadas dos EUA, que é na prática uma organização terrorista com raio de ação internacional. A ação deixou evidente ainda o desprezo absoluto pela soberania de um país e pela vida de seu povo.
Estamos diante de uma ação de caráter inequivocamente criminoso. A ação é criminosa porque viola frontalmente a Carta das Nações Unidas, ignora os princípios da autodeterminação dos povos e do não uso da força, e atropela qualquer noção de legalidade internacional. Afronta, ainda, princípios consagrados na Segunda Cúpula da Celac (Comunidade de Estados Latino-Americanos e Caribenhos) realizada em Havana, em 2014. É criminosa porque transforma sanções, bloqueios, ameaças militares e ações militares diretas em instrumentos sistemáticos de coerção política. E porque normaliza a agressão armada como método permanente de dominação, com um agravante inaceitável: o sequestro de um Presidente da República legítimo e constitucional, um líder revolucionário, socialista, dedicado ao bem-estar de seu povo e à grandeza de sua nação.
Esta ação desnuda, sem qualquer disfarce, o caráter imperialista da política externa dos Estados Unidos. As instituições multilaterais, já profundamente fragilizadas, entram em colapso quando a maior potência militar do planeta usa a força bruta para impor seus desígnios. O sistema internacional, que deveria mediar conflitos e conter abusos, é rebaixado à condição humilhante de espectador impotente. O direito internacional deixa de ser norma e passa a ser tratado como peça descartável.
A guerra contra a Venezuela insere-se plenamente na nova fase do imperialismo estadunidense, consolidada a partir da recente estratégia de segurança nacional e do chamado corolário Trump. Este, desprovido de caráter, de compromisso com o diálogo e de quaisquer qualificações morais para exercer liderança global, infenso às normas das relações internacionais e do multilateralismo, proclamou a América Latina como centro das prioridades estratégicas de seu governo. Trata a região como questão territorial, de segurança nacional e de interesse econômico direto dos EUA. O objetivo é explícito: domínio, neocolonialismo e exclusão de outros países do espaço latino-americano.
As falas de Trump, durante a entrevista coletiva concedida no sábado na Casa Branca, escancaram o viés imperialista, o objetivo de domínio político, econômico e energético da América Latina. A Venezuela surge como peça-chave dessa arquitetura, especialmente por deter as maiores reservas de petróleo do mundo.
O chefete da Casa Branca articulou suas declarações dentro do que se chama de Corolário Trump da Declaração Monroe de inícios do século 19. Nesta leitura, ele reivindica para si o papel de gestor direto da ordem regional, inclusive com intervenção militar e controle de recursos estratégicos.
Ao abordar a situação venezuelana, Trump afirmou que os Estados Unidos assumirão a condução do país enquanto não haja, segundo suas palavras, uma mudança política considerada adequada. “Vamos governar o país até que uma transição segura, adequada e judiciosa possa acontecer”, declarou, vinculando a soberania venezuelana a uma tutela externa. A dimensão militar foi tratada sem rodeios. Trump afirmou que o envio de tropas não estava descartado, reforçando a disposição de uso da força para sustentar essa estratégia. “Não temos medo de tropas no solo”, disse, ao justificar a presença militar como instrumento legítimo de governo e segurança.
O petróleo apareceu como eixo estruturante do discurso. Trump declarou que os Estados Unidos garantirão que o setor energético venezuelano será colocado sob uma nova lógica de exploração. Segundo ele, o objetivo é fazer com que o petróleo “funcione como deveria”, numa formulação que associa exploração econômica com intervenção estrangeira direta.
Nesta mesma linha, anunciou a entrada maciça de empresas norte-americanas no país sul-americano. “As grandes empresas petrolíferas dos EUA vão entrar na Venezuela para gastar bilhões e consertar a infraestrutura de petróleo deteriorada, para começar a gerar lucros”, afirmou, deixando explícita a centralidade do capital estadunidense no saque do petróleo venezuelano.
Em outra declaração que reforçou o tom de expropriação, Trump apresentou um falso pretexto, uma deturpação histórica: “Eles roubaram nosso petróleo”, disse, sugerindo que os recursos venezuelanos eram propriedade estadunidense. A mensagem de Trump é clara. Os Estados Unidos deram o primeiro passo no empreendimento imperialista da MAGA em face da América Latina e Caribe, corroborado pelo chefe do Estado Maior Conjunto dos EUA, general Daniel Caine: "Neste momento, nossas forças permanecem na região em alto estado de prontidão, preparadas para projetar poder, defender-se e proteger nossos interesses regionais", assegurou.
