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Marcelo Zero

É sociólogo, especialista em Relações Internacionais e assessor da liderança do PT no Senado

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Ucrânia: 4 anos de uma evitável e perigosa guerra

A questão central é que, sem o auxílio substancial dos EUA, a Ucrânia está perdida, mesmo com a ajuda prometida pela Europa.

Bandeiras da Rússia e da Ucrânia em foto de ilustração - 01/03/2022 (Foto: REUTERS/Dado Ruvic)

A guerra na Ucrânia é apenas a expressão imediata e “quente” de um conflito que foi basicamente engendrado pelos EUA e aliados já na década de 1990.

Com efeito, os EUA e alguns de seus aliados, principalmente os do Leste europeu, nunca deixaram de considerar a Rússia como uma ameaça potencial à sua hegemonia naquela região. 

Considere-se que Yeltsin e Putin, este último no início de seu primeiro governo, chegaram a solicitar aos EUA que a Rússia fosse incluída num organismo de “segurança pan-europeu”, ou mesmo na Otan. A bem da verdade, Putin fez exatamente essa última solicitação, em 2000. Todos esses movimentos de aproximação, ressalte-se, foram rejeitados, em última instância.

Assim, na década de 90 e no início deste século, a Rússia não se via como uma adversária da Europa. Ao contrário, desejava ser incluída nela. Via-se essencialmente como um país europeísta. Mesmo assim, os EUA e alguns aliados rejeitaram sistematicamente tais pretensões da Rússia e mantiveram uma estratégia de exclusão daquele país e de contínua expansão da Otan para o Leste. Tal estratégia pode ser resumida pela seguinte frase: manter os americanos dentro; manter os russos fora e manter os alemães subordinados

Os EUA, em vez de se aproveitar da extinção da URSS e do Pacto de Varsóvia para criar um ambiente cooperativo com a Rússia, como bem argumenta Jeffrey Sachs, testemunha ocular de toda essa história, preferiram investir na geração de uma agressiva hegemonia absoluta. 

Zbigniew Brzezinski, scholar extremamente influente, que fora assessor presidencial para assuntos de segurança nacional no período de 1977 a 1981, concebeu, já em meados da década de 1990, uma geoestratégia para a Eurásia que implicava, no longo prazo, um novo conflito com a Rússia. 

De fato, a geoestratégia concebida por Brzezinski propunha várias ações de longo prazo concomitantes que conduziam a um acirramento das tensões na Eurásia.

Em primeiro lugar, o fortalecimento da Europa unida, sob a liderança dos EUA. Para tanto, Brzezinski já sugeria, inclusive, a celebração de um tratado de livre comércio transatlântico. Em segundo, o fortalecimento das novas nações independentes da Ásia Central e do Leste Europeu, que surgiram após o colapso da União Soviética, e a consequente expansão da OTAN até a Ucrânia (sim, isso já estava previsto desde a década de 1990, nessa estratégia neocon). Em terceiro lugar, e mais importante, a geoestratégia de Brzezinski previa o enfraquecimento ainda maior da Rússia e o enquadramento de sua política externa nos imperativos geopolíticos dos EUA e seus aliados.

Brzezinski chegou a propor até mesmo uma descentralização territorial da Rússia.

Brzezinski propôs, de fato, um quase desmembramento territorial da Rússia, com a constituição de três grandes repúblicas autônomas: a República da Rússia Europeia, a República da Sibéria e a República do Extremo Leste. 

Segundo Brzezinski, isso permitiria o melhor aproveitamento dos recursos naturais e das potencialidades econômicas locais, já que essa nova conformação enfraqueceria o poder burocrático de Moscou. Além disso, essa nova conformação tornaria a Rússia “menos suscetível” a uma nova “mobilização imperial”.

Naquela época, essa geoestratégia parecia não só inteiramente factível como algo praticamente inevitável. 

A Rússia, reduzida a cacos, economicamente, politicamente e militarmente, teria de aceitar essas imposições. Não haveria alternativas.

Zbigniew Brzezinski, entretanto, aventou, em 1997, um cenário adverso, na sua obra “O Grande Tabuleiro de Xadrez”.

Argumentou ele que:

“Potencialmente, o cenário mais perigoso seria uma grande coligação entre a China, a Rússia e talvez o Irã, uma coligação 'anti-hegemônica' unida não pela ideologia, mas por queixas complementares... Evitar esta contingência, por mais remota que seja, exigirá uma demonstração de capacidade geoestratégica dos EUA. habilidade nos perímetros oeste, leste e sul da Eurásia simultaneamente.”

