Uma análise da realidade da população trans no Brasil em 2025/2026
"O perfil das vítimas segue um padrão preocupante", escreve a colunista Sara York
Em 2025, indicadores recentemente publicados sobre a situação da população trans no Brasil revelam uma realidade marcada por desafios profundos em duas frentes centrais: empregabilidade e violência letal. Apesar de pequenas melhorias em alguns números, o padrão de exclusão social e letalidade continua entre os mais graves do mundo.
A imagem mostra mais, apresenta um evento organizado com sensibilidade política e rigor acadêmico, sob a liderança de Renan Quinalha dentre outros professores, foi um evento que consolidou-se como um marco na articulação entre universidade, movimento social e políticas públicas. Um dos momentos mais emblemáticos foi a presença de Valdirene, reconhecida como a primeira mulher trans operada no Brasil, que, aos 85 anos, compartilhou sua trajetória de vida, resistência e memória.
O encontro simbolizou a grandeza de uma universidade comprometida com a história viva da população trans, promovendo escuta, reconhecimento intergeracional e produção coletiva de saber. Lembremos que no dia 29 de janeiro de 2026, o Brasil celebra o Dia Nacional da Visibilidade Trans e Travesti — instituído em 2004 a partir de um marco histórico de mobilização no Congresso Nacional — , a data assume um significado ainda mais profundo diante dos dados recentes sobre exclusão, violência e resistência.
Criado a partir da campanha “Travesti e Respeito”, lançada pelo Ministério da Saúde em diálogo com ativistas, o dia simboliza a luta por cidadania, dignidade e reconhecimento. Coincidindo também com o Dia Mundial da Luta contra a Hanseníase, a data convoca a sociedade a refletir sobre como corpos historicamente estigmatizados seguem sendo atravessados por políticas de invisibilização, abandono institucional e negação de direitos, ao mesmo tempo em que produzem, cotidianamente, estratégias de sobrevivência e afirmação de vida.
Mercado de trabalho: retração de oportunidades e desemprego elevado
Os dados de 2025 relativos ao mercado de trabalho, apresentados pela Organização TransEmpregos, para pessoas trans no Brasil mostram retrocessos significativos em comparação com o ano anterior. Segundo o relatório anual de um dos maiores projetos de empregabilidade desse segmento:
- 2.672 empresas parceiras divulgaram vagas, um recuo de 8% em relação a 2024.
- 1.125 oportunidades foram postadas — 39% a menos.
- Apenas 304 profissionais foram efetivamente empregados, uma queda de 71% comparada ao ano anterior.
- 40,3% das pessoas empregadas têm graduação, mestrado ou doutorado.
- O portal registra perfis em todas as unidades federativas do país, sinalizando capilaridade geográfica.
A combinação de menos vagas publicadas e de um mercado de trabalho menos receptivo indica que as barreiras à inserção formal permanecem severas, mesmo para candidatos com altos níveis de escolaridade.
Economistas e ativistas veem nesses números a marca de uma exclusão estrutural uma vez que as pessoas trans muitas vezes enfrentam discriminação direta nos processos seletivos, falta de políticas corporativas internas de inclusão e ausência de redes de apoio institucional que garantam estabilidade no emprego.
Estudos independentes sobre o mercado de trabalho apontam que a inserção de pessoas trans em empregos formais no Brasil segue sendo a exceção, não a regra, e que há grandes disparidades em função de gênero, raça e outros marcadores sociais.
Violência letal: Brasil continua no topo mundial dentre os países pesquisados
No campo da violência contra pessoas trans, um relatório voltado à sistematização desses casos no país indica que, em 2025, aproximandamente 80 pessoas trans foram assassinadas em atos motivados por discriminação e transfobia, segundo dados compilados em dossiês de referência da própria comunidade. Investigação que vem sendo feita desde o final do ano de 2010 por ativistas trans como Indianarae Siqueira, em leituras públicas iniciais feitas pela atriz e pedagoga Wescla Vasconcelos.
