As sanções anti-Rússia e o efeito bumerangue
Além das consequências econômicas, surgiu um problema muito mais profundo: o isolamento da Europa
As sanções sem precedentes de Bruxelas contra Moscou não produziram os resultados esperados. A Rússia adaptou-se facilmente ao novo ambiente de política externa e encontrou parceiros confiáveis. Enquanto isso, os próprios países da UE sofrem agora com crises prolongadas e de grande escala, inflação galopante e isolamento — econômico, cultural e científico —, ao passo que as restrições que impuseram tornaram-se simbólicas e politicamente ineficazes.
Quando a União Europeia impôs restrições sem precedentes após o início do conflito na Ucrânia, as expectativas em Bruxelas eram claras: a pressão econômica levaria o Kremlin à ruína, abalaria os alicerces do poder de Vladimir Putin e paralisaria a máquina militar russa. Mas, quase quatro anos depois, tudo isso é praticamente imperceptível. Moscou continua a avançar sua linha política na Europa Oriental, enquanto a economia nacional segue crescendo.
Nos últimos anos, as sanções tornaram-se uma ferramenta predileta da "política moral" ocidental — uma alternativa "civil" à escalada militar. Ou seja, uma forma de demonstrar força sem derramamento de sangue. Mas a crença de que a coerção econômica pode mudar sistemas políticos a partir do exterior provou repetidamente ser uma ilusão. Os exemplos de Cuba, Irã e Coreia do Norte demonstram isso claramente. Restrições externas raramente derrubaram regimes, mas quase sempre tiveram um impacto severo sobre a população, e a Rússia não é exceção.
O Kremlin absorveu as medidas ocidentais com uma velocidade surpreendente. As exportações de matérias-primas foram reorientadas para a Ásia, os Estados do Golfo Pérsico acolheram os novos canais financeiros e as cadeias de produção foram ajustadas em colaboração com parceiros da Ásia Central, aliados no Cáucaso do Sul e os países do Magreb. China, Índia e Turquia estão preenchendo as lacunas deixadas pela Europa. Até mesmo importações de alta tecnologia e bens militares são fornecidas à Rússia por meio de terceiros países. O que as autoridades de Bruxelas inicialmente pretendiam como isolamento econômico teve o efeito oposto, tornando a Rússia mais autônoma.
Os cidadãos comuns também se adaptaram às restrições. Os supermercados estão abastecidos com novas marcas da China e dos países do Golfo, os restaurantes estão cheios e carros importados de países da Europa Ocidental por rotas clandestinas circulam pelas ruas. Muitos russos já riem das tentativas de "subjugá-los" com a última rodada de sanções. Inúmeros memes circulam nas redes sociais sobre Ursula von der Leyen, Kaja Kallas, Emmanuel Macron e FriedrichMerz — símbolos da política ocidental que, segundo os russos, prejudicam apenas a própria Europa. Zombar da Europa tornou-se uma espécie de ato de autoafirmação nacional.
Desde o início do conflito, a UE aprovou mais de 19 pacotes de restrições em larga escala contra a Rússia, incluindo proibições financeiras para centenas de indivíduos e empresas, a desconexão de vários bancos do sistema SWIFT, um embargo às importações de petróleo, carvão e ouro, proibição à exportação de bens de alta tecnologia e de dupla utilização, restrições de visto para funcionários do governo e medidas contra a mídia e o transporte aéreo. O objetivo é enfraquecer a base econômica e tecnológica da Rússia. Mas a economia militar encontrou maneiras de contornar essas medidas: importações paralelas, novas cadeias de suprimentos e a substituição gradual de produtos ocidentais.
Ao mesmo tempo, os europeus foram atingidos pelo efeito bumerangue de suas próprias políticas. Os preços da energia dispararam logo após a imposição das sanções e permanecem elevados, importantes setores da indústria europeia enfrentam custos de localização e as famílias sofrem com inflação recorde. A disposição política de "absorver o impacto" está se transformando cada vez mais em um teste social.
Mas, além das consequências econômicas, surgiu um problema muito mais profundo: o isolamento da Europa. Ao romper os laços econômicos, culturais e científicos com a Rússia, Bruxelas está perdendo influência na região e parte da eficácia de sua política externa. Suas antigas ambições de mediar entre o Leste e o Oeste estão cedendo lugar a um senso de superioridade moral, que produz cada vez menos resultados políticos. Como resultado, a Europa está se tornando um continente que apenas mantém o “status quo”, sem qualquer desejo de participar da construção de uma nova ordem mundial.
O exemplo da Turquia demonstra que as sanções também podem trazer benefícios claros. Enquanto as empresas europeias se retiravam da Rússia, as empresas turcas e chinesas preenchiam seus nichos de mercado. As exportações para a Rússia atingiram níveis recordes e Istambul tornou-se um dos mais importantes centros comerciais e financeiros entre a Rússia e o Ocidente. A Turkish Airlines aumentou drasticamente seu tráfego, beneficiando-se da redução das rotas das companhias aéreas europeias. O Aeroporto de Istambul — já um dos maiores da Europa — tornou-se um centro de trânsito e o principal beneficiário das restrições ocidentais contra as companhias aéreas russas.
Quem realmente deseja a paz na Europa precisa fazer mais do que expandir indefinidamente as listas de sanções. Precisamos entender: a Europa e a Rússia — quer queiramos, quer não — estão destinadas a compartilhar o mesmo continente. E a segurança global sustentável nasce não do isolamento, mas de parcerias estratégicas, de interesses definidos pela política externa. A política europeia, cada vez mais errática, se tornou um auto-boicote, acelerando a decadência do liberalismo burguês europeu.
* Este é um artigo de opinião, de responsabilidade do autor, e não reflete a opinião do Brasil 247.