Mas foi exatamente o que aconteceu. Brzezinski também não conseguiu prever a ascensão de uma liderança nacionalista, como a de Putin, e o reerguimento econômico da Rússia, com base na grande afluência em petróleo e gás, e no posterior fortalecimento de algumas indústrias importantes, como siderurgia, indústrias metais-mecânicas, de transporte etc.

Nesse contexto, a Rússia não podia mais ser pressionada facilmente, como tinha acontecido na era de Boris Yeltsin.

Mesmo assim, essa pressão continuou, apesar das seguidas advertências em contrário de muitos analistas e políticos conservadores dos EUA. 

Dessa maneira, a expansão da Otan para o Leste foi realizada de forma sustentada, apesar das promessas em contrário feitas por James Baker a Gorbatchev (“nenhuma polegada para o Leste”). Em 1999, Polônia, Hungria e República Tcheca foram incorporadas à Otan, apesar dos protestos russos. Numa grande segunda onda, concluída em 2004, Letônia, Estônia, Lituânia, Eslováquia, Eslovênia, Bulgária e Romênia também foram incorporadas, em meio a muitos protestos da Rússia. Em 2009, foi a vez da Albânia e da Croácia. Em 2020, Montenegro e Macedônia do Norte também foram incorporadas à Otan. Em 2024, foi a vez da Finlândia e da Suécia aderirem, já no contexto da guerra. Dos 12 membros iniciais, a Otan passou a contar com 32 membros. 

Observe-se que a Otan foi criada em 1949, pelo Tratado de Washington, já no contexto do início da Guerra Fria. Seu grande objetivo era o de criar um pacto militar e político que fizesse frente à influência da URSS na Europa. Sua existência se justificava no quadro de um conflito geoestratégico que opunha os interesses dos EUA e seus aliados da Europa Ocidental aos interesses da URSS e seus aliados da Europa Oriental, corporificados, por seu turno, no Pacto de Varsóvia.

Finda a antiga Guerra Fria, após o colapso da URSS, o Pacto de Varsóvia foi extinto em 1991. Não obstante, a Otan não só foi mantida como consideravelmente expandida, apesar das promessas em contrário dos EUA.

Na conferência da Otan em Bucareste, realizada em 2008, a Rússia esperava que o organismo renunciasse a se expandir para a Ucrânia e para a Geórgia. Tal não aconteceu, o que levou Putin a se retirar, furioso, da reunião. Angela Merkel, que havia rejeitado a proposta no primeiro dia da reunião, acabou cedendo à pressão dos EUA no segundo dia, atraindo outros votos europeus de países indecisos. 

Na ocasião, Putin declarou que se a Ucrânia entrasse para a Otan, ela o faria “sem a Crimeia e sem o Donbas”. Vejam bem, Putin antecipou o que a Rússia faria há mais de 17 anos. 

Pudera. A eventual incorporação da Ucrânia à Otan poderia colocar tropas ou uma base dessa organização a apenas cerca de 500 quilômetros de Moscou. 

Dessa posição, um míssil hipersônico de alcance intermediário, que pode ser lançado de plataformas móveis, poderia atingir a capital da Rússia em apenas 5 minutos, gerando um tempo de resposta defensiva extremamente curto. Considere-se que os EUA se retiraram do tratado com a Rússia, que regulava esse tipo de mísseis, no primeiro governo Trump.

Agora, imaginem se fosse o contrário. Imaginem um cenário no qual a Rússia tivesse, por exemplo, incorporado ou tentado incorporar o Canadá (membro da Otan) na OSTC, criando a possibilidade de inserir tropas ou mísseis no sul de Québec, a apenas cerca de 500 quilômetros de Nova Iorque. Será que os EUA assistiriam a tudo passivamente? Evidentemente que não. Teriam reagido com extrema agressividade, como fizeram na crise dos mísseis de Cuba, no início da década de 1960, que levou o mundo ao borde de uma guerra nuclear.

Em comparação, a reação de Putin era bastante razoável, embora firme. Queria que os EUA firmassem um tratado de não-agressão com a Rússia e que a Ucrânia não entrasse na Otan. Era, até 2022, uma aposta na paz e na negociação. Não obstante, Biden e Blinken recusaram, acompanhando a posição de todos os governos anteriores dos EUA, Democratas e Republicanos. 

