Um desfile de carnaval como arma eleitoral
A tempestade fabricada contra Lula e o ensaio geral da deslegitimação de 2026
O desfile da Acadêmicos de Niterói em homenagem ao presidente Luiz Inácio Lula da Silva foi rapidamente convertido em arma política. O que deveria permanecer no território simbólico do Carnaval foi deslocado para o centro de uma operação de desgaste em pleno ano pré-eleitoral.
Não se tratou apenas de uma polêmica cultural.
Tratou-se de um movimento político calculado.
A reação organizada de setores conservadores, a amplificação midiática enviesada e a exploração digital massiva revelam algo maior: o episódio foi incorporado a uma estratégia de deslegitimação eleitoral que já se desenha para 2026.
O desfile não produziu a crise.
A crise foi fabricada a partir dele.
O alerta ignorado: o “cavalo de Troia”
Dois dias antes do desfile, em 13 de fevereiro, o ex-marqueteiro João Santana publicou um alerta que, à luz do que se seguiu, soa premonitório:
“Recorrendo à teoria dos jogos, me parece que se produzirá um cenário de soma negativa — onde todos saem perdendo. A relação entre carnaval e política sempre foi um jogo delicado.”
E completou:
“Os Acadêmicos de Niterói deram um cavalo de Troia para Lula.”
Não era um juízo moral. Era leitura estratégica.
Em ambiente polarizado, qualquer símbolo pode ser sequestrado narrativamente. A extrema direita opera exatamente nesse terreno. Ela não precisa de fatos sólidos; precisa de imagens manipuláveis.
O desfile forneceu imagens.
O restante foi operação política.
O “strike” e a mobilização calculada
A Frente Parlamentar Evangélica reagiu com notas de repúdio, discursos inflamados e mobilização digital coordenada. O deputado e pastor Otoni de Paula classificou o desfile como um:
“Strike de ridicularização contra evangélicos, conservadores, a Igreja e a família tradicional.”
A linguagem não é casual. É linguagem de guerra cultural.
A reação não pode ser lida apenas como indignação religiosa. Ela cumpre função política: reforçar identidade de grupo, mobilizar base e produzir desgaste ao governo em ano decisivo.
O Carnaval foi instrumentalizado como gatilho.
Agenda-setting: quando o enquadramento vem antes dos fatos
Parte da mídia hegemônica atuou como vetor de amplificação por meio de dois mecanismos clássicos: agenda-setting e enquadramento narrativo.
Manchetes repetidas em série:
- “Escola que homenageou Lula é rebaixada”
- “Com enredo sobre Lula, escola é rebaixada”
O leitor é induzido a estabelecer uma relação causal. Mas ao ler as matérias, surgem apenas problemas técnicos:
- alegorias presas,
- atrasos na dispersão,
- falhas de evolução,
- perda de pontos operacionais.
Erros que derrubariam qualquer escola.
O rebaixamento nada teve a ver com Lula.
Mas os títulos foram construídos para sugerir que teve.
Esse é o mecanismo clássico. Primeiro se molda a percepção; depois se apresentam os fatos já enquadrados.
Não é apenas cobertura. É disputa de narrativa.
O mito do rompimento com os evangélicos
Outro eixo da operação foi a tentativa de construir a ideia de um rompimento estrutural entre Lula e o eleitorado evangélico.
Trata-se de simplificação grosseira.
O voto evangélico é diverso e atravessado por:
- renda,
- emprego,
- políticas sociais,
- segurança pública,
- região,
- geração.
Redes sociais amplificam indignação momentânea. Não necessariamente alteram comportamento eleitoral consolidado.
A reação mais intensa partiu, em grande medida, de segmentos que já estavam na oposição.
O uso político do ruído
O impacto real do episódio foi produzir ruído estratégico:
- Material simbólico explorável pela extrema direita.
- Reciclagem da narrativa de que a esquerda despreza valores religiosos.
- Desvio de foco de temas econômicos e sociais favoráveis ao governo.
Esse ruído não é acidental.
É funcional.
Serve para manter o ambiente em tensão permanente.
De 2018 a 2026: o método reaparece
O Brasil já assistiu a esse filme.
Em 2018, a deslegitimação política e institucional foi elemento central do ambiente eleitoral. Hoje, observa-se a construção de um novo ciclo de tensionamento narrativo.
