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EUA pressionam cúpula da segurança na Venezuela após ação militar e sequestro de Maduro

Washington avalia cooptação de aliados de Maduro para garantir estabilidade, acesso ao petróleo e evitar envio de tropas

Diosdado Cabello anuncia desmonte de operação da extrema direita (Foto: Telesur)

247 - O governo dos Estados Unidos passou a considerar integrantes centrais do aparato de segurança da Venezuela como peças-chave e potenciais alvos no cenário político aberto após o sequestro de Nicolás Maduro. A estratégia busca garantir a manutenção da ordem durante a transição e viabilizar os interesses de Washington no país, sem recorrer a uma ocupação militar em solo venezuelano.

De acordo com reportagem agência Reuters, autoridades do governo do presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, enviaram um alerta ao ministro do Interior da Venezuela, Diosdado Cabello, conhecido por sua atuação de linha dura, indicando que ele poderá figurar no topo da lista de alvos norte-americanos caso não colabore para atender às exigências dos EUA.

Cabello exerce controle sobre forças de segurança venezuelanas acusadas de violações sistemáticas de direitos humanos e é apontado como um dos poucos quadros do antigo governo em quem a administração Trump estaria disposta a confiar provisoriamente para evitar um vácuo de poder. Segundo uma fonte ouvida pela Reuters, Washington vê nele uma figura capaz de conter desordens imediatas, ainda que existam fortes preocupações sobre sua disposição em cooperar.

Autoridades norte-americanas temem que rivalidades internas, especialmente entre Cabello e Delcy Rodríguez, possam comprometer o processo de transição. Por isso, intermediários teriam deixado claro ao ministro do Interior que uma postura de enfrentamento poderia levá-lo a um destino semelhante ao de Maduro, capturado em uma operação dos EUA e levado a Nova York para responder a acusações de “narcoterrorismo”, ou mesmo colocá-lo em risco físico.

Apesar disso, eliminar Cabello é visto como uma alternativa arriscada. Avaliações internas indicam que sua retirada abrupta poderia provocar reações de grupos pró-governo, como os chamados coletivos, com potencial de gerar instabilidade e violência nas ruas, um cenário que Washington pretende evitar.

Outro nome considerado alvo potencial é o do ministro da Defesa, Vladimir Padrino. Assim como Cabello, ele responde a acusações de tráfico de drogas nos Estados Unidos e tem uma recompensa milionária estipulada. Para autoridades norte-americanas, sua colaboração é considerada crucial para impedir um vácuo de poder, já que Padrino comanda as Forças Armadas. Uma fonte descreveu-o como menos dogmático e mais propenso a negociar uma saída segura para si próprio.

“Isso continua sendo uma operação de aplicação da lei, e ainda não terminamos” afirmou um funcionário do Departamento de Justiça dos Estados Unidos, sob condição de anonimato, em declaração citada pela Reuters.

Um alto integrante do governo Trump recusou-se a responder perguntas específicas, mas declarou que o presidente está empenhado em exercer “pressão máxima” sobre os remanescentes do poder na Venezuela. Segundo a nota, o objetivo é garantir cooperação com os EUA em temas como migração irregular, combate ao narcotráfico, revitalização da infraestrutura petrolífera e ações “em benefício do povo venezuelano”.

Internamente, a administração norte-americana avalia que a oposição venezuelana, liderada pela vencedora do Prêmio Nobel da Paz María Corina Machado, não teria condições de assegurar a paz social no curto prazo. O cálculo político leva em conta o interesse de Washington em acelerar o acesso de empresas norte-americanas às vastas reservas de petróleo do país e evitar o envio de tropas terrestres, uma medida impopular nos Estados Unidos.

Nesse contexto, o governo Trump teria adotado uma avaliação confidencial da CIA segundo a qual aliados diretos de Maduro estariam em melhor posição para administrar o país de forma interina. A estratégia, segundo fontes, busca evitar um colapso institucional e o risco de golpes internos caso figuras centrais do círculo de poder sejam excluídas abruptamente.

Embora autoridades dos EUA afirmem defender, em algum momento, a realização de novas eleições, não há um cronograma definido. Também não está claro como Washington pretende supervisionar o processo político venezuelano após aquela que já é considerada a maior intervenção norte-americana na América Latina desde a invasão do Panamá, em 1989, numa criticada por especialistas como neocolonial e contrária ao direito internacional.

Por ora, Delcy Rodríguez é vista por Washington como o principal eixo de sustentação do poder no curto prazo. Descrita por assessores do governo Trump como uma tecnocrata aberta ao diálogo, ela seria considerada essencial para avançar em negociações sobre petróleo e governança. Entre as exigências dos EUA estão a abertura do setor petrolífero em condições favoráveis a empresas norte-americanas, o combate ao narcotráfico, a retirada de agentes de segurança cubanos e o fim da cooperação com o Irã.

Além de pressões políticas e da ameaça de novas ações militares, Washington avalia utilizar ativos financeiros ligados a Rodríguez, mantidos no Catar, como instrumento de pressão. Paralelamente, intermediários norte-americanos tentam atrair outros altos funcionários venezuelanos para um arranjo de poder que aceite a forte influência dos Estados Unidos.

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