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Oliveiros Marques

Sociólogo pela Universidade de Brasília, onde também cursou disciplinas do mestrado em Sociologia Política. Atuou por 18 anos como assessor junto ao Congresso Nacional. Publicitário e associado ao Clube Associativo dos Profissionais de Marketing Político (CAMP), realizou dezenas de campanhas no Brasil para prefeituras, governos estaduais, Senado e casas legislativas

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Trump e Bolsonaro: comparáveis, sim – mas pelos fatos, não por distorções

O clã adotou uma postura de alinhamento automático aos Estados Unidos e ao trumpismo. Verdadeiros vira-latas

Trump e Bolsonaro: comparáveis, sim – mas pelos fatos, não por distorções (Foto: Reprodução)

O discurso juvenil de Flávio “Rachadinha” Bolsonaro, durante o encontro de representantes da extrema-direita nos Estados Unidos, ao buscar comparar o presidente norte-americano com o seu pai presidiário, peca justamente no alvo dos pontos de contato entre as duas personalidades reprováveis.

A comparação entre Donald Trump e Jair Bolsonaro segue válida — desde que ancorada em fatos verificáveis, e não em afirmações imprecisas ou devaneios que emulam torcidas e claques. Não é necessário recorrer a exageros para demonstrar que ambos representam um mesmo padrão de atuação política: autoritário, golpista e hostil às instituições democráticas.

Um dos pontos centrais dessa comparação está — como sabemos hoje — no comportamento diante das eleições. Após perder o pleito de 2020, Trump passou meses alegando fraude sem provas e incentivando apoiadores a contestar o resultado — o que culminou na invasão do Capitólio. No Brasil, Bolsonaro trilhou caminho semelhante ao atacar reiteradamente o sistema eleitoral antes mesmo do resultado de 2022, criando o ambiente político que desembocou nos atos de 8 de janeiro.

Esses episódios não são coincidência, mas expressões de uma mesma estratégia: desacreditar instituições para se manter relevante politicamente, mesmo à custa da estabilidade democrática. Aqui, Trump e Bolsonaro se apresentam como representantes siameses de uma mesma família de equídeos.

Há ainda a convergência no estilo de liderança: confronto permanente, uso intensivo de desinformação, ataques à imprensa e a tentativa de transformar adversários políticos em inimigos existenciais. Tanto Trump quanto Bolsonaro governaram — e o segundo segue atuando politicamente, porque não está preso — mobilizando suas bases contra o próprio sistema que deveriam respeitar.

Portanto, a comparação entre os dois não apenas procede — ela se impõe, mas não por aspectos respeitáveis como a história nos mostra e que Flávio Bolsonaro quer esconder. Não porque sejam idênticos em tudo, mas porque compartilham um mesmo projeto de poder: personalista, desestabilizador e avesso aos limites democráticos.

Mas há, como em todo paralelo, algo que os diferencia: a política externa. Enquanto Trump invade, sequestra e assassina líderes de outros países sob o argumento de defender os interesses nacionais — mas que, na prática, se alinham a grupos econômicos aliados, como petroleiras, mineradoras e a indústria armamentista — Bolsonaro e seus filhos, incluído aqui o próprio Flávio “Rachadinha”, defendem a submissão.

O clã construiu suas campanhas ancoradas no slogan “Deus, pátria e família”, mas, na prática, adotou uma postura de alinhamento automático aos Estados Unidos e ao trumpismo. Verdadeiros vira-latas.

Essa lógica também se refletiu na atuação de seus filhos. Eduardo Bolsonaro, por exemplo, buscou aproximação direta com setores do trumpismo e articulou agendas alinhadas a interesses externos, inclusive em temas sensíveis ao Brasil. Foi mentor e propagandista do tarifaço que prejudicou empresas e trabalhadores brasileiros.

Já Flávio Bolsonaro protagonizou declarações absurdas, sugerindo respostas duras dos Estados Unidos em cenários envolvendo o Brasil, como atacar embarcações na Baía da Guanabara.

Mais do que episódios isolados, isso revela uma contradição estrutural: um discurso nacionalista que não se sustenta na prática. A retórica da “pátria” convive com gestos políticos que fragilizam a autonomia do país no cenário mundial — tudo para se mostrar igual ao seu ídolo.

Se há algo a aprender com essa semelhança, é que democracias não se rompem apenas com tanques nas ruas. Muitas vezes, são corroídas por dentro — por líderes que, em nome do povo, trabalham contra ele.

E nisso, Trump e Bolsonaro têm mais em comum do que admitem. Mas isso o “Rachadinha” não destacou em seu discurso para os extremistas nos EUA. Porque, afinal, seria expor demais quem realmente são.

* Este é um artigo de opinião, de responsabilidade do autor, e não reflete a opinião do Brasil 247.

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