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Oliveiros Marques

Sociólogo pela Universidade de Brasília, onde também cursou disciplinas do mestrado em Sociologia Política. Atuou por 18 anos como assessor junto ao Congresso Nacional. Publicitário e associado ao Clube Associativo dos Profissionais de Marketing Político (CAMP), realizou dezenas de campanhas no Brasil para prefeituras, governos estaduais, Senado e casas legislativas

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Trump, o pirata do Caribe

Se o mundo não se levantar contra esse movimento, que combina expansionismo, desprezo pela soberania e culto à força, estará aceitando o fascismo do século XXI

Donald Trump concede entrevista em Palm Beach 3/1/2026 REUTERS/Jonathan Ernst (Foto: Jonathan Ernst)

O mundo não pode assistir de braços cruzados à pilhagem explícita promovida pelos Estados Unidos sob a liderança de Donald Trump. O que se passa hoje na Venezuela não é uma operação de “restauração democrática”, tampouco uma ação humanitária. Trata-se de saque, puro e simples. Uma reinvenção contemporânea da pirataria, agora praticada não por corsários com bandeiras pretas em seus mastros, mas por um Estado que se arroga o direito de sequestrar governantes, impor orden a governos, controlar riquezas alheias e decidir, unilateralmente, o destino de povos inteiros.

A declaração de Trump, feita com a cínica naturalidade que lhe é peculiar em rede social, de que a Venezuela “concordou” em enviar entre 30 e 50 milhões de barris de petróleo aos Estados Unidos, poucos dias após uma ação militar que resultou no sequestro de Nicolás Maduro e na morte de dezenas de militares venezuelanos e cubanos, é a confissão pública de um crime geopolítico. Não há verniz jurídico que oculte o essencial: o petróleo foi tomado sob coerção. Vendeu-se a narrativa de “preço de mercado”, mas o mercado, nesse caso, funciona sob a mira de canhões e sanções.

Mais grave ainda é Trump afirmar que os recursos obtidos com a venda do petróleo serão “controlados” por Washington para garantir benefícios ao povo venezuelano - e, convenientemente, ao povo americano. Essa lógica colonial, em que a potência invasora se coloca como tutora moral e financeira do país saqueado, remete diretamente às páginas mais sombrias da história. Hitler também justificou sua expansão territorial alegando proteger minorias, garantir estabilidade e assegurar recursos estratégicos ao Reich. Trump, mutatis mutandis, faz o mesmo: invade, bloqueia, sequestra e, depois, apresenta a conta como se estivesse prestando um favor à humanidade.

Vivemos, assim, uma nova desordem mundial. As relações entre as nações foram transformadas em um jogo bruto, no qual não há regras, apenas força. A ONU tornou-se irrelevante, o multilateralismo foi esvaziado, o direito transnacional virou peça decorativa. Quando um presidente dos Estados Unidos pode anunciar ao mundo que tomou para si o petróleo do país com maiores reservas comprovadas do planeta - 303 bilhões de barris - sem qualquer consequência, fica evidente que a arquitetura global construída após a Segunda Guerra ruiu.

O interesse americano nunca foi segredo. As refinarias da Costa do Golfo dependem do petróleo pesado venezuelano. As “gigantescas companhias petrolíferas” citadas por Trump não entram para reconstruir a Venezuela, mas para reconstruir suas margens de lucro. O bloqueio imposto, que deixou milhões de barris encalhados e estrangulou a economia do país, foi a arma que preparou o terreno para a tomada final.

Diante disso, o silêncio das nações não é neutralidade: é cumplicidade. Se o resto do mundo não se levantar contra esse movimento, que combina expansionismo, desprezo pela soberania e culto à força, estará aceitando que o fascismo do século XXI não marche com botas, mas navegue em petroleiros. Hoje é a Venezuela. Amanhã, qualquer país que ouse contrariar os interesses do novo pirata global.

Oliveiros Marques é sociólogo, publicitário e comunicador político.

* Este é um artigo de opinião, de responsabilidade do autor, e não reflete a opinião do Brasil 247.

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