Saliente-se que, com a ascensão de um novo regime na Ucrânia, no qual grupos neonazistas têm considerável influência, eclodiu uma guerra civil na região do Donbas, de maioria russófona. Tal guerra civil já havia matado mais de 14 mil pessoas, sendo cerca de 10 mil civis, a maioria russos, antes do surgimento do atual conflito armado. 

A colocação, em 2021, de mísseis e tropas da Otan na Romênia e na Bulgária, a negativa dos EUA em negociar um pacto de não-agressão e a neutralidade da Ucrânia, a ameaça do regime Kiev de se retirar dos Memorandos de Budapeste (que asseguram a desnuclearização do território ucraniano) e o recrudescimento dos bombardeios contra o Donbas foram as gotas d`água para uma Rússia cansada de promessas não cumpridas e historicamente traumatizada por episódios de quase extermínio.

Tal contextualização geopolítica do atual conflito não é restrita, repito, à esquerda, a setores da esquerda ou a “anti-imperialistas”. 

Como bem advertiram muitos analistas e políticos conservadores dos EUA, como Kissinger, McNamara, George Kennan, John Matlock etc. etc., a injustificada expansão da Otan, combinada com a guerra civil ocasionada pela “revolução laranja”, a qual rompeu com o delicado equilíbrio político interno na Ucrânia, teria sido considerada uma “questão existencial” por qualquer governo russo, não apenas pelo de Putin.

William Burns, atual diretor da CIA e antigo embaixador dos EUA na Rússia, assinalou, em memorando à secretária de Estado, Condoleezza Rice, datado de 2008, que: “a entrada da Ucrânia na Otan é a mais brilhante de todas as luzes vermelhas para a elite russa (não apenas Putin). Em mais de dois anos e meio de conversas com os principais atores russos, desde os funcionários mais graduados do Kremlin até os críticos liberais mais perspicazes de Putin, ainda não encontrei ninguém que veja a Ucrânia na Otan como algo aquém de um desafio direto à existência da Rússia”.

William Perry, Secretário de Defesa de Clinton, chegou a pensar em renúncia, quando seu chefe decidiu fazer uma primeira expansão da Otan. Até Biden, em 1997, reconheceu que tal expansão geraria reações hostis na Rússia.

QUADRO ATUAL

A guerra na Ucrânia, tudo indica, está praticamente resolvida, do ponto de vista militar.

É preciso enfatizar, antes de tudo, que a Rússia nunca teve e não tem condições econômicas e militares de fazer uma guerra de ocupação da Ucrânia e, muito menos, de desencadear uma política imperial no Leste europeu ou na Europa como um todo. 

Isso é devaneio ideológico de gente como Dugin, repetido, no Ocidente, por gente paranoica que quer justificar uma guerra sem fim contra a Rússia. Ou que intenta entender o complexo jogo da geopolítica a partir de premissas moralistas ou pseudomoralistas, dividindo o mundo, de forma simplória e maniqueísta, entre países bons e países malvados. Entre autocracias, ou supostas autocracias, e democracias, ou supostas democracias.

A esse respeito, deve-se entender que Putin, independentemente dos julgamentos de valor negativos que são frequentemente feitos no Ocidente a respeito de seu governo, goza de grande popularidade na Rússia. Com efeito, segundo o Instituto Levada-Center, muito citado pela mídia ocidental, que faz pesquisas de opinião sistemáticas sobre a política russa, a popularidade de Putin se mantém muito alta, desde o final do século passado.

De acordo com esse instituto, desde agosto de 1999, quando começaram as medições, a aprovação pessoal de Putin não cai abaixo de 60%. Não bastasse, qualquer outro governo russo teria reagido de forma semelhante a essa contínua pressão geoestratégica do Ocidente. Essa é a realidade. 

Pois bem, a operação militar da Rússia na Ucrânia envolveu, inicialmente, cerca de 180 mil homens. Uma real guerra de ocupação teria de envolver mais de 500 mil homens, pelo menos. 

A guerra na Ucrânia é, na realidade, o que militarmente se chama guerra de atrito, ou desgaste, que objetiva, do ponto de vista da Rússia:

  1. Assegurar a neutralidade do território ucraniano.
  2. Assegurar o controle da Crimeia e dos 4 oblasts já conquistados (antes eram apenas 2).
  3. Assegurar que a Ucrânia tenha um governo que não seja hostil a Moscou e às minorias russófonas (como era o de Yanukovich, deposto por um golpe apoiado por Washington).

