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Olímpio Cruz Neto

⁠Jornalista e analista de Risco Institucional e Geopolítica. Foi consultor do Novo Banco de Desenvolvimento (NDB) em Xangai, diretor de Relações Institucionais da GAC Brasil e secretário de Imprensa da Presidência da República

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Um desastre que se aproxima

Em Dubai, o barril já bateu em US$ 166. O Brasil precisa sair da armadilha enquanto exporta o petróleo e importa a crise do diesel

Miniaturasmodelos impressos em 3D de bombas de petróleo, bandeira do Irã e gráfico de alta da bolsa (Foto: Dado Ruvic/Reuters)

O conflito aberto no Golfo Pérsico, com a chuva de mísseis e drones que estão se espalhando pelo Oriente Médio, vai entrar na quarta semana. E o avanço do petróleo para patamares superiores a US$ 160 por barril mostra que não estamos diante de um episódio de volatilidade. Agora, o mundo assiste à manifestação de uma mudança estrutural. É uma ruptura. Estamos diante da incapacidade do sistema energético global de absorver choques geopolíticos sem ruptura de preços, fluxos e previsibilidade.Nesta semana, a revista The Economist descreveu a escalada no Golfo sob o título “Operation Blind Fury”, apontando para a perda de controle sobre a dinâmica de segurança na região, numa crítica direta à administração de Donald Trump. De fato, o Estreito de Ormuz — por onde transita cerca de um quinto do petróleo mundial — agora opera sob risco permanente. E não se trata apenas de oferta. A crise é na entrega, condicionada a decisões políticas, mísseis e drones.

O mercado precificou isso em Dubai, com o barril cravando a assustadora marca de US$ 166. Para o Brasil, o problema não é o barril de óleo cru. É o diesel. Cerca de um quarto do diesel consumido no país é importado. Mais de 60% da carga nacional depende do transporte rodoviário. O fato de o país ter abandonado investimentos em ferrovias lá atrás agora nos deixa na seguinte encruzilhada: o diesel passou a ser o principal canal de transmissão de custos da economia brasileira.

Quando o diesel sobe, sobe o frete. Se o frete sobe, também há uma elevação do preço do alimento. E quando o quilo do arroz alcança patamares elevados, não se escapa da pressão política. Essa cadeia é direta, rápida e difícil de conter. Não há política tributária capaz de neutralizar de forma sustentada um choque de tal magnitude. O país não está diante apenas de um problema de preços, mas de arquitetura econômica.

E, não podemos esquecer, essa arquitetura foi deliberadamente alterada. A partir de 2016, sob os governos de Michel Temer e posteriormente de Jair Bolsonaro, o Brasil adotou uma estratégia de reconfiguração do seu sistema energético com foco em desalavancagem, abertura de mercado e redução do papel coordenador do Estado. Essa é a realidade que o mercado ainda  subestima. 

No caso da Petrobrás, a nova arquitetura se traduziu na venda de ativos de refino e distribuição, além da redefinição do papel como empresa voltada prioritariamente à exploração e produção. O efeito foi a perda de integração de um sistema que, até então, permitia algum grau de amortecimento interno de choques externos. Agora, o espaço de coordenação é menor.Já no setor elétrico, a privatização da Eletrobrás retirou do Estado o principal instrumento de coordenação de longo prazo em geração e transmissão de energia. Em um momento em que energia, tecnologia e segurança nacional se tornam dimensões inseparáveis, a decisão tomada pelo governo Bolsonaro reduziu a capacidade de planejamento estratégico do país.

Não se trata de um juízo ideológico. É uma constatação operacional: o Brasil trocou capacidade de coordenação por eficiência financeira de curto prazo. O resultado é um “sistema mais leve”, mas que agora se revela profundamente vulnerável. Mas esse não é o ponto final da crise de 2026. Há um paradoxo ainda mais grave.

O Brasil é um grande exportador de petróleo bruto. Em momentos de alta de preços, como agora, o país vai capturar uma renda extraordinária em dólar por meio de royalties, participações especiais, dividendos e exportações. Isso é bom. Mas, ao mesmo tempo, estamos importando um diesel caro e absorveremos o impacto inflacionário dessa mesma commodity que vendemos. Então, vamos ganhar de um lado e perder de outro.

