Tudo se resolve pelo Whats
“A pandemia de pesquisas divide e também diverte as esquerdas”, escreve Moisés Mendes
Dois amigos petistas, um otimista e um pessimista, testam seus sentimentos e suas sabedorias avaliando o último Datafolha. Conversam trocando mensagens pelo Whats, claro. O otimista diz que a melhor informação da pesquisa é esta: Lula obtém uma vantagem moderada.
E explica que a diferença de quatro pontos não oferece o risco de se ver a reação de Flávio acontecer mais adiante sobre uma vantagem maior. Por exemplo, de nove pontos, acima até da diferença de sete pontos que apareceu no Atlas.
Flávio poderia ir recuperando o dano até as vésperas da eleição, como quem sobe escadas correndo, e aí seria muito ruim. Estaria em ascensão depois de levar nove pontos. Com quatro, o feito não seria tão espetacular.
O pessimista diz que esse é apenas um consolo. Que é preciso ver a quase indiferença do eleitor em relação ao caso Flávio-Vorcaro. E que, daqui a pouco, a maioria que mudou de voto nessa pesquisa pode retornar para onde estava, como independente eternamente indeciso.
Esse contingente de indecisos, ou que apenas retarda sua decisão como mania, se divide bem ao meio na hora de votar. Foi assim sempre. O indeciso é um arrogante blasé e por isso esconde o jogo até o último momento, diz o pessimista, que é psicólogo.
E o pessimista repete o que sempre diz: que o voto de direita já decidido está entranhado e que uma variação de dois pontos contra Flávio, de 45% para 43%, não significa nada, é da margem de erro. Assim como a vantagem de Lula, também de dois pontos, de 45% para 47%, está dentro do erro.
O pessimista não dá tempo para que o otimista reaja e diz mais, repetindo sempre que é só para concluir seu raciocínio. Na Argentina, a desaprovação de Javier Milei chegou a 65% em uma pesquisa. Mas quase todas as consultas aos eleitores mostram que ele continua competitivo para a eleição de outubro do ano que vem.
Os argentinos sentem o fracasso do governo, o empobrecimento, as crueldades contra os aposentados, as provas de que Milei é o gângster da criptomoeda. Vivem sob um desalento generalizado que só não atinge os ricos, mas ainda votam em Milei. Principalmente os jovens, que mantêm fidelidade ao fascista, não porque ele seja fascista, mas disruptivo. Ser fascista é apenas um detalhe.
No Brasil, continua o pessimista, só para concluir, o Datafolha mostra que 64% dos eleitores desaprovam a atitude de Flávio de pedir dinheiro para Vorcaro. Mas 43% decidiram que votarão nele. Por que não fecha, nessa e em outras pesquisas? Porque desaprovar não significa desistir de votar no desaprovado por deslize ético ou crime grave.
O otimista tenta falar e escreve: peraí. Mas o pessimista insiste, porque o pessimista geralmente tem o controle das conversas e se considera, em momentos de crise, o dono do melhor lugar de fala. Pessimista tem alvará e currículo Lattes de pessimista.
O pessimista diz então, e agora sim vai concluir: se colocarem Damares no lugar de Flávio, também ela terá os mesmos 43% de Flávio, que são os mesmos 43% que Michelle obteve no Datafolha. Até Eduardo Leite teria o voto que é hoje a soma de decisões da maioria das bases da velha direita com o lastro da nova extrema direita.
Esquece os indecisos e pensa que, na hora de decidir, eles racham ao meio, porque a indecisão deles é previsível, diz o pessimista, que escreve, com pontos de exclamação ao final: a coisa está feia!!!
O otimista, que é professor, diz que Lula vem passando confiança, que está com uma cara boa desde o encontro com Trump, que o governo está ativo, produzindo fatos, e que o caso Flávio-Vorcaro não está nem na metade. E agora somos favorecidos pela decisão da Justiça italiana de negar a extradição de Carla Zambelli.
Como assim? — pergunta o pessimista. E o otimista explica. De volta ao Brasil, as notícias sobre Zambelli iriam tirar o foco do que importa, com debates sobre onde ficaria presa, suas fragilidades, as articulações políticas na cadeia e os pedidos para que fosse libertada. Deixem Zambelli por lá.
Nós estamos montando o cenário e pautando, e eles só se defendem, depois de muito tempo, diz o otimista. Haddad pode surpreender em São Paulo, vamos eleger os dois senadores paulistas, e Juliana Brizola vai ganhar no Rio Grande do Sul. Não está fácil para eles.
É quando o pessimista, que é obeso, o interrompe e diz: peraí que eu vou te ligar, porque saiu agora um Datafolha terrível sobre o que os lulistas pensam das canetas emagrecedoras.
* Este é um artigo de opinião, de responsabilidade do autor, e não reflete a opinião do Brasil 247.