Há, entretanto, setores mais radicais na Rússia, os quais consideram Putin muito moderado, que desejam também o domínio do Sul da Ucrânia (inclusive de Odessa). Isso transformaria a Ucrânia em um país mediterrâneo, sem acesso ao Mar Negro, que passaria a ser, ao seu Norte, um mar russo.

A Turquia vê com verdadeiro pavor essa perspectiva. 

No entanto, parece evidente que essa outra expansão encontraria forte resistência nos EUA e em outros países. 

Putin, que é bastante pragmático, sabe que tem de negociar algo razoável. 

Sabe também que, com Trump, poderia haver uma paz que lhe seria bastante favorável. 

Não porque Trump seja “putinista” ou outro desvario do gênero. 

A realidade é que:

  1. A Ucrânia está derrotada, na prática. A Ucrânia tem um problema sério de reposição de seus exércitos. Após ter perdido cerca de 500 mil homens (entre mortos e incapacitados), encontra dificuldades incontornáveis para incorporar novos conscritos. Caça nas ruas até mesmo idosos para mandar para a frente. A média de idade do exército ucraniano já chega a 41 anos. Esse é um problema demográfico insuperável. No início da década de 1990, a Ucrânia tinha um pouco mais de 50 milhões de habitantes. Mas a emigração e a taxa de fecundidade das mulheres ucranianas, que se mantêm abaixo da taxa de reposição de 2,1%, desde meados da década de 80, fizeram a população se reduzir para 42 milhões, antes do início da guerra. Depois da guerra, com a fuga de refugiados para outros países, a população diminuiu para 36 milhões. A Academia Nacional de Ciência da Ucrânia prevê que, independentemente do conflito, a população da Ucrânia cairá para 25 milhões até 2050. Na realidade, a Ucrânia vive uma catástrofe demográfica crescente, que a impede de constituir forças armadas mais robustas. Trump, no espetáculo midiático do Salão Oval, disse isso na cara de Zelensky. Foi rude e agressivo, mas, nesse ponto, apenas falou a verdade. A única maneira de contornar esse obstáculo estrutural seria pelo envio de um bom número de tropas estrangeiras ao território ucraniano. Enviar mais armas não bastaria. Porém, esse seria um movimento muito perigoso, que poderia conduzir, sim, a uma Terceira Guerra Mundial. Algo que Trump também disse, praticamente aos berros, na cara de Zelensky.
  2. Trump não vê a segurança da Ucrânia e da própria Europa como uma prioridade. E sempre desconfiou da Otan. A vê como algo dispendioso e inútil, que não beneficia os interesses dos EUA, como deveria. Vem dizendo isso desde seu primeiro mandato. Acha que a Europa tem de arcar com sua própria segurança e pressiona para que países europeus invistam cerca de 5% de seu PIB em defesa. 
  3. Trump não quer dispêndios inúteis e, estrategicamente, quer concentrar os esforços dos EUA na contenção da China e do Irã e no controle do continente americano, o seu “quintal” histórico. Também apoia a pretensão de Israel de se expandir em outras áreas do Oriente Médio.
  4. Nesse sentido, uma paz com a Rússia poderia liberar recursos econômicos e militares para essas prioridades. Ademais, uma paz com a Rússia poderia, na avaliação do MAGA, enfraquecer a aliança entre Rússia e China e o próprio BRICS. Seria algo como fazer o que Kissinger fez, mas em sentido inverso. Na década de 1970, Kissinger atraiu a China para enfraquecer o bloco comunista e a União Soviética. Agora, Trump intentaria o oposto: atrair a Rússia para enfraquecer a China e as alianças do Sul Global. Se vai funcionar, é algo muito duvidoso. Não obstante, tem lá sua lógica. 


A questão central é que, sem o auxílio substancial dos EUA, a Ucrânia está perdida, mesmo com a ajuda prometida pela Europa.

Sem os EUA, a Ucrânia acabará perdendo a rede cibernética, satelital e de inteligência que permite a coordenação ofensiva e defensiva das suas tropas. Seria como ficar sem cérebro e olhos. 

