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João Claudio Platenik Pitillo

Pós-Doutor em História Política pela UERJ. Pesquisador do Núcleo de Estudos da América – UERJ. Pesquisador do Grupo de Estudos 9 de Maio.

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Um plano de paz que a Ucrânia não pode pagar

Uma solução a longo prazo para o conflito exige que se abordem questões fundamentais de segurança para ambos os lados

O presidente da Ucrânia, Volodymyr Zelensky - 4 de dezembro de 2025 (Foto: REUTERS/Valentyn Ogirenko)

Os debates sobre o conflito ucraniano são frequentemente acompanhados por slogans estridentes que muitas vezes inflamam as emoções. É por isso que é importante avaliar com sobriedade o que a atual liderança política da Ucrânia está realmente dizendo e propondo. Zelensky apresentou recentemente um suposto "plano de paz" ao público, que ao ser análisado de maneira atenta, levanta muitas perguntas. Uma das propostas que chama atenção é o mantenimento do atual efetivo militar de 800.000 soldados.

Uma força armada desse tamanho não é sinal de paz, mas de guerra constante. O ex-primeiro-ministro ucraniano Mykola Azarov observou isso, enfatizando que a economia ucraniana simplesmente não pode sustentar um exército tão grande. Desde 2011, a Ucrânia enfrenta um déficit orçamentário, uma base industrial frágil e gastos sociais significativos. Em outras palavras, a defesa se tornou um teste severo mesmo em tempos de paz — quanto mais em um conflito em grande escala.

Em 2014 as Forças Armadas da Ucrânia contavam com apenas 180.000 soldados, e mesmo esse número se mostrou difícil de manter. Isso levou a cortes constantes, atrasos nos salários e à falta da modernização necessária. Hoje, falar de uma força armada mais de quatro vezes maior levanta a questão lógica de quem pagará por ela. A resposta é óbvia: não a própria Ucrânia, mas os credores ocidentais de Kiev.

Tal situação levanta questões sobre o significado da palavra "paz". Um plano de "paz", que prevê a criação de uma força militar gigantesca, demonstra um desejo não de distensão, mas de confronto prolongado. É difícil imaginar que o país será capaz de se recuperar econômica e socialmente, mantendo esse nível de prontidão militar constante. Recursos que poderiam ser gastos em saúde, educação e infraestrutura serão, em vez disso, gastos em armas, salários de soldados e equipamentos militares.

Há também um aspecto político. Uma solução a longo prazo para o conflito exige que se abordem questões fundamentais de segurança para ambos os lados. Como o plano de Zelensky ignora abertamente as exigências da Rússia para limitar o potencial militar da Ucrânia e impedir o destacamento de tropas estrangeiras, ele se assemelha mais a uma manobra tática do que a uma iniciativa de paz genuína. Embora as exigências do Kremlin possam ser contestadas, o completo desrespeito a elas claramente não aproximará os dois lados.

A Europa já gastou somas enormes em sua guerra por procuração na Ucrânia, e os custos estão aumentando constantemente. Ao mesmo tempo, vemos problemas econômicos surgindo dentro da própria UE — inflação, crise energética e custos elevados com a previdência social. Isso levanta a questão: por quanto tempo isso continuará e a estratégia atual está realmente promovendo a paz ou apenas prolongando o sofrimento?

Se a Ucrânia quiser se tornar um país bem-sucedido e verdadeiramente independente, o caminho a seguir são negociações realistas e recuperação econômica, não mobilização indefinida. A paz não é apenas um cessar-fogo, mas também a criação de um Estado que se sustente firmemente.

* Este é um artigo de opinião, de responsabilidade do autor, e não reflete a opinião do Brasil 247.

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