Embora os dados do Trans Murder Monitoring de 2025 indiquem uma oscilação estatística em relação aos 122 assassinatos registrados em 2024, o Brasil mantém a liderança global em homicídios de pessoas trans e travestis entre os países pesquisados. É fundamental ressaltar, sob o viés polissêmico da informação, que esta posição de destaque — ocupada consecutivamente há quase duas décadas — reflete apenas os territórios com monitoramento ativo, uma vez que vastas regiões da África, Ásia e Oceania permanecem sem levantamentos oficiais ou independentes. Essa ausência de dados, como aponta a presidenta da Rede Trans Brasil, Tathiane Araújo, é uma estratégia de invisibilização política: “se o problema não existe oficialmente, não há verba nem interesse político em resolvê-lo”.
O perfil das vítimas segue um padrão preocupante: majoritariamente jovens trans negras entre 18 e 29 anos, muitas em situação de vulnerabilidade socioeconômica e assassinadas em espaços públicos. Estados como Ceará e Minas Gerais estiveram entre os que registraram mais casos naquele ano. Especialistas que analisam esses dados alertam que a redução numérica não necessariamente indica uma diminuição real da violência estrutural. A subnotificação — causada pela falta de reconhecimento formal de identidades trans em boletins de ocorrência, pela invisibilização nos sistemas de segurança pública e pela dependência de fontes midiáticas para catalogar casos — é um fator que pode distorcer o panorama.Como educadora-jornalista e cientista social, estruturei os dados do Dossiê 2026 em um texto narrativo que preserva o rigor acadêmico e a urgência da pauta. Atentei para o viés polissêmico que você solicitou anteriormente: o dado aqui não é apenas um número, é um instrumento de luta contra o apagamento.
A geografia da sobrevivência
O cenário das políticas públicas para a população trans no Brasil em 2026 é marcado por um paradoxo: enquanto o Estado mantém lacunas históricas de dados oficiais, a sociedade civil organizada, liderada pela Rede Trans Brasil, consolidou uma tecnologia de monitoramento que completa agora uma década de existência. Sob a premissa de que “sem dados, não há problema” , o novo dossiê revela que a produção de estatísticas é, em si, um ato de sobrevivência política e preservação da memória contra a transfobia.
A análise da “Geografia dos Corpos Trans” demonstra que a violência não é um fenômeno isolado, mas uma engrenagem da necropolítica — um regime que dita quem deve morrer e cujas vidas são desprovidas de valor. Este sistema de morte social opera para proteger a cisgeneridade como padrão normativo, empurrando travestis e pessoas trans para as margens do concreto urbano e das garantias fundamentais” relata uma das autoras, a professora Sayonara Nogueira.Para compreender essa realidade sem reducionismos, o texto propõe uma lente interseccional:
- O Recorte de Raça e Classe: O cruzamento de opressões explica por que as travestis e mulheres trans negras constituem o grupo mais vulnerável, evidenciando que a transfobia no Brasil é inseparável do racismo estrutural e da herança colonial.
- A Disparidade de Vivências: Como aponta o dossiê, a realidade de uma mulher trans branca e rica é radicalmente distinta da vivenciada por uma travesti negra e periférica, provando que raça e classe alteram a própria natureza da violência.
- O Espaço Urbano como Barreira: A estrutura das cidades — do concreto aos muros — reflete preconceitos que segregam corpos dissidentes, transformando o espaço público, que deveria ser democrático, em um território hostil e segregador.
Apesar do cenário de hostilidade, o monitoramento aponta fissuras de esperança e avanços significativos na área da educação. Em 2024, identificou-se que mais de 9.000 estudantes trans utilizaram o nome social nas redes estaduais de ensino em todo o país. Esse dado é uma vitória estratégica, pois permite pressionar por políticas educacionais que combatam a exclusão escolar, uma das raízes da precarização dessas trajetórias de vida.