Zelensky sabe disso. Por tal razão, mesmo depois da humilhação histórica no Salão Oval, intenta salvar o acordo sobre minérios. Contudo, Trump não está disposto a dar as garantias que Zelensky quer, inclusive no que se refere à devolução dos territórios conquistados pela Rússia. Não quer investir mais numa guerra perdida.

Além disso, a Rússia, país continental, tem mais “bons negócios” a oferecer a Trump que a Ucrânia. Nas negociações bilaterais entre Trump e Putin, que precederam a humilhação de Zelensky, isso foi tratado.

O presidente russo Vladimir Putin afirmou que a Rússia estava pronta para trabalhar com empresas americanas para explorar depósitos de minerais de terras raras na Rússia e em partes da Ucrânia ocupadas pela Rússia, enquanto seu enviado especial para investimento e cooperação econômica com países estrangeiros, Kirill Dmitriev, disse à CNN que o país estava aberto à cooperação econômica em questões como energia (óleo, gás natural e carvão)

"Quero enfatizar que certamente temos muito mais desses recursos do que a Ucrânia", disse Putin sobre os depósitos de terras raras da Rússia, em uma entrevista com o correspondente da mídia estatal Pavel Zarubin.

"A Rússia é um dos países líderes, quando se trata de reservas de metais raros. A propósito, quanto a novos territórios, também estamos prontos para atrair parceiros estrangeiros - há certas reservas lá também", disse Putin, em uma aparente referência às áreas ocupadas pela Rússia na Ucrânia.

Não sabemos o que foi efetivamente tratado ou prometido, mas, para usar a metáfora de Trump, nesse aspecto, e em vários outros, a Rússia tem muito mais “cartas” que a Ucrânia.

Trump trata com desdém o mundo inteiro. Mas é implacável com “fracos” e “derrotados”. E pobres.

A ordem para suspender a ajuda militar à Ucrânia já saiu da Casa Branca. Desde o início da Guerra, os EUA enviaram US$ 188 bilhões de ajuda à Ucrânia para despesas militares, dos quais Us$ 164 bilhões vieram de legislações aprovadas pelo Congresso. Porém, desde que Trump assumiu seu segundo mandato, nenhuma legislação específica de ajuda à Ucrânia foi aprovada. A última legislação, nesse sentido, é de abril de 2024. O dinheiro está minguando. Embora Trump tenha autorizado recentemente que a Europa compre armas dos EUA para enviar à Ucrânia, a ajuda que está chegando, intermitente, não é suficiente para o esforço de guerra ucraniano.

Assim, além do gravíssimo problema demográfico e de insuficiência de homens (especialmente de homens jovens), há a questão da disparidade de equipamentos, que está se acentuando, principalmente em artilharia e força aérea. Os drones ucranianos não são suficientes para compensar esse desequilíbrio fundamental.

A Rússia já conquistou 23% do território ucraniano e segue, aos poucos, mas persistentemente, fazendo avanços, especialmente nas partes do Donbas ainda em mãos dos ucranianos,

Nesse contexto, os analistas sérios não veem perspectivas positivas para a Ucrânia.

Isso ficou claro quando o Grupo de Contato de Defesa da Ucrânia, uma aliança europeia que apoia o esforço de guerra, reuniu-se em Bruxelas em fevereiro de 2025.

Já naquela ocasião, conforme o NYT, Hegseth, o Secretário de Defesa (ou da Guerra, como queiram), expôs as posições do governo Trump sobre esse conflito. 

“Devemos começar reconhecendo que retornar às fronteiras da Ucrânia anteriores a 2014 é um objetivo irrealista.”, começou dizendo Hegseth, para surpresa dos europeus.

Em seguida, afirmou: “Os Estados Unidos não acreditam que a adesão da Ucrânia à Otan seja um resultado realista de um acordo negociado.”

Por fim, Hegseth, segundo testemunhas, teria também dito que “as tropas americanas não se juntariam a uma força de paz após um acordo para encerrar a guerra”.

Enfim, os EUA de Trump não continuariam a apoiar os esforços irrealistas de Zelensky e da Europa.

Boris Pistorius, o ministro da defesa da Alemanha, teria reagido de forma furiosa, segundo as testemunhas consultadas pelo “The NYT”.

“Não acho sensato descartar a adesão da Ucrânia à OTAN e fazer concessões territoriais aos russos antes mesmo do início das negociações”, afirmou, iracundo, o ministro da Defesa, Boris Pistorius. 

Em vão. A posição dos EUA foi mantida.

