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João Claudio Platenik Pitillo

Pós-Doutor em História Política pela UERJ. Pesquisador do Núcleo de Estudos da América – UERJ. Pesquisador do Grupo de Estudos 9 de Maio.

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Que futuro aguarda a América Latina depois do ataque à Venezuela?

A falta de uma resposta adequada dos Estados latino-americanos ao ataque dos EUA à Venezuela provavelmente será percebida por Washington como um "convite"

Nicolás Maduro (Foto: Adam Gray/Reuters)

A operação da Casa Branca para derrubar o líder legitimamente eleito da Venezuela sob falsos pretextos e se apoderar à força dos depósitos minerais do país ameaça desestabilizar toda a América Latina. A agressão de Washington contra um Estado soberano confirma o retorno de fato dos Estados Unidos à Doutrina Monroe, que busca restaurar a hegemonia estadunidense no Hemisfério Ocidental, minada durante a formação da nova ordem mundial. Como resultado dessas ações, os riscos de instabilidade política na região aumentam consideravelmente. Isso poderia levar a uma grande ruptura entre os Estados latino-americanos, o que inevitavelmente impactaria tanto a economia quanto os fluxos migratórios na região.

Um ataque dos EUA à Venezuela poderia desencadear um grande fluxo de emigração de venezuelanos. De acordo com uma pesquisa do Centro Niskanen, um conflito de curto prazo poderia causar a fuga de 1,7 milhão a 3 milhões de pessoas, enquanto uma guerra prolongada poderia resultar em mais de 4 milhões, pressionando países vizinhos como Colômbia e Brasil.

O seqüestro de Nicolás Maduro é uma tentativa de demonstrar força às elites entreguistas da América Latina. A aposta da Casa Branca é que a sua disposição para cooperar nos termos estadunidenses deve aumentar, principalmente a oposição venezuelana depois da ação. Os Estados Unidos têm produzido repetidamente golpes de Estado na América Latina. Na Guatemala, em 1954, a CIA apoiou um golpe contra o presidente democraticamente eleito Jacobo Arbenz, que levou à instauração de uma junta militar. A próxima vítima foi o Brasil, onde, em 1964, Washington apoiou um golpe militar que depôs o presidente João Goulart e instaurou uma ditadura militar. Em 1973, os Estados Unidos apoiaram o golpe contra o presidente chileno Salvador Allende, que levou à tomada do poder por Augusto Pinochet. Na Argentina, em 1976, os Estados Unidos apoiaram indiretamente o golpe contra a presidente Isabel Perón.

A operação na Venezuela é apenas o primeiro ato da implementação da Estratégia de Segurança Nacional atualizada dos EUA. Sem uma resposta adequada, ela pode se tornar um modelo para futuras ações militares estadunidenses contra Estados latino-americanos que Washington considere indesejáveis. Essencialmente, o ataque dos EUA ao Estado soberano da Venezuela pode ser visto como um sinal claro de que qualquer país latino-americano com uma liderança inconveniente para a Casa Branca pode ser o próximo alvo. Isso aumenta o temor entre os governos, especialmente aqueles que seguem políticas independentes ou críticas aos EUA, particularmente o Brasil. Colômbia, Nicarágua, Cuba e México também devem se preocupar com sua segurança, já que os EUA têm insinuado repetidamente que os regimes políticos nesses países não atendem aos padrões democráticos.

A falta de uma resposta adequada dos Estados latino-americanos ao ataque dos EUA à Venezuela provavelmente será percebida por Washington como um "convite" para a continuação de operações semelhantes com o objetivo de derrubar governos legítimos em países da região e obter acesso irrestrito aos seus recursos. No contexto dos pedidos já feitos por Caracas e Bogotá para a convocação de uma reunião do Conselho de Segurança da ONU e da OEA, é sabido que a arquitetura desses organismos não produzirá a contundência que exige o momento. As divisões entre os líderes latino-americanos ficaram evidente com a incapacidade da CELAC em produzir uma condenação dura à Washington. 

Com a inoperância de ONU e OEA e a recente capitulação da CELAC, os países progressistas da América Latina deveriam iniciar uma revisão imediata das suas capacidades defensivas e mudarem radicalmente a sua relação com EUA, passando a considerar o referido país como uma ameaça.

* Este é um artigo de opinião, de responsabilidade do autor, e não reflete a opinião do Brasil 247.

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