O trabalho da Rede Trans Brasil, que hoje conta com 72 entidades filiadas e alcance em todas as instâncias governamentais , reafirma que a saúde integral para essa população vai além do acesso a tratamentos: exige moradia, trabalho, segurança e a dignidade de ser lida pelo Estado como sujeito de direitos.
Nesse mesmo movimento de fortalecimento coletivo, 2025 e 2026 também foram atravessados por iniciativas formativas fundamentais, como a 2ª Jornada The Black Trans — realizada em Brasília, que reuniu ativistas, pesquisadoras e educadoras comprometidas com a transformação social. Com a educação no centro do debate, o encontro foi marcado por mesas potentes, reflexões urgentes e pela presença de lideranças como Erika Alcântara, Dayane Louise e Letícia Carolina, cujas trajetórias articulam militância, educação e defesa das vidas trans. Sob a coordenação e o apoio do FONATRANS, presidido por Jovanna Baby, o evento reafirmou que formação política, acesso ao saber e construção de redes são estratégias centrais de resistência, visibilidade e futuro. Em um país que historicamente nega oportunidades, investir em educação é também produzir permanência, autonomia e justiça social.
Conexões entre exclusão no emprego e vulnerabilidade à violência
A correlação entre dificuldades de inserção no mercado formal e maior exposição à violência não é mera conjectura. A marginalização social, associada a altas taxas de desemprego e exclusão educacional, frequentemente empurra pessoas trans a atividades de sobrevivência em contextos precários — inclusive o trabalho sexual, que expõe corpos a riscos mais altos de violência física e homicídio. Estudos sobre desigualdade ressaltam que a privação econômica e a falta de redes de proteção social elevam a vulnerabilidade de grupos marginalizados.
Assim, as estatísticas de 2025 pintam um quadro em que direitos básicos — acesso a trabalho digno, proteção contra discriminação e segurança pública — permanecem distantes para muitas pessoas trans no Brasil. Apesar de alguns ganhos formais registrados em pesquisas de empregabilidade, o conjunto dos dados indica que a sociedade e o Estado ainda enfrentam enormes desafios para reverter padrões de exclusão que atravessam educação, mercado de trabalho, justiça e segurança.
Em meio a esse cenário de estatísticas duras e persistentes violações de direitos, 2025 também foi marcado por um deslocamento simbólico relevante no campo da representação. Foi o ano em que a presença trans na dramaturgia brasileira consolidou-se de forma mais consistente, especialmente com a trajetória de Maria Clara Spinelli, primeira atriz trans a protagonizar uma novela em horário nobre, ao interpretar Renée em Elas por Elas, marco histórico da televisão nacional. Ao lado dela, artistas como Valéria Barcellos e Gabriela Loran fortaleceram esse movimento ao ocupar, com competência e densidade, espaços na TV, no cinema e no teatro, ampliando as possibilidades de identificação e reconhecimento. Seus trabalhos contribuíram para romper com décadas de estigmatização midiática, afirmando personagens atravessadas por afeto, contradições e projetos de vida. Para além da ficção, essa presença constitui uma forma de pedagogia pública, produção de memória e disputa simbólica, demonstrando que existir com dignidade na cultura também é um gesto político em um país ainda organizado por profundas desigualdades.
O fato é que, em um país marcado por tanta violência, não podemos deixar de reconhecer e celebrar também alguns avanços. Nesse sentido, faço coro ao Prêmio Luiz Gama e Esperança Garcia, concedido pelo Ministério dos Direitos Humanos, e à imortalidade nas academias de Letras e Artes, que passaram a reconhecer trajetórias como a minha, a de Sara York, e a de Liniker, afirmando nossas existências como parte permanente da história cultural brasileira.
* Este é um artigo de opinião, de responsabilidade do autor, e não reflete a opinião do Brasil 247.