A lógica é conhecida:
- criar clima de desconfiança,
- amplificar conflitos simbólicos,
- desgastar continuamente,
- questionar legitimidade antes do voto.
O desfile foi apenas um episódio dentro desse processo.
Um ensaio.
Guerra informacional e inteligência artificial
O cenário de 2026 será ainda mais agressivo. A desinformação opera agora com:
- deepfakes,
- vídeos sintéticos,
- manipulação em escala,
- segmentação algorítmica.
A guerra informacional será permanente. O episódio do Carnaval funcionou como teste de estresse: imagens recortadas, narrativas infladas, indignação amplificada e enquadramentos prontos para viralizar.
Isso não terminou com a Quarta-feira de Cinzas.
O TSE no epicentro da tempestade
O Tribunal Superior Eleitoral terá papel central nesse ambiente. E há um dado institucional incontornável. A presidência da Corte deverá estar sob o comando do ministro Nunes Marques justamente no período mais sensível da campanha de 2026.
A posse ocorre tradicionalmente em agosto do ano de transição — exatamente quando a disputa se intensifica, a propaganda entra em fase crítica e a guerra digital atinge seu auge.
Isso significa que o TSE enfrentará:
- avalanche de conteúdos manipulados por IA,
- campanhas de desinformação coordenadas,
- tentativas de deslegitimação preventiva do processo eleitoral.
O episódio do desfile é um microcosmo do que pode vir em escala ampliada.
O que não mudou
Apesar do barulho:
- Não há evidência de perda líquida significativa de votos.
- A base progressista não se afastou.
- A reação mais intensa partiu de quem já não votaria em Lula.
O impacto foi mais narrativo do que eleitoral.
Mas narrativas moldam percepções.
E percepções moldam o ambiente político.
Carnaval não decide eleição — mas pode ser usado para tentar
É legítimo discutir timing.
É legítimo avaliar custo político.
O que não se pode fazer é aceitar a narrativa adversária como diagnóstico.
Transformar um desfile em prova de rompimento estrutural é parte de uma estratégia maior de desgaste contínuo.
O objetivo não é ganhar um debate cultural.
É acumular camadas de deslegitimação até o momento eleitoral.
O ponto central
A polêmica do desfile não é um evento isolado. É um sintoma.
Sintoma de um ambiente em que qualquer símbolo pode ser transformado em arma.
Sintoma de uma estratégia que aposta no desgaste permanente.
Sintoma de uma disputa que já começou — mesmo sem campanha oficial.
O Carnaval passou.
A operação política continua.
Teria sido melhor adiar para 2027?
A pergunta incômoda precisa ser feita. Teria sido mais prudente deixar a homenagem para 2027, com o ambiente eleitoral já resolvido? No fim, não fornecemos munição previsível para um ataque igualmente previsível?
A resposta não é simples. Mas a própria pergunta revela a armadilha.
Se qualquer manifestação cultural puder ser convertida em “prova” de desrespeito religioso, se qualquer sátira puder ser reempacotada como ofensa institucional, então não haverá momento seguro. Nem em 2026. Nem em 2027.
O problema não é o desfile.
É o método.
O que se viu foi um ensaio geral de uma guerra informacional que tende a se intensificar. A avalanche de conteúdos manipulados por inteligência artificial, deepfakes e campanhas coordenadas já está no horizonte. O episódio do Carnaval funcionou como teste de estresse.
Isso não terminará com a Quarta-feira de Cinzas.
Vai escalar.
O que está em jogo
A experiência de 2018 mostrou o que acontece quando a desinformação corre solta e a legitimidade do processo eleitoral passa a ser questionada antes mesmo da votação.
O que se desenha agora é a tentativa de repetir o método em escala ampliada e tecnologicamente mais sofisticada.
O Carnaval vai passar, como passaram tantos outros.
Mas o dilúvio de mentiras que se organiza para 2026 não passará sozinho.
Será enfrentado — ou não.
E o que está em jogo não é apenas a imagem de um presidente em um carro alegórico.
É a integridade do processo eleitoral.
É a capacidade das instituições de resistir à guerra narrativa.
É a disputa pelo próprio sentido de realidade.
A tempestade em torno do desfile foi fabricada.
A próxima será maior.
E, desta vez, não virá em forma de alegoria.
* Este é um artigo de opinião, de responsabilidade do autor, e não reflete a opinião do Brasil 247.