Resumindo, exportamos petróleo bruto, ao mesmo tempo que importamos a crise do diesel caro. Tal assimetria não é inevitável, mas é fruto de uma escolha. Então, como converter a renda extraordinária do petróleo em capacidade de reduzir a dependência do próprio petróleo? Em vez do país monetizar a commodity – e terceirizar a solução –, podemos inverter a lógica.

A correção desse descompasso exige decisão política clara: vincular parte da renda extraordinária do petróleo bruto que será vendido a preços estratosféricos a um programa permanente de desacoplamento energético e logístico. A ideia é que sempre que o preço internacional ultrapassar uma banda de referência, a parcela extraordinária dessa renda seja direcionada a um fundo de soberania energética e logística, com uma missão definida: reduzir a exposição estrutural do país ao diesel e ao transporte rodoviário.

Não se trata aqui de política ambiental. Mas de gestão de risco. Estamos diante de uma guerra que trará consequências graves ao país. É uma questão de semanas, meses. E se a guerra se prolongar por mais tempo? Então, é hora de ter foco. 

E se o país substituísse progressivamente o diesel na carga pesada por alternativas como biometano, diesel renovável e eletrificação de corredores logísticos? Poderíamos expandir a infraestrutura ferroviária e a intermodalidade. E desenvolver uma base industrial ligada à nova economia energética. O governo poderia alinhar Finep, BNDES e instituições de pesquisa a uma lógica de indução tecnológica orientada por missão. Tudo sob uma lógica simples: usar a renda extraordinária do petróleo para financiar a redução da dependência do petróleo.

Isso não implica reverter decisões passadas nem reestatizar ativos – comprar a BR Distribuidora de volta e mais os gasodutos e refinarias, além de retomar o controle sobre a Eletrobrás. Não é isso. Mas o desafio é igualmente relevante: reconstruir a capacidade do Estado de coordenar, induzir e planejar.

Hoje, o país faz o oposto. Trata a alta do barril como evento fiscal e distribui seus efeitos via preços, inflação e perda de competitividade. Enquanto isso, outras economias operam sob lógica estratégica.

A Economist noticiou agora que a China se consolidou como um dos principais competidores na corrida pela fusão nuclear comercial. O projeto BEST, em construção em Hefei, deve ser concluído até 2027 e servirá de base para um reator de demonstração no início da próxima década. O esforço integra uma estratégia mais ampla que conecta energia, indústria e inteligência artificial. A premissa do parceiro do BRICS é clara: energia abundante, previsível e controlável. Isso é base de poder.

O contraste com o Brasil é evidente. Enquanto o país exporta petróleo bruto e consome renda energética como fluxo financeiro, outras economias utilizam instrumentos de política industrial para reduzir vulnerabilidades e construir autonomia de longo prazo.

O denominador comum, portanto, não é ambiental. É a geopolítica se impondo. A energia deixou de ser insumo. É agora, mais do que nunca, poder. E, nesse contexto, a ausência de uma estratégia energética integrada transforma choques externos em crises internas e oportunidades de renda em desperdício estratégico. 

Daí que o barril a US$ 166 em Dubai não é apenas um alerta de mercado, mas um grito de que a hora é de racionalidade estratégica. O Brasil pode continuar exportando petróleo bruto e importando inflação. Ou pode usar essa renda para financiar a ruptura que nunca fez. 

A diferença entre um caminho e outro não está no preço do barril. Está na capacidade de decidir o que fazer com ele.

No Brasil, o preço do diesel nunca foi apenas um dado macroeconômico. Ele é o termômetro da paz social e o veredito implícito sobre a longevidade de qualquer governo. Ignorar a urgência de uma ruptura estrutural em nome da inércia burocrática ou de paliativos fiscais não é apenas um erro estratégico — é um risco político mensurável.

No cenário de Dubai a US$ 166, a soberania energética deixa de ser um projeto de longo prazo para se tornar condição mínima de governabilidade. A escolha é simples: ou o país financia a sua própria autonomia agora — ou continuará financiando, na bomba, a próxima crise.

* Este é um artigo de opinião, de responsabilidade do autor, e não reflete a opinião do Brasil 247.

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