A agressão à Venezuela é, na essência, uma declaração de guerra contra toda a América Latina e o Caribe, particularmente contra a América do Sul. Toda a região ingressa em uma nova etapa histórica, que exigirá estratégia e tática próprias por parte dos povos e das forças comprometidas com a soberania nacional e as transformações políticas e sociais.
A dominação imperialista nesta nova etapa já se manifesta de forma concreta em diversos países da região. Estão claramente submetidos à órbita de Washington países como a Argentina, o Chile, desde a eleição de Kast, Paraguai, Bolívia, Equador, Peru, El Salvador, República Dominicana, Panamá e Costa Rica. Em Honduras, o governo norte-americano promoveu uma ingerência no processo eleitoral, com vistas a instaurar um governo submisso. O cerco a Cuba se intensifica, com maior bloqueio e outras ações hostis. Observam-se também ameaças ao Brasil, à Colômbia e ao México, países que têm políticas externas independentes. No caso colombiano, chama a atenção o calendário eleitoral, com eleições presidenciais previstas para maio. No Brasil, o processo eleitoral de outubro também se insere nesse tabuleiro geopolítico, tornando o país alvo potencial de pressões, ingerências e tentativas de desestabilização.
A relação do Brasil com os Estados Unidos possui uma peculiaridade que exige vigilância redobrada. O equilíbrio é necessário, a submissão, inaceitável. A política externa soberana passa pela defesa dos interesses nacionais, a integração regional e a recusa em transformar o país numa plataforma de interesses alheios.
Em situações como esta, a luta de ideias se torna mais exigente e desafiadora, em que não há cabimento para pescadores de águas turvas, pregoeiros do nada, “professores de deus”, cuja inócua atividade equivale a arar no mar, confundindo análise com ruído e militância com espetáculo. É igualmente necessário evitar especulações, ilações e acusações vazias, que apenas desarmam politicamente aqueles que deveriam estar preparados para o confronto histórico em curso. É também imprescindível afastar especulações infundadas e narrativas deliberadamente falsas. Circula a suspeita aleivosa de um suposto acordo entre parceiros estratégicos da Venezuela e o aspirante a tirano global, segundo o qual forças extra-hemisféricas teriam, em segredo, pactuado limitar-se a gestos meramente protocolares diante das ações de Donald Trump, em troca da neutralidade norte-americana nos conflitos em que essas potências estão envolvidas. Trata-se de um delírio conspiratório, desprovido de qualquer base factual.
Por fim, é necessário reafirmar com toda clareza: o inimigo principal dos povos latino-americanos e caribenhos é o imperialismo estadunidense, que dispõe de estratégia definida e interesses inequívocos. Por isso trata a região como seu quintal, explicita sua cobiça pelas riquezas naturais e proclama abertamente a meta de dominá-la por completo, uma dominação que os povos da América Latina jamais aceitaram nem aceitarão. Trump inaugura uma nova era de colonialismo nas Américas, parte de seu projeto megalomaníaco de “tornar os EUA grandes de novo”, estratégia concebida para tentar contornar o declínio histórico irreversível do imperialismo estadunidense.
Como afirmou Socorro Gomes, líder do Cebrapaz e ex-presidenta do Conselho Mundial da Paz: “A ação criminosa de Trump contra a Venezuela vai , ao contrário, acelerar a decadência do imperialismo norte-americano, nosso dever é, apesar das adversidades circunstanciais, infundir nos povos a convicção de que o imperialismo não é invencível e será derrotado”.
As forças que lutam por uma nova ordem política e econômica no mundo devem constituir-se em vanguardas de seus povos, elaborar estratégias e táticas consoantes a nova situação mundial e regional, e mobilizar amplas forças sociais para enfrentar os novos desafios e batalhas que se impõem.
PS: Esta é a 500ª coluna que assino no Brasil 247, ocasião em que reafirmo a minha condição de profissional de mídia, comprometido com a informação fidedigna, a verdade, a análise fundamentada em princípios, e de militante pelas causas justas. Saúdo a direção e a equipe de excelência deste veículo, onde, com inteira liberdade, oferecemos nossas opiniões ao público com o intuito de contribuir modestamente ao avanço da luta pela democracia, a soberania nacional e o progresso social do povo brasileiro e de toda a humanidade.
* Este é um artigo de opinião, de responsabilidade do autor, e não reflete a opinião do Brasil 247.



