Trump quer a Venezuela como nova colônia
Mapa do “Estado 51” expõe apetite expansionista dos EUA e reforça necessidade de defesa da soberania venezuelana
Por José Reinaldo Carvalho - Trump quer a Venezuela como colônia, ou sob uma espécie de protetorado, com fins de domínio imperialista, ao publicar um mapa do país sul-americano como “Estado 51” dos EUA. A provocação, reproduzida pela Casa Branca, é uma declaração política de quem volta a tratar a América Latina como quintal, território disponível à chantagem, ao bloqueio e à anexação.
A presidenta interina venezuelana, Delcy Rodríguez, rechaçou a ofensiva e afirmou que seu país seguirá defendendo “integridade, soberania e independência”, lembrando que a Venezuela “não é uma colônia, mas um país livre”. A frase condensa o centro da questão: o que está em jogo é o direito elementar de uma nação existir sem tutela imperial.
A ideia de transformar a Venezuela em 51º estado dos EUA revela a velha lógica colonial com nova embalagem midiática. O mapa publicado por Trump faz parte de um histórico de sanções, operações políticas, pressão econômica e cobiça sobre recursos estratégicos.
Trump já manifestou seu apetite expansionista sobre a Groenlândia, tratou o Canadá como possível “51º estado” e transformou até o Golfo do México em alvo simbólico, ao impor a órgãos federais dos EUA o uso da nomenclatura “Golfo da América”.
No caso venezuelano, a violência simbólica é ainda mais explícita. Não se trata apenas de renomear um espaço marítimo ou fantasiar uma aquisição territorial distante. Trata-se de negar a existência política de um país sul-americano, reduzir sua identidade nacional a uma estampa da bandeira dos EUA e insinuar que sua independência pode ser apagada por vontade de Washington. É a Doutrina Monroe reencenada como meme presidencial.
A resposta de Caracas, portanto, é necessária. Defender a soberania nacional venezuelana significa reconhecer que nenhum país tem o direito de transformar outro em colônia, estado subordinado ou protetorado. A autodeterminação dos povos é princípio básico do direito internacional e condição mínima para qualquer ordem global civilizada.
A mesma lógica aparece nas ameaças contra Cuba. Sanções, bloqueios e advertências de “consequências” buscam dobrar um país que há décadas resiste a políticas de cerco. A pressão sobre Havana e a provocação contra Caracas integram uma mesma estratégia: asfixiar governos considerados hostis, explorar vulnerabilidades econômicas e impor soluções externas em nome da segurança dos EUA. Novas sanções contra Cuba foram anunciadas pelo governo Trump no dia primeiro de maio.
Mas a política de Trump revela também um cálculo seletivo. O imperialismo ameaça com mais facilidade os países que considera vulneráveis. Contra Cuba e Venezuela, fala em punição, bloqueio, tutela e anexação. Diante de potências capazes de responder, o tom muda. No encontro com Trump em Pequim, o presidente chinês Xi Jinping advertiu: “A questão de Taiwan é a mais importante e a mais sensível nas relações China-EUA. Se não for tratada de forma adequada, pode levar a confrontos e até conflitos”. Essa diferença de tratamento expõe a natureza da força. O poder imperial não age movido por princípios universais, mas pela correlação de forças. Onde imagina encontrar fragilidade, avança. Onde encontra capacidade de dissuasão, calcula. Por isso a defesa da Venezuela não é apenas uma causa venezuelana. É uma questão latino-americana, caribenha e mundial: aceitar a naturalização de mapas coloniais hoje é abrir caminho para novas agressões amanhã.
A publicação da Casa Branca deve ser lida como sintoma de uma época perigosa, em que a extrema direita norte-americana tenta reciclar a anexação como piada, a guerra econômica como diplomacia e a humilhação de povos inteiros como espetáculo para redes sociais. A resposta soberanista precisa ser inequívoca: a Venezuela pertence ao povo venezuelano, Cuba pertence ao povo cubano, e nenhum império tem mandato para redesenhar o destino de nações livres.
* Este é um artigo de opinião, de responsabilidade do autor, e não reflete a opinião do Brasil 247.




