Brasil continua líder global em assassinatos de pessoas trans, alerta dossiê
De acordo com a Associação Nacional de Travestis e Transexuais (Antra), o número de mortos diminuiu, mas a violência contra a população LGBT segue em alta
247 - O Brasil voltou a ocupar, em 2025, a posição mais grave no ranking mundial de assassinatos de pessoas trans, mantendo o primeiro lugar pelo 18º ano consecutivo. Ao longo do ano, 80 pessoas trans foram mortas no país em crimes marcados, em grande parte, por extrema crueldade, segundo dados consolidados a partir de monitoramento nacional da violência transfóbica.
Os números foram constam no Dossiê: Assassinatos e Violências Contra Travestis e Transexuais Brasileiras, elaborado pela Associação Nacional de Travestis e Transexuais (Antra), que reúne e analisa registros de homicídios e outras formas de violência cometidas contra essa população em todo o território nacional. Apesar da redução numérica em relação ao ano anterior — quando foram contabilizadas 122 mortes —, o levantamento aponta que a queda de 34% não pode ser interpretada como avanço.
A presidenta da Antra e autora do dossiê, Bruna Benevides, destaca que a permanência de números elevados revela um cenário estrutural de exclusão e negligência. “Apesar do número menor de um ano para outro, é revoltante termos 80 pessoas assassinadas por serem quem são. Estamos falando de um problema recorrente, monitorado há mais de 18 anos consecutivos, sustentado por omissões do Estado e pela naturalização social da morte de corpos trans”, afirmou.
O estudo também chama atenção para o aumento das tentativas de homicídio, que passaram de 57 casos em 2024 para 75 em 2025. O crescimento desse indicador reforça a avaliação de que a diminuição no total de assassinatos não representa, na prática, uma redução da violência. Para Benevides, os dados precisam ser lidos de forma crítica: “Não podemos ler os números como uma melhora. O que se impõe é mais invisibilidade e abandono institucional. Menos números nesse caso, não quer dizer menos violência, infelizmente”.
Ranking dos estados
No recorte estadual, Ceará e Minas Gerais lideram o ranking de assassinatos em 2025, com oito casos cada. Em seguida aparecem Bahia e Pernambuco, com sete registros. Goiás e Mato Grosso ocupam a terceira posição, com cinco mortes cada. Paraíba, Rio Grande do Norte, Paraná e São Paulo contabilizaram quatro assassinatos por estado, enquanto o Distrito Federal registrou dois casos no período analisado.
O perfil das vítimas permanece praticamente inalterado em relação a anos anteriores. A maioria das pessoas assassinadas são travestis e mulheres trans, predominantemente jovens, com idades entre 18 e 35 anos. O dossiê aponta ainda que pessoas negras seguem sendo as mais atingidas, evidenciando a sobreposição de vulnerabilidades relacionadas a gênero, raça e condição social.
A concentração geográfica da violência continua mais acentuada na região Nordeste, com destaque para estados que historicamente apresentam altos índices de assassinatos de pessoas trans entre 2017 e 2025, como Ceará e Bahia. São Paulo também aparece de forma recorrente entre os estados com maior número de registros na região Sudeste, reforçando o caráter nacional e persistente da violência transfóbica no Brasil.

