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Leopoldo Vieira

Jornalista profissional, pós-graduado em Administração Pública e Ciência Política. Trabalhou como analista sênior de política na Faria Lima (TradersClub) e nos ministérios do Planejamento, Secretaria de Governo e Relações Institucionais nos governos Dilma Rousseff e Lula

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Trump testa Nova Guerra Fria e sugere oportunidade a Lula

'Lula pode desempenhar um papel relevante na mediação da pacificação global, da estabilidade regional e da reorganização do sistema internacional'

Lula, ataque dos EUA contra a Venezuela e Donald Trump (Foto: Divulgação I Reuters)

O ataque militar dos Estados Unidos à Venezuela, culminando no sequestro de Nicolás Maduro, na prática autoriza Rússia e China a realizarem ações análogas em suas zonas de influência — como na Ucrânia ou em Taiwan —, ao mesmo tempo em que testa definitivamente a capacidade de Moscou e Pequim de garantirem a segurança de seus governos aliados e parceiros comerciais nesta nova Guerra Fria.

O discurso do presidente Donald Trump, centrado na exaltação da superioridade bélica e na reivindicação do direito de exploração econômica do Hemisfério Ocidental, transmite a mensagem de que a tolerância à influência do Kremlin e de Zhongnanhai na América Latina chegou ao fim. Ao mesmo tempo, coerente com sua estratégia de avançar e recuar, já acenou em trabalhar com a vice-presidente da Venezuela, Delcy Rodríguez. O suposto declínio da hegemonia americana, ao que tudo indica, não será pacífico, e o destino desse processo permanece incerto.

GROSSA PANCADARIA

O fato de a Venezuela deter as maiores reservas de petróleo do mundo e situar-se em uma região relativamente pacificada confere a essa operação uma gravidade superior à da queda de Muamar Kadafi, na Líbia, por exemplo. Em paralelo, o objetivo declarado de Trump de controlar ativos energéticos acende alertas sobre a cobiça externa potencial em relação à Margem Equatorial, na foz do Amazonas, e à Groenlândia, propriedade do reino europeu da Dinamarca. Por outro lado, não pode ser descartado que drones de Alexander Lukashenko, em algum momento, visitem a residência de Friedrich Merz.

Embora o ataque não tenha alterado de imediato o regime venezuelano, ele concedeu a Trump um trunfo relevante nas negociações com o líder russo, Vladimir Putin, sobre o fim do conflito na Ucrânia. O mesmo racional se aplica à escalada entre Xi Jinping e Taiwan. Assim, é plausível que o desfecho envolva acordos petrolíferos vantajosos não somente aos EUA e o asilo diplomático de Maduro, a menos que Rússia e China aceitem ser vistas como mais capazes de gerar problemas do que soluções para países latino-americanos que buscam relações de alto nível.

EM BUSCA DA NOVA ORDEM

Independentemente do resultado imediato, Trump deu mais um passo decisivo rumo à implosão do sistema internacional estabelecido no pós-1945. Ao demonstrar consciência desse rompimento e enaltecer o êxito de ataques-relâmpago, ele sinaliza que, embora americano, age como herdeiro das visões derrotadas naquela conflagração. Portanto, indica também um mundo mais inseguro, no qual consensos civilizatórios cedem ao risco humanitário produzido pela ética do “faço porque posso” — cada vez mais prestigiada entre círculos de super-ricos, grandes corporações, políticos, burocracias militares e o crime organizado.

Nesse vácuo, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva, empunhando a bandeira da soberania em pleno ano eleitoral, pode desempenhar um papel relevante na mediação da pacificação global, da estabilidade regional e da reorganização do sistema internacional, a depender de sua capacidade de tornar funcional, para esses fins, sua relação privilegiada com Trump, Rússia, China, Europa Ocidental, chavistas, democratas e lideranças latino-americanas que insistem na independência econômica.

Por fim, ao facilitar a execução de interesses russos e chineses em suas zonas de influência, o movimento dos EUA sugere, de forma paradoxal, que a promoção da democracia e dos direitos humanos — inclusão do "andar de baixo" e contenção dos impulsos destrutivos do "andar de cima — continua sendo a principal base para sustentar a soberania nacional, e não o alinhamento a campos ideológicos de novas-velhas superpotências. Nesse contexto, entre múltiplos interesses geopolíticos, tende a ser útil aquilo que melhor posicionar, com segurança, o Brasil economicamente, a América Latina geopoliticamente e o mundo institucionalmente.

* Este é um artigo de opinião, de responsabilidade do autor, e não reflete a opinião do Brasil 247.

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