Ainda segundo o The New York Times, houve uma reunião entre estadunidenses e ucranianos em Jeddah, Arábia Saudita, em março de 2025.

Marco Rubio, nessa ocasião, teria estendido um grande mapa da Ucrânia sobre uma mesa. O mapa mostrava a linha de contato entre os dois exércitos — a linha que divide o país entre os territórios controlados pela Ucrânia e pela Rússia.

“Quero saber quais são suas condições mínimas; o que vocês precisam para sobreviver como país?”, teria perguntado Rubio aos ucranianos.

Mike Waltz, então Conselheiro para Segurança Nacional de Trump, teria entregado a Rustem Umerov, o Ministro da Defesa da Ucrânia, um marcador azul escuro e dito: “Comece a desenhar”.

Umerov, ainda segundo as testemunhas consultadas pelo The New York Times, “traçou a fronteira norte da Ucrânia com a Rússia e a Bielorrússia, depois seguiu a linha de contato através das regiões de Kharkiv, Luhansk, Donetsk, Zaporizhzhia e Kherson”.

“Em seguida, circulou a usina nuclear de Zaporizhzhia, a maior da Europa. De acordo com uma autoridade ucraniana, o Sr. Umerov alertou que os ocupantes russos estavam deixando de fazer a manutenção da usina, arriscando um “desastre nuclear”. A Ucrânia queria recuperá-la”.

Por último, “ele apontou para Kinburn Spit, uma faixa de praia e prado salgado que se projeta no Mar Negro. Recuperar o controle da faixa, explicou ele, permitiria que os navios ucranianos entrassem e saíssem dos estaleiros de Mykolaiv.”

Em outras palavras, os ucranianos bem sabiam, desde aquela época, que para negociar a paz, teriam de estar dispostos a renunciar a cerca de, pelo menos, 20% do seu antigo território e a desistirem também de entrar para a Otan. 

De lá para cá, essas condições, que enfraquecem a posição de Zelensky e dos seus apoiadores europeus, não se alteraram, em substância. Na realidade, se tornaram até mais rígidas, em alguns casos. O domínio de todo o Donbas por Moscou, mesmo as áreas que ainda não foram conquistadas pelos russos, já teria sido aceito como fato pelos EUA.

E, à medida que o tempo passa, a Rússia, como já comentado, vai avançando sobre o território ucraniano e os exércitos desse último país sofrem mais perdas, que não podem mais ser repostas. O tempo joga contra a Ucrânia.

Zelensky e a Europa, que têm delírios sobre a suposta vontade de Putin de estabelecer um domínio sobre todo o continente, numa tentativa de reerguer o “antigo Império Russo”, estão sem perspectivas realistas de manter suas posições, tanto no terreno militar quanto no político.

Isso não significa, contudo, que o “realismo” de Trump em relação à guerra na Ucrânia não tenha limites geopolíticos. 

Embora suas prioridades estratégicas estejam, nesse momento, em outros pontos do planeta, Trump e o Deep State jamais admitiriam que a Rússia se transformasse, de novo, numa nova União Soviética, um rival de peso capaz de se opor aos interesses dos EUA na Eurásia. Nunca houve e nem haverá uma divisão de áreas de influências restritas, como afirmaram alguns.

O MAGA pode ser isolacionista, mas Trump não é. É o contrário do isolacionismo. Intenta impor os interesses dos EUA pela força em todo o mundo. Intenta impor uma desordem hobbesiana ao mundo inteiro. O “Make America Great Again” implica impor os interesses dos EUA em todo o mundo, sem a admissão de rivais que possam fazer frente ou questionar o grande Hegemon. Isso está escrito com todas as letras na Nova Estratégia de Segurança Nacional de Trump. 

Trump aceitaria uma paz na Ucrânia, com relativa expansão territorial da Rússia sobre áreas russófonas, desde que esse país adote uma atitude cooperativa, em relação aos interesses dos EUA, principalmente os econômicos. O que parece já ter sido acordado entre os dois líderes. 

O mais importante, no entanto, é que essa guerra, que era perfeitamente evitável, com um mínimo de racionalidade e negociação, termine logo.

Afinal, é um conflito com grande potencial de expansão geográfica e até mesmo, no limite, de nuclearização.

É um jogo de soma negativa, que ameaça o planeta. E bravatas europeias não a resolverão.

* Este é um artigo de opinião, de responsabilidade do autor, e não reflete a opinião do Brasil 247.

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